Caio Prado Júnior

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CP Jr.

Dando sequência à série de matérias sobre os trabalhos de relevantes autores do pensamento marxista brasileiro, marxismo21 divulga agora a obra de Caio Prado Jr. Nesta página divulgamos o primeiro capítulo de A revolução brasileira, livro que, no final da década de 1960 e nos anos 1970, provocou intensos debates no interior das esquerdas brasileiras. Sofia Manzano, do comitê editorial, escreveu, especialmente para esta seção, um breve artigo sobre o significado teórico e político do livro; outro pesquisador, Luiz Bernardo Pericás, é autor de um texto bio-bibliográfico sobre CPJr.. A seguir, divulgamos documentos, artigos e trabalhos acadêmicos sobre aspectos da obra do historiador marxista brasileiro. Os Editores.

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A Revolução Brasileira

Caio Prado Jr.

O termo “revolução” encerra uma ambiguidade (aliás na verdade muitas, mas fiquemos aqui na principal) que tem dado margem a frequentes confusões.

No sentido em que é ordinariamente usado, “revolução” quer dizer o emprego da força e da violência para a derrubada de governo e tomada do poder por algum grupo, categoria social ou outra força qualquer na oposição. “Revolução” tem aí o sentido que mais apropriadamente caberia ao termo “insurreição”. Mas “revolução” tem também o significado de transformação do regime político-social que pode ser e em regra tem sido historicamente desencadeada ou estimulada por insurreições. Mas que necessariamente não o é. O significado próprio se concentra na transformação, e não no processo imediato através de que se realiza. A Revolução Francesa, por exemplo, foi desencadeada e em seguida acompanhada, sobretudo em seus primeiros tempos, de sucessivas ações violentas. Mas não foi isso, por certo, que constituiu o que propriamente se entende por “revohição francesa”. Não são, é claro, a tomada da Bastilha, as agitações camponesas de julho e agosto de 1789, a marcha do povo sobre Versalhes em outubro do mesmo ano, a queda da Monarquia e a execução de Luís XVI, o terror e outros incidentes da mesma ordem que constituem a Revolução Francesa, ou mesmo simplesmente que a caracterizam e lhe dão conteúdo.

“Revolução” em seu sentido real e profundo, significa o processo histórico assinalado por reformas e modificações econômicas, sociais e políticas sucessivas, que, concentradas em período histórico relativamente curto, vão dar em transformações estruturais da sociedade, e em especial das relações econômicas e do equilíbrio reciproco das diferentes classes e categorias sociais. O ritmo da História não é uniforme. Nele se alternam períodos ou fases de relativa estabilidade e aparente imobilidade, com momentos de ativação da vida político-social e bruscas mudanças em que se alteram profunda e aceleradamente as relações sociais. Ou mais precisamente, em que as instituições políticas, econômicas e sociais se remodelam a fim de melhor se ajustarem e melhor atenderem a necessidades generalizadas que antes não encontravam devida satisfação. São esses momentos históricos de brusca transição de uma situação econômica, social e política para outra, e as transformações que então se verificam, que constituem o que propriamente se há de entender por “revolução” .

É nesse sentido que o termo “revolução” é empregado no título do presente livro. O que se objetiva nele é essencialmente mostrar que o Brasil se encontra na atualidade em face ou na iminência de um daqueles momentos acima assinalados em que se impõem de pronto reformas e transformações capazes de reestruturarem a vida do país de maneira consentânea com suas necessidades mais gerais e profundas, e as aspirações da grande massa de sua população que, no estado atual, não são devidamente atendidas. Para muitos – mas assim mesmo, no conjunto do país, minoria insignificante, embora se faça mais ouvir porque detém nas suas mãos as alavancas do poder e a dominação. econômica, social e política – tudo vai, no fundamental, muito bem, faltando apenas (e aí se observam algumas divergências de segunda ordem) alguns retoques e aperfeiçoamentos das atuais instituições, às vezes não mais que simples mudança de homens nas posições políticas e administrativas, para que o país encontre uma situação e um equilíbrio satisfatórios. Para a grande maioria restante, contudo, e mesmo que ela não se dê sempre conta perfeita da realidade, incapaz que é de projetar em plano geral e de conjunto suas insatisfações, seus desejos e suas aspirações pessoais, o que se faz mister, para lhe dar condições satisfatórias e seguras de existência, é muito mais que aquilo. E sobretudo algo de mais profundo e que leve a vida do país por novo rumo.

