O governo Bolsonaro e Perspectivas de esquerda

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Apresentação

I. A problemática e os objetivos do dossiê:

Reunindo 26 textos, elaborados especialmente para marxismo21, este dossiê debate a “Natureza e o significado do governo Jair Bolsonaro e as perspectivas de esquerda”. Seus autores – vinculados ou não à teoria marxista – situam-se no extenso e diversificado campo da esquerda brasileira. Ao organizar este dossiê, a Editoria de marxismo21 propôs que os autores debatessem as seguintes questões:

“(a) Levando em conta as propostas defendidas na campanha eleitoral, a composição ministerial e as efetivas iniciativas do governo empossado em janeiro de 2019 – propostas de contra-reformas econômicas (MP da liberdade econômica; Reforma da Previdência); legislação e atos que recrudescem a repressão aos movimentos sociais populares combativos; defesa da ditadura militar e glorificação dos agentes que praticaram a tortura de presos políticos; redução dos espaços de representação na composição de conselhos; política educacional que visa privatizar a universidade pública e intimidar a produção intelectual crítica e científica; política cultural de caráter macarthistapolítica externa subalterna ao imperialismo e de apoio a governos não democráticos; ações que visam alterar a política ambiental e reverter os mecanismos de proteção ambiental na Amazônia etc -, como avaliar o significado e a natureza do governo Jair Bolsonaro? 

(b) Quais as tarefas urgentes que se impõem às esquerdas brasileiras, particularmente àquelas que se reivindicam anticapitalistas? No combate ao governo antipopular e antissocial de Jair Bolsonaro, qual deveria ser o caráter da Frente a ser construída pela esquerda socialista?“.

Pressupondo que toda a análise sobre uma problemática conjuntural deve estar fundamentada teoricamente, a Editoria entendeu que alguns temas e questões poderia orientar os textos do dossiê. Sugerido aos autores, o roteiro pode ser aqui conhecido. ler aqui

II. Breves comentários dos Editores sobre o dossiê.

Considerando a variedade de posições teóricas e políticas entre os autores e a ênfase em aspectos distintos da problemática apresentada, é possível, em linhas gerais, afirmar que algumas questões predominam no dossiê:

  • Associação entre crise econômica e crise politica, estabelecida a partir de 2013, e o entendimento de que o governo Bolsonaro não só é o resultado desta combinação, mas é também uma resposta a essas crises;
  • A compreensão de que o governo Bolsonaro expressa um processo de enfraquecimento da democracia liberal burguesa e de ataque aos trabalhadores, combinando uma perspectiva ao mesmo tempo fortemente autoritária e radicalmente neoliberal;
  • A dimensão autoritária e de extrema direita do governo Bolsonaro é consensual entre os autores, mas é compreendida de distintas maneiras: uns o consideram fascistizante, outros proto ou neofascista e outros ainda o relacionam às noções de bonapartismo ou cesarismo. Também há uma compreensão predominante de que o governo promove uma escalada autoritária que, dependendo da dinâmica política e social, pode desembocar no fechamento definitivo do regime político ou mesmo numa ordem estritamente fascista. Tendo em vista os limites do espaço de análise, não houve, certamente, possibilidade dos autores aprofundarem o debate sobre o fascismo no capitalismo dependente nem sua comparação com o fascismo clássico;
  • Nem todos os autores avançaram na discussão sobre o caráter de classe do atual governo, mas os que o fizeram destacaram seus vínculos orgânicos com o chamado “capital financeiro” e imperialista bem como com o “agronegócio”. A presença de outras frações do capital e mesmo das camadas médias não aparece com a mesma importância, o que revela a necessidade de maiores aprofundamentos sobre esta questão;
  • De forma semelhante, a discussão sobre as “Perspectivas de esquerda” – que integra a proposta do dossiê – não teve maior destaque. Mas, para além das diferenças táticas e estratégicas, há um consenso quanto à centralidade dos trabalhadores na resistência contra a escalada autoritária e na retomada das lutas sociais de massa.

Diante deste balanço, consideramos que a continuidade do debate e da reflexão é fundamental, particularmente em relação às questões que carecem de maior aprofundamento e elaboração. Acreditamos, pois, que este debate deve ter continuidade no blog, não apenas entre os autores que aceitaram nosso convite, mas com todos que queiram intervir a partir da publicação deste dossiê.

Editoria / dezembro de 2019

Nota: em maio deste ano, vários textos sobre os primeiros meses do Governo Bolsonaro, extraídos de outros sites, foram inseridos no dossiê Do golpe de 2016 ao governo BolsonaroItem IV

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I. Textos do dossiê (por ordem alfabética dos nomes de autores):

Agnaldo dos Santos, A natureza regressiva do Governo Bolsonaro.

As ciências sociais buscam, desde o golpe de 2016, compreender a dinâmica partidária e a movimentação das forças sociais que resultaram em uma das mais virulentas eleições presidenciais da história: a que resultou na vitória de Jair Bolsonaro. ler mais

Alexandre Marinho Pimenta, A questão trabalhista no Governo Bolsonaro e os dilemas do movimento sindical brasileiro.

