Heleieth Saffioti

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saffioti

Neste 8 de março de 2016, o dossiê Heleieth Saffioti. Coordenado por Danilo Enrico Martuscelli, da Editoria de marxismo21, o dossiê traz um extenso e diversificado conjunto  de textos da autora, importante figura da resistência feminina no pais. A obra de Heleieth Saffioti é uma justa homenagem à autora que, no campo das ciências sociais no Brasil, representa uma inovação nos estudos sobre as questões de gênero, valorizando a importância da discussão sobre as lutas femininas, sem dissociá-las da polêmica questão da luta de classes no capitalismo contemporâneo.

Desde janeiro de 2013, quando publicou o dossiê “marxismo e feminismo” – organizado à época por Angélica Lovatto e Paulo Barsotti -, marxismo21 dá ênfase ao tema. O dossiê tem sido republicado nos dias 8 de março de cada ano, sendo sempre muito acessado. No conjunto bibliográfico selecionado, encontravam-se também – como não podia deixar de ser – muitos textos de Heleieth Saffioti, inclusive a disponibilização de um dossiê sobre a autora, publicado pela revista Lutas Sociais, n.27.

Mas já era hora de ser organizado um dossiê específico sobre Heleieth Saffioti. Nele, o leitor(a) poderá acessar seus livros, artigos, entrevistas, além de documentos e trabalhos produzidos sobre a obra da autora, muitos deles de difícil acesso em nossos acervos acadêmicos.

A Editoria é grata a Angélica Lovatto (Unesp) e Renata Gonçalves (Unifesp) pela organização do dossiê que contou também com a valiosa colaboração de estudiosos da obra da autora e da problemática do feminismo. Agradecidos somos, pois, a Juliane Furno, Luciana Camargo Bueno, Maira Abreu, Maria Antônia Cardoso Nascimento, Maria Aparecida de Moraes Silva, Raphael Baptista e Rodrigo Duarte Fernandes dos Passos.

Editoria

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Heleieth Saffioti e o marxismo feminista

Renata Gonçalves

Neste 8 de março de 2016, o blog marxismo21 nos presenteia com a divulgação de grande parte da obra da socióloga feminista marxista Heleieth Saffioti. Eis um belo convite à reflexão sobre a origem do próprio Dia Internacional da Mulher. Longe de um simples evento de mercado em que se ganham flores e presentes, o 8 de março foi dedicado à luta dos movimentos de mulheres em todo o mundo. marxismo21 nos repõe o desafio para refazermos o vínculo entre as lutas pelo fim da desigualdade entre os sexos e pela transformação social, que nem sempre se manteve tão íntegro.

Com imensa criatividade teórica, Saffioti deu pistas para a reconstrução deste fio. Em condições muito desfavoráveis, ajudou a colocar, em novos termos, o marxismo no interior da luta das mulheres e vice-versa. Daí a importância de seu primeiro grande livro, A mulher na sociedade de classes.

Fruto do que deveria ter sido sua tese de doutorado, a publicação do livro resultou de muitas ousadias. A começar pela aventura de escrever sobre um tema pouco aceito, num ambiente predominantemente masculino, com um referencial teórico marxista, durante uma ditadura militar. A escassez era grande: pouquíssima literatura feminista, ausência de fontes organizadas sobre a condição feminina no país e carência bibliográfica acerca dos referenciais teóricos.

Era 1967, Heleieth já alçava voos como docente da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara (FFCLA), da hoje Universidade Estadual Paulista. Com aspirações socialistas e rodeada de comunistas, tinha consciência do incômodo que causava. Tamanhas foram as pressões no interior da Faculdade que, para preservar sua orientanda, Florestan Fernandes a encaminhou diretamente para a livre-docência. Em pouco tempo, a tese virou livro e o livro ganhou o mundo.

Publicado pela primeira vez em 1969, A mulher na sociedade de classes não teve inicialmente grande repercussão no Brasil. Eram ainda incipientes os estudos e movimentos feministas no país, que ganhariam corpo no calor do combate à ditadura militar e com as contribuições da Segunda Onda feminista que crescia na Europa e nos Estados Unidos. O livro publicado em inglês, em 1978, pela Monthly Review colocou em evidência o pioneirismo de Heleieth Saffioti: a primeira mulher na América Latina a escrever sobre a condição feminina na perspectiva da transformação social. A repercussão incluiu muitas críticas: ser marxista demais, ser feminista de menos e vice-versa. ler mais

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Dossiê Heleieth Iara Bongiovani Saffioti – marxismo, gênero e feminismo

 Livros:

