Astrojildo Pereira

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Duas semanas após seu lançamento, marxismo21 passa a publicar, com regularidade, textos de autores que têm uma presença relevante na formação e consolidação do pensamento marxista no Brasil. Igualmente, serão aqui postadas matérias de pesquisadores que discutem aspectos das obras desses marxistas. Coerente com esta orientação editorial, nada mais adequado do que inaugurar esta seção com um texto de Astrojildo Pereira, um dos fundadores do marxismo no Brasil. O acerto desta decisão ainda mais se reforça com a publicação de um valioso e lúcido texto – praticamente desconhecido pelos pesquisadores – do marxista brasileiro. Somos gratos a José Luiz Del Roio que nos privilegiou com A Revolução russa, breve artigo editado no número 1 da revista O Debate (12 de julho de 1917), pouco menos de três meses da Revolução de Outubro.

Sobre este lúcido e premonitório texto, publicamos um breve artigo de José Luiz Del Roio. Por sua vez, o significado da obra teórica e a trajetória política de Astrojildo Pereira são examinados em textos de quatro pesquisadores brasileiros: Augusto Buonicore, Marcos Del Roio,  Martin Cezar Feijó e Santiane Arias.  

Somos gratos pelas inúmeras mensagens recebidas nestas duas semanas de existência do blog. Elas nos convencem ainda mais da relevância e da pertinência de marxismo21: uma proposta editorial democrática, plural e unitária no campo das esquerdas brasileiras. Por último, informamos que para receber informações regulares do blog, deve-se fazer o devido cadastramento (ao lado).

Os Editores.

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A Revolução Russa *

Astrojildo Pereira

 Bem difícil, sem dúvida, é precisar o curso dos atuais acontecimentos na Rússia. Aliás, seria rematada tolice pretender firmar tais ou quais traços definitivos do grande movimento que deu por terra, abruptamente, com a casta dos Romanof, e com ela, de cambulhada, todas as demais castas aristocráticas e monopolizadoras das riquezas e do poder.

Movimento de tal magnitude e complexidade, revolvido por mil correntes diversas, há de por força manifestar-se confuso e contraditório, com altos e baixos, com claros e escuros violentos. Impossível, pois, determinar em linhas inflexíveis os traços essenciais dos fatos revolucionários e suas consequências. O que não quer dizer que, em meio do cipoal dos telegramas e correspondências e de outros documentos mais raros, não se possa fazer uma ideia mais ou menos aproximada do grande drama político – grande por si mesmo e ainda maior pelas suas consequências – da orientação que o tem guiado e das tendências que o caracterizam.

Os dois núcleos orientadores do movimento, a Duma e o Comitê de Operários e Soldados, este surgido da própria revolução, logo tomaram posições antagônicas, terminado o primeiro golpe demolidor. A Duma, vinda do antigo regime, pode dizer-se representa, em maioria, a burguesia moderada e democrática, ao passo que o Comité de Operários e Soldados, composto de operários, representa o proletariado avançado, democrata, socialista e anarquista. A Duma deu o governo provisório e o primeiro ministério; o Comité de Operários e Soldados derrubou o primeiro ministro, influiu poderosamente na formação do segundo e tem anulado quase por completo, senão de todo, a ação da Duma.

Insignificante, sem nenhum peso, pelo menos até agora, o elemento reacionário e aristocrático, a situação russa tem que obedecer, na sua luta pela estabilização pública, às duas forças principais enfeixadas pelo proletariado socialista e anarquista e pela burguesia democrática e republicana. A qual das duas forças está destinada a preponderância na reorganização da vida russa? O que se pode afirmar com certeza é que essa preponderância tem cabido, até agora, ao proletariado.

E como o proletariado, cuja capacidade política já anulou o papel da Duma burguesa, está também com as armas na mão, não encontrando, pois resistência séria aos desígnios, não muito longe da certeza andará quem prever a sua contínua preponderância, até completa absorção de todos os campos da vida nacional, extinguindo-se, de tal modo num prazo mais ou menos largo a divisão do povo em castas diversas e inimigas.

E inútil é insistir na influencia que tais acontecimentos exercerão no resto do mundo, na obra de reconstrução dos povos, cujos alicerces estão sendo abalados pelo fragor inaudito dos grandes canhões destruidores…

* Revista O Debate, no. 1, vol. 1, Rio de Janeiro,  julho de 1917.

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Lenin Revolução

Astrojildo e Lênin

José Luiz Del Roio *

Quando os editores de marxismo21 me pediram um artigo de Astrojildo Pereira para publicar neste blog, recordei-me imediatamente de um pequeno texto publicado na revista O Debate de julho de 1917.