Não é nenhuma novidade afirmar que os trabalhadores, suas organizações, movimentos e protestos são inimigos centrais do governo Bolsonaro. Trata-se, afinal, de um governo burguês com discurso e prática abertamente pró-patronal, pró-capital ler mais

Anderson Deo, Sobre Golpes de Estado e Saúvas.

Um dos elementos essenciais – entre aqueles que marcam o ser-precisamente-assim (LUKÁCS, 2008, p. 84) do desenvolvimento econômico-social brasileiro – é o constante movimento de “reposição do passado” observado em nossa formação histórica ler mais

Anita Leocádia Prestes, Ameaça fascista no Brasil atual?

Regimes autoritários nem sempre devem ser identificados com fascismo ou neofascismo. Se partirmos da tese de V.I. Lenin de que o imperialismo é a fase superior do capitalismo, chegaremos à compreensão, com base na teoria marxista, de que sua principal característica consiste na formação do capital financeiro ler mais

Bernardo Ricupero, Notas sobre o bonapartismo, o fascismo e o bolsonarismo

Ao tentarmos decifrar a natureza do que é chamado de bolsonarismo – fenômeno que vai além da liderança de Jair Bolsonaro – talvez seja prudente servir-nos de referências já clássicas. Acredito que as interpretações que mais podem nos ajudar a enfrentar o desafio são as explicações a respeito do bonapartismo ler mais

Carlos Zacarias Sena Júnior, Significado e natureza do governo Bolsonaro e perspectivas da esquerda

Eleito em 2018 como presidente do Brasil no pleito mais improvável da história do país, Jair Messias Bolsonaro despertou da parte da imprensa, dos estudiosos e dos palpiteiros das redes sociais inúmeras polêmicas e especulações. A começar pelo fato de que o presidente eleito, um ex-capitão do Exército ler mais

Cem Flores, Um ano de Governo Bolsonaro. Crise do capital, ofensiva burguesa e a resistência das classes dominadas no Brasil

Em maio deste ano de 2019, nós do Cem Flores lançamos um livro digital com nossas primeiras análises sobre o atual governo de extrema-direita no Brasil. Com o título O Governo Bolsonaro: Ofensiva Burguesa e Resistência Proletária, o livro contempla sete capítulos ler mais

Cid Benjamin, Faz escuro, mas o amanhã vai chegar.

A eleição de Jair Bolsonaro foi muito mais do que um revés eleitoral para as forças democráticas e populares no Brasil. Representou uma derrota estratégica e abriu um período de hegemonia da extrema-direita protofascista, defensora do neoliberalismo mais exacerbado ler mais

Daniel Aarão Reis, Ascensão e caráter do bolsonarismo.

Para compreender o bolsonarismo é preciso entrelaçar três dimensões. A primeira diz respeito às tradições conservadoras e autoritárias que permeiam historicamente a sociedade brasileira. Tal dimensão vem sendo reiterada ad nauseam nas análises a respeito do assunto e eu seria o último a desconsiderá-la ler mais

David Maciel, Governo Bolsonaro, ameaça fascista e luta socialista

O Governo Bolsonaro é um governo de extrema-direita com tendências fascistizantes, unificado em torno de três eixos: o aprofundamento da escalada autocrática iniciada anteriormente e aprofundada após o golpe de 2016, a aplicação do programa neoliberal extremado e de uma pauta sócio-cultural-educacional moralista, ler mais

Edilson José Graciolli, Governo Bolsonaro, instituições de Estado, sociedade civil e desafios para uma oposição sólida a partir de um novo projeto de desenvolvimento nacional.

Na esteira da teoria ampliada de Estado em Gramsci, entendo que o terreno em que prosperou a vitória eleitoral do então candidato pelo PSL (Partido Social Liberal), Jair Messias Bolsonaro, foi, antes de qualquer outra dimensão, o da sociedade civil. ler mais

Henrique Tahan Novaes, O avanço destrutivo do capital no governo Bolsonaro e os desafios da luta ecocomunista

Assistimos aterrorizados os crimes socioambientais que se multiplicam no Brasil nos governos Temer-Bolsonaro. Num plano mais amplo, para recordar apenas alguns fatos das últimas décadas: assassinato de Chico Mendes e Doroty Stang, massacres de Corumbiara e Eldorado dos Carajás, assassinatos de líderes ler mais

Ivo Tonet, Algumas lições da conjuntura atual

Como se pode ver, inúmeras e importantes lutas estão sendo travadas em várias partes do mundo (Argélia, Iraque, Palestina, Líbano), mas especialmente na América Latina (Venezuela, Chile, Bolívia, Colômbia, Equador, Haiti). Algumas delas, de uma rara intensidade e com ampla participação das classes subalternas ler mais