A mulher na sociedade de classes: mito e realidade

Do artesanal ao industrial: a exploração da mulher – um estudo de operárias têxteis e de confecções no Brasil e nos Estados Unidos

Emprego doméstico e capitalismo – tomo 1 (1978)

Emprego doméstico e capitalismo – tomo 2 (1979)

Gênero, patriarcado, violência

Mulher brasileira é assim (co-organizadora Monica Muñoz-Vargas)

O poder do macho

Violência de gênero: poder e impotência

Women in class society

Artigos:

A discriminação de gênero e as diversas formas de violência contra a mulher

A exploração sexual de meninas e adolescentes: aspectos históricos e conceituais

A mulher e as contradições do capitalismo agrário (coautoria com Vera L. S. B. Ferrante)

A mulher sob o modo de produção capitalista

A questão da mulher na perspectiva socialista

A vida privada de pessoas públicas: Clinton vs. Lewinsky

Abuso sexual pai-filha

Brasil: violência, poder e impunidade (coautoria com Suely Souza de Almeida)

Circuito fechado: abuso sexual incestuoso

Conceituando o gênero

Considerações sobre o fenômeno urbano no Brasil (coautoria com Maria das Graças Grossi Ackermann)

Contribuições feministas para o estudo da violência de gênero

Contributions féministes pour l’étude de la violence (dans les rapports sociaux) de genre

Da casa para a “rua”: a caminhada das mulheres bóias-frias (coautoria com Vera L. S. B. Ferrante)

Diferença ou indiferença: gênero, raça/etnia, classe social

Enfim, sós Brasil rumo a Pequim

Famílias rurais no Estado de São Paulo: algumas dimensões da vida feminina (coautoria com Vera Lúcia Silveira Botta Ferrante)

Força de trabalho feminina no Brasil: no interior das cifras

Gênero e patriarcado

Grande perda para a sociologia brasileira (homenagem a Luiz Pereira)

Incesto versus abuso incestuoso ou amor versus violência

Já se mete a colher em briga de marido e mulher

Movimentos sociais: face feminina

Novas perspectivas metodológicas de investigação das relações de gênero

O estatuto teórico da violência de gênero

O fardo das brasileiras – de mal a pior

O segundo sexo à luz das teorias feministas contemporâneas

O trabalho da mulher no Brasil

Ontogênese e filogênese do gênero

Política agrícola no Brasil contemporâneo e suas consequências para a força de trabalho feminina

Primórdios do conceito de gênero

Quantos sexos? Quantos gêneros? Unissexo/Unigênero?

Quem tem medo dos esquemas patriarcais de pensamento?

Rearticulando gênero e classe social

Relações de gênero: violência masculina contra a mulher

Reminiscências, releituras, reconceituações

Ser ou estar sociólogo

Subjetividad

The social position of women

Trabalho feminino e capitalismo

Violence sexuelle et prostitution au Brésil contemporain

Violência contra a mulher e violência doméstica

Violência de gênero no Brasil atual

Violência de gênero: o lugar da práxis na construção da subjetividade

Violência doméstica ou a lógica do galinheiro

Violência doméstica: questão de polícia e da sociedade

Violência estrutural e de gênero – mulher gosta de apanhar?

Women, Mode of Production, and Social Formations

Prefácios:

Prefácio da obra Errantes do fim do século, de Maria Aparecida de Moraes Silva

Prefácio da obra O “bóia-fria”: acumulação e miséria, de Maria Conceição D’Incao e Mello

Um prefácio diferente, mas nem tanto da obra Mulheres espancadas: violência denunciada, de Maria Amélia Azevedo

 

Entrevistas:

Entrevista com Heleieth Saffioti (entrevistada por Juliana Cavilha Mendes e Simone Becker)

Heleieth Saffioti por ela mesma: antecedentes de “A mulher na sociedade de classes (entrevistada por Renata Gonçalves e Carolina Branco)

SAFFIOTI, Heleieth (Entrevistada por Natalia Pietra Méndez)

Documentos:

Noticiário do campus de Araraquara

Trabalhos sobre Heleieth Saffioti

Albenício Lourenço da Silva e Marta Rosenaide Lucena. Gênero e emancipação humana: uma reflexão sócio-cultural

Albertina de Oliveira Costa e Cristina Bruschini. Uma contribuição ímpar: Os Cadernos de Pesquisa e a consolidação dos estudos de gênero

Angélica Lovatto. Desvendando O poder do macho: um encontro com Heleieth Saffioti

Barbara Celarent. Women in Class Society (resenha)

