O feminismo marxista na atualidade

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Os desafios do feminismo marxista na atualidade.

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 I. Apresentação

Desde sua criação, marxismo21 tem se comprometido a publicar dossiês de textos digitalizados sobre as produções teóricas e as análises concretas orientadas pela teoria marxista. Ênfase especial tem sido dada à produção teórica produzida por intelectuais e militantes marxistas brasileira(o)s.

O tema do feminismo tem recebido atenção do coletivo que integra marxismo21 e já foi objeto de dois dossiês especiais. Referimo-nos ao dossiê sobre o pensamento de Heleieth Saffioti, publicado em março de 2016, que abriga o maior acervo digital de obras desta importante intelectual brasileira, estudiosa e militante da causa feminista, além de trabalhos que discutem a sua obra; e ao dossiê “marxismo, sexualidade e gênero”, lançado em maio de 2017, que conta com uma série de textos que abordam as questões de gênero e de sexualidade e o debate feminista.

Com o objetivo de aprofundar e estimular a discussão acerca deste tema incontornável para a luta d(a)os socialistas, o blog marxismo21, em meados de fevereiro de 2020, engajou-se na organização do dossiê Os desafios do feminismo marxista na atualidade. Para isso, convidou várias militantes, intelectuais e pesquisadoras que têm se dedicado ao estudo das relações entre feminismo e marxismo a fim de que elaborassem um pequeno artigo, num prazo de cerca de 45 dias, que abordasse parte ou a íntegra das seguintes questões: “1) Qual é especificidade do feminismo marxista? É possível falar em feminismos marxistas?; 2) Quais são os pontos de proximidade e contradição do feminismo marxista com as demais correntes feministas, sejam as anticapitalistas ou as burguesas liberais?; 3) O que se vislumbra na conjuntura atual da luta feminista diante da ofensiva do conservadorismo moral?; 4) Qual papel podem desempenhar as feministas na luta contra o governo Bolsonaro e sua base de apoio?; 5) Quais são as possibilidades e as dificuldades para a luta feminista se converter num movimento popular massivo no Brasil?”.

No total, marxismo21 recebeu 15 artigos assinados por 17 autoras, que foram inseridos no dossiê em ordem alfabética.

Somos gratos às colegas que colaboraram com a organização deste dossiê: seja na revisão técnica da tradução de um dos artigos realizada por Elaine Amorim, seja na indicação de nomes para elaborar textos para compor o dossiê: Cláudia Mazzei, Daniele Motta, Juliane Furno, Mirla Cisne, Natália Doria, Patrícia Trópia e Tatiana Berringer.

II. Homenagem: Dez anos sem Heleieth Saffioti

marxismo21 presta sua homenagem a esta grande pensadora marxista Heleieth Saffioti (1934-2010), cuja obra foi pioneira no Brasil para demarcar duas relações de extrema importância para a luta socialista: a condição da mulher e a luta de classes; o marxismo e a questão feminista.

Autora de vasta obra, seu livro mais importante é A mulher na sociedade de classes: mito e realidade, publicado em livro em 1969 e reeditado em 2013,[1] e que foi fruto de pesquisa inicial de doutorado, resultando posteriormente na Livre-docência defendida na antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara, que, a partir de 1976, passou a integrar a recém-criada Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp), campus de Araraquara, onde atuou como docente.

A situação da mulher expressa, segundo Heleieth Saffioti, “o impasse diante do qual se vê colocada a sociedade de classes”,[2] frente às contradições inerentes ao sistema capitalista de produção, ou seja, ao mesmo tempo que explica, sua tese reconhece a posição da mulher na sociedade de classes, sem desconsiderar sua especificidade no sistema de produção onde homens e mulheres são explorados. A preocupação, inclusive metodológica da autora, foi a de deixar claramente configurada a real capacidade do capitalismo monopolista para absorver força de trabalho de categorias sociais dominadas e discriminadas. Por isso, sua obra alerta incessantemente para o fato de que os estudos sobre a emancipação da mulher, na sociedade de classes, precisam ser construídos sob esse pressuposto, sob pena de incorrermos no erro de isolar em demasia o papel feminino da totalidade histórico-social em que se insere.

Vale a pena ler, diretamente nas palavras desta mulher extraordinária, a passagem onde fica clara sua preocupação fundamental, quando explica a função deste livro seminal:

Este livro dirige-se a todos, homens e mulheres, quantos não se acomodaram na sabedoria convencional e àqueles cuja postura mental oferece-lhes possibilidades de abandonar tal acomodação. Não se trata, pois, de uma obra dirigida exclusivamente às mulheres. Sendo homens e mulheres seres complementares na produção e na reprodução da vida, fatos básicos da convivência social, nenhum fenômeno há que afete a um deixando de atingir o outro sexo. A não percepção deste fato tem conduzido a concepções fechadas de masculinidade e feminilidade. Na vida real, entretanto, as ações de homens e mulheres continuam a complementar-se, de modo que à mistificação dos seres femininos corresponde a mistificação dos seres masculinos. Assim, não são apenas as mulheres que sofrem a atuação da mística feminina; desta constituem presas fáceis também os homens. Não é, porém, agradável ouvir tal assertiva. Por isso, faz-se necessário o exame acurado dos fatos que a comprovam, e este constitui um dos objetivos nucleares deste livro. Não se trata, pois, de iniciar uma competição com a sabedoria convencional. Ao contrário, trata-se de situá-la como parte integrante dos mitos, já que não corresponde à realidade observada, aqui exposta e analisada.[3]

No momento do lançamento da edição do dossiê temático “Os desafios do feminismo marxista na atualidade”, nada mais justo do que homenagear esta mulher que abriu no Brasil os difíceis caminhos, teóricos e práticos, da emancipação da mulher na sociedade de classes.

Heleieth Saffioti, presente! Agora e sempre!

Viva a luta feminista socialista!

Editoria de marxismo21, maio de 2020.

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Sumário

Apresentação e homenagem
A Greve Feminista e sua contribuição para a relação entre sindicalismo e feminismo
Amanda Menconi
O feminismo marxista tem uma história? Breve estudo do caso francês
Annabelle Bonnet
O dilema das desigualdades frente ao marxismo
Daniele Cordeiro Motta
A revolução será feminista, ou não será!
Elaine Bezerra
Da produção à reprodução: um olhar do feminismo crítico para o trabalho das mulheres
Iriana Cadó
A política identitária como parte fundamental do projeto revolucionário
Joana El-Jaick Andrade
Epistemologias, práxis e desafios conjunturais nas relações entre feminismo(s) e marxismo
Lívia Moraes e Arelys Esquenazi
O que diria Heleieth Saffioti (1934-2010), a feminista marxista, pioneira, sobre os dias de hoje?
Maria Amélia de Almeida Teles
Feminismo e Marxismo: uma relação dialética
Maria Betânia Ávila e Verônica Ferreira
Breve história do feminismo marxista
Maria Lygia Quartim de Moraes
Desafios ao marxismo e ao feminismo emancipacionista em tempos de barbárie neoliberal
Mary Garcia Castro
Feminismo socialista: um panorama do pensamento e da luta das mulheres
Nalu Faria
Feminismo em sua conjuntura. Neoanarquismo, a outra face do tecnocratismo
Natalia Romé
A luta feminista frente ao avanço do conservadorismo
Santiane Arias
Feminismo contra o capitalismo
Tica Moreno

Notas:

[1]     SAFFIOTI, Heleieth. A mulher na sociedade de classes: mito e realidade. São Paulo: Expressão Popular, 3ª.ed., 2013.

[2]     Ibidem, p. 510.

[3]     Ibidem, p.34

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