E os fatos, adequadamente analisados e profundos, o confirmam. O Brasil se encontra num destes instantes decisivos da evolução das sociedades humanas em que se faz patente, e sobretudo sensível e suficientemente consciente a todos, o desajustamento de suas instituições básicas. (leia mais: acesso)

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Caio Prado Jr. e a construção da revolução brasileira

Sofia Manzano *

 Muitos jovens estudantes brasileiros, desde os anos 1970, estudam a história do país a partir das idéias formuladas por Caio Prado Jr. Principalmente após as reformas educacionais implementadas pela ditadura militar que visaram eliminar a crítica do processo educativo, uma das formas de construir um ensino minimamente crítico, encontrada pelos professores da área de humanas, era ensinar uma história que acertava contas com o passado, e essa história tem sua origem em Caio Prado Jr. Essas palavras expressas aqui por mim não são resultado de nenhuma pesquisa na área da educação, são apenas um testemunho da minha própria experiência, estudando nos anos 1980 nas escolas públicas do estado de São Paulo e em contato com professores de história e geografia que, apesar de não citarem Caio Prado Jr., estavam nos despertando para a compreensão do “sentido” histórico da nação, a partir do “sentido da colonização”.

Caio Prado Jr. foi, assim, ganhando um estatuto clássico na formação dos jovens brasileiros, muito além de sua aceitação na academia. Ali, as controvérsias sobre sua obra sempre foram grandes e as correntes predominantes nos estudos científicos tomaram muitos caminhos, diferentes daqueles apontados por Caio Prado, mas sempre tendo que fazer referência a ele.

Em se tratando aqui de se fazer uma breve apresentação ao capítulo I ao livro de Caio Prado Jr., publicado pela primeira vez em 1966, A Revolução Brasileira, pretendo destacar ao leitor do marxismo21 apenas o que considero fundamental na contribuição desse grande pensador e militante revolucionário brasileiro, vale dizer, o resgate do método marxista para a análise científica da realidade concreta, com vistas à sua transformação rumo ao socialismo. Desde seus primeiros escritos, nos anos 1930, Prado Jr., primou por aplicar uma das principais contribuições de Marx à humanidade, seu método materialista e dialético. Superando, desde cedo, as influências positivistas, dogmáticas (a “teoria consagrada” elaborada pelo VI Congresso da III Internacional, em 1928), e mesmo pragmáticas, que imperavam nas análises da esquerda brasileira – principalmente no principal partido até o final da década de 1970, o PCB, ao qual ele pertencia – Caio Prado Jr., lutou implacavelmente para que a teoria da revolução brasileira fosse compatível com nossa realidade. Diz ele, “trata-se de definir uma teoria revolucionária que seja a expressão da conjuntura econômica, social e política do momento, para as quais essas questões apontam.” Não significando, com isso, para os leitores apressados, que a teoria da revolução brasileira fosse apenas baseada numa análise conjuntural.

Por isso, ele não abre mão de fazer a mais profunda e honesta crítica, até mesmo ao partido ao qual pertencia, por suas deficiências teóricas que, certamente, levaram a uma prática equivocada na construção da revolução no país. Neste livro, que ora apresentamos, Caio Prado afirma que pretende mostrar: “as insuficiências teóricas das esquerdas brasileiras na gênese daquelas ilusões que não lhes permitiram enxergar a realidade da situação e pressentir o desenlace que as aguardava.” Teorias estas que advinham de “modelos estranhos e completamente alheados da realidade do país” que, na prática, contribuíram para a cruel derrota dos trabalhadores brasileiros com o golpe militar de 1964, que custou a vida de valiosos militantes revolucionários brasileiros.