José Carlos Ruy, As aptidões de Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro age, no cargo máximo da República, da maneira como agiu quando ocupou cargos legislativos ou na campanha eleitoral de 2018: como um desses valentões de boteco, que fala o que vem à cabeça, diz que faz e acontece, quase sempre contra os direitos dos demais ler mais

Leonardo Barbosa e Silva, O desafio da esquerda: reconciliação com a sociedade e com os movimentos sociais

Vive-se, desde a eleição de Bolsonaro, um atentado regular à dignidade e à inteligência. O obscurantismo e o ódio dirigem um governo que solapa direitos, afronta e humilha como se coisa comum o fosse. E na ponta ou na margem, a humilhação das filas de emprego ou a afronta da escalada da violência racial ler mais

Lincoln Secco, A Noite das Facas Falsas (ou da natureza do fascismo brasileiro)

Entre 11 e 12 de outubro de 2019 a cidade de São Paulo sediou a Conferência da Ação Política Conservadora (o nome oficial é em inglês: Cpac – Conservative Political Action Conference). Tenho ao meu lado o jornal Folha de São Paulo impresso. A data é 14 de outubro de 2019. ler mais

Luiz Filgueiras e Graça Druck, O neoliberalismo neofascista do governo Bolsonaro e os desafios para a esquerda

No momento atual – transcorrido onze meses do Governo Bolsonaro, mais de três anos do golpe/impeachment que pôs fim ao governo de Dilma Roussef eleita democraticamente, e seis anos das manifestações de 2013 que deram início à atual conjuntura político-econômica do país -, pode-se identificar ler mais

Marcos Del Roio, A terceira fase do neoliberalismo

Na avaliação da conjuntura, Gramsci indicava a necessidade de se distinguir o movimento orgânico, de longa duração, do movimento conjuntural, sabendo que esse é parte daquele. Não é exatamente uma tarefa fácil perceber a situação do Brasil neste fim de 2019 ler mais

Osvaldo Coggiola, O Brasil na crise continental

O governo Bolsonaro foi caracterizado como uma vitória da extrema direita, que iria lançar, por um lado, políticas de destruição de conquistas sociais e, por outro, políticas de caráter obscurantista. E ele fez tanto uma quanto outra coisa. ler mais

Plínio de Arruda Sampaio Jr., Colapso da Nova República e Ascenso da República dos Milicianos

O impacto devastador da crise capitalista sobre a economia brasileira corroeu as bases da democracia de cooptação cristalizada na transição da ditadura militar para o Estado de direito. Enquanto o crescimento da economia alimentou a expectativa de melhoria social, as terríveis contradições de uma sociedade ler mais

Rafael Litvin Villas Bôas, De escombros a alicerces: liames entre o passado e o presente do neofascismo bolsonarista

A chegada de Bolsonaro à presidência da República e a dinâmica de seu governo é fenômeno que demanda reflexão sobre alguns fatores que o antecedem e estabelecem relações de causalidade com o processo em curso. O argumento aborda alguns episódios da história política, econômica e cultural recente ler mais 

Rossi Henrique Chaves, Miserabilidade social e imobilismo: faces do fascismo bolsonarista

No dia 25 de janeiro de 2019 a sociedade brasileira sofreu um duro golpe com o rompimento da barragem da mineradora Vale na cidade de Brumadinho. O crime deixou 252 mortos e 18 desaparecidos, tornando-se o maior crime ambiental e humano na história recente do Brasil. ler mais

Valter Pomar, Natureza do governo Bolsonaro e perspectivas de esquerda

A coalizão vencedora nas eleições presidenciais de 2018 no Brasil foi encabeçada por Bolsonaro e pela extrema-direita, mas inclui a maior parte da classe dominante brasileira (os empresários capitalistas), parte expressiva dos setores médios ler mais

Virgínia Fontes, O protofascismo – arranjo institucional e policialização da existência

Sabemos que há enorme diferença entre um presidente eleito com discurso fascista, a disseminação de práticas de cunho fascista e a institucionalização de um regime fascista. Não necessariamente o primeiro caso leva ao último, e espero que não. Tampouco é sensato não debruçar-se ler mais

Walter Sorrentino, Unir forças para transformar a indignação em tomada de consciência

Bolsonaro assume o que pregou na sua campanha eleitoral: um governo autoritário, carrasco do povo, neocolonizador e retrógrado em valores civilizacionais, assumindo no plano internacional a bandeira antiglobalista, ou seja, do antimultilateralismo, ler mais

Wladimir Pomar, Significado e natureza do governo Bolsonaro e perspectivas de esquerda.

Levando em conta as propostas defendidas na campanha eleitoral, sua composição ministerial e suas políticas em curso, torna-se evidente que o governo Bolsonaro tem em vista realizar não só “reformas” ou “contra-reformas” econômicas de natureza neoliberal ler mais

II. Textos publicados após o primeiro ano de governo

Porque Moro é mais perigoso até do que Bolsonaro, Carlos Tautz

 

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