Bila Sorj. Dois olhares sobre Heleieth Saffioti: o feminismo adentra a academia

Céli Regina Jardim Pinto. O feminismo bem-comportado de Heleieth Saffioti (presença do marxismo)

Elaine Bezerra. A originalidade do pensamento de Heleieth Safifoti na análise crítica sobre a condição da mulher na sociedade capitalista (resenha)

Estudos Feministas. Nota de falecimento: Heleieth Saffioti (1934-2010)

Fabrícia F. Pimenta. Resenha do livro Gênero, Patriarcado, Violência, de Heleieth Saffioti

Fernanda Pompeu. Heleieth Saffioti (Brasileiras guerreiras da paz – projeto 1000 mulheres)

Joana Maria Pedro, Soraia Carolina de Mello, Veridiana Bertelli Ferreira de Oliveira. O feminismo marxista e o trabalho doméstico: discutindo com Heleieth Saffioti e Zuleika Alambert

Leila de Menezes Stein, Mariana Tonussi Milano, Géssica Trevizan Pera, Janaína Oliveira, Joyce Ancelmo, Beatriz Isola Coutinho. Homenagem a Heleieth Saffioti

Leonardo Nogueira Alves. Relações de gênero e patriarcado: uma contribuição crítica

Lúcio Flávio de Almeida. Heleieth Saffioti!

Luzinete Simões Minella. Heleieth Saffioti, uma pioneira dos estudos feministas no Brasil

Maelly da Silva Veron. Heleieth I. B. Saffiotti (1934-2010): contribuições norteadoras para pesquisa sobre violência doméstica e intrefamiliar contra a mulher

Margareth Rago. As mulheres na historiografia brasileira

Maria Amélia de Almeida Teles. Heleieth, a ousadia do livre pensar feminista ! (1934 – 2010)

Maria Aparecida de Moraes Silva. Uma homenagem a Heleieth Saffioti: minha maior mestra

Mary Garcia Castro. Notas sobre a potencialidade do conceito de patriarcado para um sujeito no feminismo. Contribuições de Heleieth Saffioti- em memória e pelo devir

Natalia Pietra Mendéz. Com a palavra, o segundo sexo: percursos do pensamento intelectual feminista nos anos 1960

Natalia Pietra Mendéz. A “descoberta” do segundo sexo: intelectuais brasileiras e suas aproximações com o feminismo

Olívia Rangel Joffily. Esperança equilibrista. Resistência feminina à ditadura militar no Brasil (1964-1985)

Renata Gonçalves. Heleieth Saffioti e a articulação entre teoria marxista e ideias feministas nas Ciências Sociais

Renata Gonçalves. O feminismo marxista de Heleieth Saffioti

Rohrlich-Leavitt Ruby. H.I.B. Saffioti, Women in Class Society (Resenha)

 Vídeos

1- A mulher na sociedade de classes hoje: redescobrindo Heleieth Saffioti

2 – Homenagem a Heleieth Saffioti

3- Lançamento de A mulher na sociedade de classes, de Heleieth Saffioti

4- Mesa redonda: o legado das feministas que se foram: Bel, Cuca, Cristina, Heleieth e Karin

5- Irmão de Heleieth Saffioti durante lançamento de A mulher na sociedade de classes

 

 

2 Comentários

  1. A teoria marxista é um acervo dos mais ricos para aproximar a humanidade do sonhado paraiso terrestre, promovendo a igualdade entre homens e mulheres. Essa é uma luta quase eterna, quase uma utopia, mas vale a pena engajar-se nela para dar sentido à vida humana. Gosto demais do blog “marxismo/21”.

  2. Antonio Elias Sobrinho on

    A questão da mulher, sempre foi um tema visto com muita reserva. Antes do fortalecimento do movimento feminista, a nivel internacional, foi sempre visto de forma mistificada ou romantizada, apropriado quase exclusivamente pela ideologia dominante e pelo mercado.
    Mesmo as forças de esquerda, hegemonizadas por uma certa visão dogmática do marxismo, que tentava colocar todas as questões sociais numa certa camisa de força da luta de classes, via com desdém a questão feminina, como sendo algo menor, ou uma reivindicação de mulheres de camadas médias, cooptadas por reivindicações burguesas, que só contribuíam para desvios da questão central localizada na luta contra a burguesia.
    Foi preciso um bom tempo, com muito debate e muitas evidências históricas, para que as esquerdas entendessem que existem questões específicas sérias, forjadas pelo desenvolvimento de um sistema baseado na exploração do capital sobre o trabalho mas que também produziu distorções enormes entre as pessoas, entre elas a questão de gênero.

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