O enigma do capital.e as crises do capitalismo, David Harvey, Boitempo editorial, por Eleutério Prado
“Este livro” – é assim que Harvey anuncia sinteticamente o teor de O enigma do capital e as crises do capitalismo ora oferecido àqueles que se interessam pelos grandes problemas econômicos da presente época – “é sobre o fluxo do capital” (Harvey, 2011, p. 7). Pois, diz no preâmbulo,
“o capital é o sangue que flui através do corpo político de todas as sociedades que chamamos de capitalistas, espalhando-se, às vezes como um filete e outras vezes como uma inundação, em cada canto e recanto do mundo habitado. É graças a esse fluxo que nós, que vivemos no capitalismo, adquirimos nosso pão de cada dia, assim como nossas casas, carros, telefones celulares, camisas, sapatos e todos os outros bens necessários para garantir nossa vida no dia a dia” (Harvey, 2011, p. 7).
O capitalismo, assim, é concebido como um sistema vivo organicamente dependente da circulação ramificada e ininterrupta de uma substância alimentadora – supostamente o capital (na acepção de Marx). Trata-se, sem dúvidas, de uma metáfora audaciosa que tem por objetivo trazer o conteúdo teórico de O Capital para o plano do senso comum, satisfazendo a ânsia de saber daqueles que ainda se surpreendem com as crises do capitalismo. Por isso mesmo, para compreendê-la bem é preciso considerá-la em confronto com a concepção de capital da economia vulgar. Como se sabe, para esta, por exemplo, uma máquina que serve numa unidade de produção fabril é obviamente capital. Ora, se a economia vulgar reifica desse modo a forma – pois, confunde a forma (modo de existência em devir do capital) com o suporte da forma (o valor de uso por meio do qual o capital subsiste temporariamente) –, Harvey reifica o conteúdo dessa forma (a substância do capital) ao concebê-lo como algo fluente que pode ser apreendido empiricamente. E é precisamente o que decorre dessa demanda que aqui se pretende examinar de um ponto de vista conceitual – e lógico. ler mais