Com o fim da URSS, os militantes revolucionários de todo o mundo quedaram, inicialmente, perplexos, esmagados pela vaga reacionária que a seguiu, mas levantam-se, a partir das lutas em todo o mundo, para a construção de uma alternativa socialista ao capitalismo. Essa nova prática política tem muito que aprender com Caio Prado Jr., que, tendo como âncora fundamental o materialismo dialético de Marx, desde sempre clamou pela máxima de Lênin, ou seja, que em cada parte do mundo, os militantes que se querem revolucionários, devem fazer a “análise concreta da realidade concreta”, sem modelos pré-estabelecidos, mas com critérios científicos.

Durante toda sua vida Caio Prado Jr. foi militante do PCB. Nem por isso aceitou aderir às principais teses do partido, mantendo-se firme estudioso marxista da causa revolucionária brasileira, influenciando gerações de estudiosos e militantes, e sendo respeitado tanto no partido, como no meio acadêmico, apesar de nunca ter sido aceito entre os quadros da universidade.

A divulgação que marxismo21 faz dessa introdução do livro A Revolução Brasileira pretende ser apenas o aperitivo para que nossos leitores retomem, ou iniciem, estudos mais dedicados à obra de Caio Prado Jr., não apenas para reverenciá-lo, mas acima de tudo para aprender com ele como se constrói uma teoria revolucionária, a partir do marxismo, que leve a real construção do socialismo no Brasil.

* Sofia Manzano, economista, professora universitária, diretora do Instituto Caio Prado Jr e comitê editorial deste blog.

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 Sobre a trajetória política de Caio Prado Jr.

Luiz Bernardo Pericás * 

A partir do momento em que ingressou no PCB, em 1931, Caio Prado Júnior iria se destacar como um dos mais importantes intelectuais marxistas do Brasil, ao mesmo tempo em que se empenharia, especialmente naquela década, em cumprir uma intensa agenda como militante. É verdade que desde o final dos anos vinte, a política do Comintern de perseguição a dirigentes e intelectuais que representavam, supostamente, vozes dissonantes dentro da linha de “classe contra classe” propugnada por Moscou, havia resultado na expulsão ou exclusão dos órgãos máximos dos diferentes partidos comunistas, de personalidades destacadas como Jay Lovestone, Benjamin Gitlow e Bertram Wolfe, nos Estados Unidos; Manabendra Nath Roy, na Índia; Heinrich Brandler, na Alemanha; Joaquín Maurín, na Espanha; José Penelón, na Argentina; e Octavio Brandão, Astrojildo Pereira e Leôncio Basbaum no Brasil, só para citar alguns exemplos. A onda de expurgos por “desvios” de direita e pequeno-burgueses abarcou agremiações ligadas à IC em todo o mundo. Caio Prado Júnior se filiou ao PCB, portanto, num período “obreirista” teoricamente desfavorável àqueles com sua trajetória pessoal e origem de classe. Afinal, ele era filho de uma das mais ricas e tradicionais famílias da elite paulista, e fora integrante, desde 1928, do Partido Democrático. Mas isso não impediu que desenvolvesse distintas atividades de apoio aos trabalhadores e à União Soviética.

Já em 1932 foi um dos fundadores de duas entidades importantes, a Sociedade de Socorros Mútuos Internacionais e o Clube de Artistas Modernos. Durante todo aquele ano, trabalhou com entusiasmo para criar cursos marxistas e uma publicação voltada para o movimento operário. Ainda assim, seria acusado pelo Comitê Regional de seu partido de estar planejando um “golpe de Estado” interno e de ter vínculos com elementos “trotskistas”, ambas as acusações que ele rejeitaria categoricamente.  Na ocasião, se situaria no campo do “marxismo-leninismo”.

Logo depois de entrar no Partido Comunista, participou de sessões do “Congresso Social” e da “Sociedade dos Amigos da União Soviética” na capital paulista. A partir de 1933, estabeleceu contato com a Associação de Amigos da União Soviética espanhola, e dois anos mais tarde, na condição de secretário da recém-fundada Associação dos Geógrafos Brasileiros, escreveu para a VOKS, com o intuito de criar uma ponte entre as duas entidades e intercambiar publicações. Nos anos trinta, Caíto também seria responsável pela tradução de Teoria do materialismo histórico, de Nikolai Bukhárin (Edições Caramuru), em quatro volumes.

