A hipocondria da antipolítica

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Luciano Martorano, professor da Unifal, MG, e do comitê editorial de marxismo21

Domenico Losurdo não é um autor desconhecido no Brasil. Não só pela contínua publicação de seus mais diferentes trabalhos (entre eles, Nietzsche – o rebelde aristocrata; Stalin – crítica de uma lenda negra; Contra história do liberalismo etc), como também  por sua participação pessoal em diferentes atividades e eventos realizados em todos o país, ele tornou-se uma referência no debate intelectual e político sobre os mais diferentes temas (China, Gramsci, democracia, bonapartismo, império, não violência, etc.). Agora, com A hipocondria da antipolítica, o leitor brasileiro poderá aprofundar ainda mais a análise sobre uma de suas maiores influências teóricas: a de Hegel; já presente em seus demais trabalhos – como na obra anterior publicada no Brasil Hegel, Marx e a tradição liberal -, mas agora exposta de forma bem mais desenvolvida.

O livro é uma coletânea de 15 artigos publicados ao longo de mais de trinta anos (de 1967 a 2000), e foi lançada na Itália em 2001 com um subtítulo menos enfático que o da tradução brasileira: La critica de Hegel ieri e oggi (A crítica de Hegel ontem e hoje), pois não menciona a sua “atualidade”. Isso já indica que o livro não analisa apenas a “antipolítica” – tema por si só muito atual -; e nem tampouco se limita a um balanço sobre a contribuição filosófica de Hegel para a história do pensamento ocidental.

Apesar de formada por artigos autônomos entre si, a obra apresenta unidade temática e coerência interna ao situar o pensamento hegeliano no contexto do desenvolvimento histórico e político da Alemanha e da Europa,  com base no pressuposto – que poderia ser mais explicitado e desenvolvido – da existência de uma analogia histórica entre o mundo de hoje e o período posterior à derrota da revolução de 1848 (genericamente entendidos como “momentos cruciais de crise da revolução ou do projeto político de transformação”,p.13), além daquele que se seguiu à Revolução Francesa do século XVIII.

Mas por que retomar o debate sobre Hegel hoje, mesmo sabendo-se de sua contribuição direta para o surgimento da dialética materialista ? Lembremos que já em 1947, Andrej Zhdanov – ideólogo do governo soviético nos anos 30 a 50 do século passado -, sentenciava: “- Já faz tempo que a questão Hegel foi resolvida.” Declaração que revela, mais uma vez, a tentativa do governo soviético em estabelecer a pauta da investigação teórica do marxismo a partir de decisões do partido e do Estado e a serviço de sua política mais imediata. Posteriormente, ela foi desmentida por trabalhos fundamentais de autores como Georg Lukács e Louis Althusser – não por acaso, os responsáveis pelas duas últimas correntes teóricas do pensamento marxista no plano internacional.  ler mais

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