A favor de Althusser: revolução e ruptura na teoria marxista

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A favor de Althusser

 Luiz Eduardo Motta. A favor de Althusser: revolução e ruptura na teoria marxista. Rio de Janeiro : Gramma, Faperj 2014.

Maurício Vieira Martins. Doutor em Filosofia, membro do Conselho Consultivo de marxismo21.

I.

“A vantagem de Althusser em relação a Foucault parece evidente. Althusser procede exatamente no sentido inverso – desde o começo, concebe estes microprocessos como partes dos AIE [Aparelhos Ideológicos de Estado], ou seja, como mecanismos que, para serem atuantes, para ‘captarem’ o indivíduo sempre já pressupõem a presença maciça do Estado, a relação transferencial do indivíduo com o poder do Estado, ou, nos termos de Althusser – com o Outro ideológico em que se origina a interpelação” (Zizek, apud Motta: pp.98/99, n. 95)

É desta forma que Slavoj Zizek se pronuncia sobre as diferenças das concepções de poder entre Althusser e Foucault. O que a argumentação de Zizek deixa claro é que a posição althusseriana se beneficia de uma incorporação de conceitos oriundos de um outro campo do saber, a psicanálise: ao invés de endossar a (manifesta) dispersão do poder por todas as instâncias da sociedade, Althusser nos mostra que mesmo esta dispersão supõe o Outro ideológico que desde cedo se infiltra na experiência vivida das diversas classes sociais. Saturados pela linguagem em sua articulação com a vida social, sujeitos e classes sociais se remetem diuturnamente a uma alteridade que os constitui. Notemos, porém, que Foucault era particularmente resistente a fazer tal incorporação da psicanálise, por lê-la, sobretudo, no registro de um dispositivo de controle social.

Para quem se interessa por esta e por outras contribuições de Althusser ao marxismo, já existe um livro de um autor brasileiro que mapeia de forma rigorosa aspectos importantes do pensamento do filósofo franco-argelino. Em A favor de Althusser: revolução e ruptura na teoria marxista, Luiz Eduardo Motta oferece um amplo panorama do trajeto do filósofo, de vários de seus conceitos, e da áspera controvérsia que se travou em torno deles. Dividido em quatro capítulos, o texto consegue percorrer momentos distintos da obra (com ênfase na famosa fase de autocrítica de Althusser), elegendo aqueles núcleos temáticos que mais geraram repercussões no âmbito do debate político e acadêmico.

Com este intuito, o primeiro capítulo introduz o leitor a Althusser, apresentando inicialmente alguns dados biográficos e o ambiente intelectual e político em que o filósofo produziu. Motta, ele próprio um althusseriano, afirma que o pensador foi objeto de críticas que desconheciam o conteúdo de seu pensamento, truncando-o ao ponto de o tornarem irreconhecível: o texto é particularmente ácido com o historiador inglês E. P. Thompson que, em A miséria da teoria, teria produzido “uma das críticas mais caricatas e grotescas da teoria de Althusser” (p. 14), afirmação a ser devidamente debatida, a nosso ver, pelos estudiosos deste proeminente historiador. Logo a seguir, Motta recupera alguns temas característicos do althusserianismo, como sua polêmica com o humanismo (por ele considerado como uma perspectiva fortemente ideológica, contaminada por crenças liberais), sua nova concepção de dialética (e sobre ela retornaremos logo a seguir), bem como examina o teor do relacionamento existente entre Althusser e o stalinismo, um tema sempre tenso no âmbito do marxismo. Nesta apresentação inicial, emerge a distância aberta por Althusser frente à pesada ortodoxia então vigente nos partidos políticos de esquerda – que frequentemente produziam apenas manuais exortatórios – rebaixando o pensamento de Marx a uma vulgata para uso cotidiano. Daí a necessidade de se pensar o “marxismo enquanto uma problemática aberta, sem uma finalidade já dada, e sem um Sujeito centrado a priori” (p. 42), em tudo distante de uma teleologia histórica e de uma filosofia do sujeito.

O segundo capítulo aborda a importância dos conceitos de contradição e sobredeterminação. Recorrendo a Sobre a contradição, texto ainda pouco discutido de Mao-Tse Tung no Brasil, Motta acompanha a elaboração de Althusser feita sobre ele. Há que destacar a singularidade da concepção de dialética daí resultante, pois nela não encontramos uma síntese apaziguadora dos momentos contraditórios. Concepção que pode ser nomeada como uma dialética sem síntese, que gera permanentemente um empuxo para um devir histórico imprevisível. Mesmo numa sociedade que luta por uma transição para o socialismo, as contradições permanecem; seria ilusório esperar por um estancamento do processo histórico (p. 48).  ler mais

 

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