É importante lembrar que já naquela primeira década no PCB, CPJ iria adquirir a obra completa de Marx, Engels e Lênin, assim como alguns livros de Kaganovich, Stalin, Trotsky, Bela Kun, Rosa Luxemburgo, Georges Sorel, Losovsky e Riazanov.  Ele compraria muitos destes volumes remetendo dinheiro diretamente ao Bureau D’Editions do Partido Comunista Francês, que lhe enviaria periodicamente livros e publicações comunistas. Em outras palavras, Prado Júnior certamente possuía um sólido conhecimento do marxismo, ao contrário do que muitos críticos tentaram insinuar, mesmo que seus textos não refletissem necessariamente isso.

Sua atuação política se aprofundou em 1935, ao se tornar vice-presidente da ANL (Aliança Nacional Libertadora) em São Paulo; por ser um dos principais articuladores da “Frente Popular por Pão, Terra e Liberdade”, no mesmo estado; no exílio na França, entre 1937 e 1939, participando de um comitê em apoio aos refugiados republicanos que lutavam contra as hostes fascistas de Franco na Guerra Civil espanhola; ao manter, na mesma época, ligações com o Partido Comunista Francês; nos embates da II Conferência Nacional do Partido (o “Encontro da Mantiqueira”), em 1943, ao integrar, junto a amigos militantes como Heitor Ferreira Lima, Astrojildo Pereira e Mário Schemberg, os “Comitês de Ação”, que defendiam a luta contra o governo Vargas, em contraposição à Comissão Nacional de Organização Provisória, apoiada por Luiz Carlos Prestes; e ao ser eleito deputado estadual em 1947 (tendo seu mandato cassado no ano seguinte, após dez meses atuando ativamente como parlamentar). (ler mais:  acesso )

* Luiz Bernardo Pericás é historiador e professor pesquisador IEB-USP

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Textos sobre a obra teórica e a trajetória política

Caio Prado Jr., a rebelião moral, Florestan FERNANDES  acesso
Percurso histórico e político de um teórico marxista, Milton PINHEIRO  acesso
O marxismo de Caio Prado Jr., Lincoln SECCO  acesso
Sobre a teoria da Revolução de C. Prado Jr., Plínio A. SAMPAIO JR.  acesso  
O Brasil de Caio Prado Jr., Ângela de SOUZA  acesso
Nação e barbárie: Caio Prado, Jr., F. Fernandes e C. Furtado, Plínio A. SAMPAIO Jr.  acesso
Nação corporativista de C. Prado Jr., João Alberto Costa  acesso
Caio Prado Jr., Leandro KONDER   acesso
Caio Prado Jr.: obra economicista?, Jayro Gonçalves MELO  acesso
Caio Prado Jr. e o capitalismo no Brasil, Virgínia FONTES  acesso
Caio Prado e o desenvolvimento econômico, João Antonio de PAULA  acesso
Caio Prado Jr., Historiador, Fernando NOVAIS  acesso
Caio Prado Jr. e a revolução brasileira, José Carlos REIS  acesso
Caio Prado Jr.: o primeiro marxista brasileiro, Bernardo RICÚPERO  acesso
Caio Prado Jr.: a polêmica feudalismo x capitalismo, Airton LIMA  acesso
Ciência Política em C. Prado Jr.?, Raimudo SANTOS  acesso
Caio Prado e a política, Marco Antônio COELHO  acesso
Dois marxistas brasileiros: CPJ e NWS, Raimundo SANTOS  acesso

          Entidade e documentos relevantes sobre a trajetória intelectual, política e editorial de Caio Prado Jr.

Instituto Caio Prado Jr. (documentos, textos, vídeos)

acesso

Arquivo da Biblioteca Nacional (biografia, atividades políticas, produção intelectual e editorial de CPJr.). Em alguns documentos (v. item “militância”) podem ser conhecidas as razões obscurantistas da prisão do autor pela ditadura militar de 1964.

acesso

Foto de Caio Prado Jr. durante a campanha contra a cassação dos mandatos dos parlamentares comunistas durante o governo Gaspar Dutra (1946-1950)

acesso 

Carta de CPJr. a Lívio Xavier sobre resenha crítica de Evolução Política do Brasil acesso
Carta de CPJr. ao amigo Nelson Werneck Sodré

 acesso

 

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