michael löwy

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Formado em Ciências Sociais na USP, Michael Löwy, a partir de 1961 – com 23 anos de idade -, radicou-se na França. Atualmente é Diretor Emérito de pesquisa do Centre National de la Recherche Scientifique, CNRS, Paris, França; sua extensa obra tem sido publicada em mais de 25 países do mundo. Na melhor tradição do marxismo clássico, Michael Löwy busca articular a reflexão teórica de qualidade e uma atuante militância política. A Apresentação da entrevista, aqui publicada, sintetiza bem sua trajetória intelectual: internacionalismo, espírito militante, firmeza de princípios, radicalidade, generosidade intelectual, política e pessoal.  Prova eloquente dessas afirmações é a sua intensa e fraterna colaboração com movimentos sociais e políticos, centros de pesquisas e publicações de todas as orientações de esquerda no Brasil e em todo o mundo. Além da entrevista, divulgamos alguns de seus inúmeros textos editados no país, vídeos, blog pessoal e informações sobre as atividades pesquisas e obras de Michael Löwy.

Editores

 I. Entrevista com Michael Löwy

Em 1961, uma vez licenciado em Ciências Sociais pela USP, fui para Paris com uma bolsa de estudos e a intenção de fazer minha tese de doutorado (terceiro ciclo) com Lucien Goldmann. O tema era a evolução política e filosófica do jovem Marx, questão que eu já havia começado a trabalhar no Brasil (outro artigo na Revista Brasiliense). A orientação da tese era “luxemburguista”: a idéia da auto-emancipação revolucionária dos trabalhadores nos escritos de juventude de Marx e sua relação dialética com a filosofia da praxis das Teses sobre Feuerbach [1845]. Rompendo com a concepção maquiavélica ou jacobina da revolução “por cima”, Marx considera a auto-emancipação dos oprimidos como a única forma efetiva de libertação: no processo de praxis revolucionária da classe coincidem a autotransformação das consciências e a subversão das estruturas sociais. A filosofia da praxis marxista supera assim, “dialeticamente”, a oposição entre o idealismo neo-hegeliano, que apostava na modificação das consciências, e o materialismo da ilustração, que preconizava a mudança das “circunstâncias materiais”. Tentei aplicar ao próprio Marx o método de sociologia da cultura de Goldmann, relacionando as idéias do pensador com um grupo social, a classe operária européia em processo de constituição, através de suas primeiras lutas. Minha tese foi apresentada na Sorbonne em 1964, mas acabou só sendo publicada, pelas Éditions Maspero, em 19702. Goldmann me deu total apoio, embora tivesse alguns desacordos teóricos e políticos com a tese: brincando, eu lhe dizia que me considerava um “neogoldmanianno de esquerda”. ler mais

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Por um marxismo crítico

Michael Löwy

Se continuo a me referir ao marxismo é porque não penso que Marx fosse (para retomar uma fórmula célebre) “um homem de ciências como os outros”. Seu pensamento introduz, como destaca com razão Gramsci, uma cisão no campo cultural, tanto teórica como prática, filosófica e política, cujos efeitos repercutem até o presente. Ela inaugura não uma “ciência da história” — que já existia antes dele — mas uma nova concepção de mundo, que permanece uma referência necessária para todo pensamento e ação emancipadores. O marxismo não tem sentido se não é crítico, tanto em face da realidade social estabelecida — qualidade que faz imensa falta aos “marxismos” oficiais, doutrinas de legitimação apologética de uma ordem “realmente existente” — quanto ante ele próprio, ante suas próprias análises, constantemente questionadas e reformuladas em função de objetivos emancipadores que constituem sua aposta fundamental. Reclamar-se do marxismo exige portanto, necessariamente, um questionamento de certos aspectos da obra de Marx. Parece-me indispensável um inventário que separe o que permanece essencial para compreender e para mudar o mundo, do que deve ser rejeitado, criticado, revisto ou corrigido. Não pretendo que meu balanço seja o único legítimo, nem que ele seja mais “marxista” ou “marxiano” do que os outros. Eu o proponho como uma contribuição para um debate pluralista, sem temer, como dizia Lucien Goldmann, ser ortodoxo, nem herético.

A primeira e talvez maior contribuição de Marx à cultura moderna é seu novo método de pensamento e de ação. Em que consiste esta nova visão de mundo, inaugurada pelas Teses sobre Feuerbach de 1845? A melhor definição me parece ainda a de Gramsci: filosofia da práxis. Este conceito tem a grande vantagem de destacar a descontinuidade do pensamento marxista em relação aos discursos filosóficos dominantes, rejeitando tanto o velho materialismo da filosofia das Luzes — mudar as circunstâncias para libertar o homem (com seu corolário político lógico: o apelo ao déspota esclarecido ou a uma elite virtuosa) — quanto o idealismo neohegeliano (libertar a consciência humana para mudar a sociedade). Marx cortou o nó górdio da filosofia de sua época, proclamando (terceira tese sobre Feuerbach) que na práxis revolucionária coincidem a mudança das circunstâncias e a transformação das consciências. ler mais

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Outros textos do autor:

A Revolução de Outubro e a questão nacional

A teoria do desenvolvimento desigual e combinado

Mudar o mundo sem tomar o poder?

Crise ecológica e alternativa ecossocialista

A crítica do progresso em Adorno

Georg Lukács e Gerges Sorel

Habermas e Weber

Vídeos

As lutas de classes na França

A teoria da revolução no jovem Marx

Blog de Michael Löwy

Livro sobre aspectos da obra de ML

As utopias de Michael Löwy, Boitempo editorial

 

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