Em 1911, Astrojildo tinha aderido às ideias anarquistas depois da desilusão com o movimento civilista de Rui Barbosa e o horror às injustiças. Naquele momento ficou golpeado com a repressão da Revolta da Chibata e a execução, na Espanha, do criador da Escola Moderna, Francisco Ferrer.

Numa aventurosa viagem a Europa tomou contato com “agitadores sociais” e encheu sua pobre mala de livros anarquistas. Ao voltar, jogou-se com todo o vigor de sua juventude inteiramente à causa que havia aderido; desde então tornou-se um ponto de referência para os militantes em todo o pais.

Quando eclodiu a I Guerra Mundial, fez denúncias contra aquela mortandade; em 1915, organizou um Congresso pela Paz. Mas o horizonte parecia totalmente obscuro. Um brilho surgiu com a revolução de fevereiro de 1917, na Rússia, que liquidou a monarquia dos Romanov. Os anarquistas brasileiros festejaram, mas suas análises sobre o grande evento eram frágeis e confundiam os seus desejos com a realidade.

Astrojildo moveu-se de forma diferente. Muito importantes eram os acontecimentos que se passavam naquele longínquo país para não entendê-lo em profundidade e ver quais ensinamentos poderiam ser úteis.

Com os poucos materiais que podia contar à época, estudou com afinco; escreveu inúmeros artigos, polemizou com seus companheiros e com a imprensa reacionária. Nesta labuta afastou-se do anarquismo e chegou ao marxismo, sendo o principal artífice da construção da seção brasileira da Internacional Comunista – o partido comunista – em 1922.

O artigo acima representa o inicio de seu percurso que, como se pode ver, já é muito consistente. A linguagem é anarquista, mas os conceitos já são incrivelmente “leninistas”.  O núcleo do artigo é a afirmação de que existem dois poderes no bojo da revolução russa: a Duma burguesa e o Soviete de operários e soldados. Que estes são antagônicos e entrarão em conflito total e que o Soviete deverá vencer, pois tem também o poder das armas, nas mãos dos soldados. Genial percepção, pois foi isso mesmo que aconteceu na Rússia em outubro, poucas semanas depois.

Em 20 de abril, Lênin publicou no Pravda suas teses sobre a revolução, conhecidas exatamente como “Teses de abril”, embora no calendário gregoriano (vigente no Brasil) fosse já o dia 4 de maio. Ali o líder bolchevique colocou a questão dos dois poderes.  Teria Astrojildo tido acesso a este escrito? Pode ser. A pista está na frase (…) no meio do cipoal dos telegramas e correspondências e outros documentos mais raros (…)” Pode ser, mas é difícil acreditar. A tecnologia da comunicação era atrasada; a Europa estava em guerra e a censura dominava. Além do mais, Lênin ainda não era o nome que seria aclamado pelo proletário mundial poucos meses depois; era pouco conhecido. Sabe-se que no texto de abril, Lênin dizia que os bolcheviques eram poucos. “O nosso partido é pequeno e por enquanto é uma ínfima minoria na maior parte dos sovietes dos deputados operários (…)”

Se Astrojildo leu o escrito de Lênin, teve a imensa capacidade – naquela situação política confusão e totalmente isolado – de compreender os rumos corretos da revolução russa. Naquele momento foi, no Brasil, o único que teve essa clareza e capacidade de compreensão. Fato que comprova a sua sede de buscar, pesquisar, estudar e criar.

Se não leu o escrito de Lênin, só me cabe repetir, foi genial. De qualquer forma, o marxismo tinha dado um passo de gigante no áspero terreno do Brasil.

  • José Luiz Del Roio – escritor, fundador do Arquivo Histórico do Movimento Operário Brasileiro (Unesp) e ex-senador da República Italiana (Partido da Refundação Comunista).

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Textos de sobre a obra de Astrojildo Pereira

Astrojildo Pereira e a gênese do comunismo no Brasil, Augusto BUONICORE   acesso
Astrojildo Pereira e a revista Estudos Sociais, Santiane ARIAS

acesso

Astrojildo Pereira: fundador do marxismo no Brasil, Marcos Del ROIO

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Astrojildo Pereira, Leando KONDER

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Um revolucionário cordial, Martin Cezar FEIJÓ. O texto – extraido de livro (cedido por Boitempo) – é acompanhado de criteriosa bibliografia de Astrojildo Pereira e sobre o autor.

acesso

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Instituto Astrojildo Pereira

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