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Resenhas publica textos que, de forma crítica, examinam livros que discutem aspectos da teoria marxista como também obras que debatem questões relevantes do debate político e ideológico no interior das esquerdas no Brasil e no exterior.

marxismo21 assegurará espaço a/o autor/a que deseje responder aos questionamentos críticos recebidos por sua obra.

Os leitores são convidados a enviar resenhas. A partir de seus critérios, a Editoria avaliará a pertinência da publicação do texto a ela encaminhada:  mouro1818@gmail.com

Editores

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FRESU, Gianni. Lênin Leitor de Marx: Dialética e determinismo na história do movimento operário. 1ª. Edição. São Paulo: Anita Garibaldi; Fundação Maurício Grabois, 2016.

 Luciana Aliaga, Profa. Depto. Ciências Sociais – UFPB

Lênin leitor de Marx, fruto da tese de doutorado de Gianni Fresu, originalmente publicada na Itália, não apenas resgata o pensamento de Lênin dos porões da propaganda reacionária, mas, a partir da imersão numa complexa teia de conexões teóricas e políticas, lança luz sobre a intrincada história do movimento socialista e sobre a recepção do pensamento de Marx e Engels no final do século XIX e início do século XX. Este quadro histórico e político possui o mérito de mostrar ao leitor, sobretudo, que a tradição marxista e o movimento socialista, longe de serem homogêneos e unívocos como frequentemente leituras vulgarizadas os apresentam, estiveram sempre permeados por grandes disputas teóricas e desafiadores problemas políticos para os quais buscou-se dar respostas a altura de sua importância histórica. Contudo, o fio vermelho que percorre toda a obra diz respeito à dialética hegeliana como divisor de águas, isto é, a contribuição de Hegel e de sua lógica da contradição como elemento fundamental – que aqui encontra em Lênin seu vigoroso intérprete – para distinguir e criticar as leituras mecanicistas, dogmáticas, que vicejaram, nomeadamente, durante os anos da II Internacional. A tese central da obra sustenta, portanto, que Lênin teria chegado a Hegel por meio da leitura do pensamento de K. Marx e de F. Engels e que este percurso teve como consequência a “completa superação do determinismo positivista da II Internacional” (cf. p. 18).

A análise do movimento operário nos anos da II Internacional é justamente o tema que abre o primeiro capítulo da obra. Fundamental ressaltar – e Fresu o faz logo no início do capítulo – a hegemonia intelectual e cultural exercida pelo pensamento de Darwin, Spencer e Haeckel na Europa Ocidental nos anos de formação e desenvolvimento do movimento socialista e de afirmação do marxismo como sua doutrina preponderante na segunda metade do século XIX. Destarte, a inevitável penetração dos paradigmas científicos das ciências naturais na análise social e histórica teve como consequência a consolidação, no interior da II Internacional, de uma interpretação do marxismo que reivindicava um caráter científico da história que se fazia acompanhar para uma concepção evolucionista dos sistemas de produção econômica. ler mais

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PEREIRA, Duarte. Repensando o Marxismo.1ª edição, Editora Anita Garibaldi, São Paulo, 2016

Flávio Antonio de Castro – Conselho Consultivo de marxismo21

A obra de Duarte Pereira aqui resenhada foi prefaciada por Haroldo Lima que, com acuidade, selecionou os artigos que a compõem, apresentando várias intervenções do autor em seu objetivo de repensar o marxismo. Nelas, Duarte Pereira apresenta os argumentos dos autores que questionaram o mecanicismo na concepção materialista, a esquematização reducionista do marxismo e o dogmatismo que sacrifica a dialética. Mas não para por aí. O autor dialoga criticamente com esses autores, aprimorando e elevando o conteúdo das análises. Para Haroldo Lima, Duarte Pereira analisa problemas decorrentes da crise do capitalismo, da reestruturação do capitalismo, das formas mais adequadas de se encaminhar a luta de classes em países de tradição democrática e elevado nível econômico, e de como entender a configuração moderna do proletariado.

O livro se inicia com a entrevista do autor, sob o tema A crise do socialismo, a reestruturação do capitalismo e os novos desafios dos trabalhadores, na qual argumenta que

o socialismo só pode ser construído democrática e cientificamente, e que se se pretender construí-lo negando a iniciativa das massas trabalhadoras, com base em uma camada minoritária ou em setores isolados, ele se torna inviável. O socialismo não é uma solução tecnocrática para certos problemas econômicos e sociais e, também, não pode ser imposto à classe operária. Implica a existência de uma economia planificada, exige elevado grau de consciência em sua construção e apurado esforço de compreensão da realidade (p.19)

Explica as razões do fracasso da ditadura do proletariado; critica o acelerado processo de coletivização da agricultura na URSS e desencadeia o debate em torno do fulcro principal da obra: a impregnação positivista que o marxismo carrega em sua análise do desenvolvimento da sociedade humana. Cita Marx e a problemática interpretação, a partir de seus textos, de serem as leis sociais tão rígidas e tão objetivas como as leis naturais, o que geraria uma insuficiência de elaboração do marxismo. Disto decorreria a ideia simplificadora de que a história marcha inevitavelmente para o socialismo. Para Duarte Pereira, os fundamentos do marxismo não estão postos em xeque, mas sim sua compreensão e seu desenvolvimento. No desenrolar da entrevista, entre outros temas, o autor trata do capitalismo nas sociedades capitalistas avançadas, onde a classe operária tende a se tornar minoritária, exigindo que ela seja capaz de estabelecer alianças com outras classes e camadas trabalhadoras, o que seria tão importante quanto fora a aliança operário-camponesa no começo do século XX.  ler mais

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LOSURDO, Domenico. A luta de classes: uma história política e filosófica. Tradução Silvia de Bernardins. – 1ª. ed. – São Paulo: Boitempo, 2015.

Rodolfo Sanches e Luiz Alexandre Barbosa Pinto Jr., mestres em Ciências Sociais pela FFC de Marília, Unesp

O filósofo italiano Domenico Losurdo é, sem dúvida, um dos mais relevantes pensadores marxistas contemporâneos. Ainda vivo e com uma vasta biografia e bibliografia, sua obra nos permite ter acesso à imensidão de debates que diz respeito, especialmente, aos adeptos da teoria marxiana e marxista. Assim ela transita desde debates específicos da tradição marxista, como aquele que diz respeito à relação da democracia com o fenômeno do bonapartismo, até análises acuradas do discurso do Império estadunidense na sua pretensão de dominação global.

Neste texto iremos nos debruçar sobre uma de suas obras mais recentes lançadas no Brasil. Trata-se do livro “A luta de classes: uma história política e filosófica” publicada pela Boitempo em 2015. O livro em questão, assim como os demais, é de uma profundidade teórica de grandes proporções e traz à tona uma ampla quantidade de temáticas que são caras ao pensamento marxista e ao movimento socialista internacional. Não obstante, a polêmica é constante e está permeada em todo o livro. Por motivos óbvios, nos ateremos aqui apenas a algumas delas .

Entendemos que muitas das polêmicas lançadas por Losurdo tem como epicentro a sua posição acerca da categoria marxiana de luta de classes. Desde o início já deixa explícito seus profundos questionamentos sobre a leitura “binária” da luta de classes que, em essência, compõe aquelas cujo fundamento está no entendimento desta como expressão somente do embate entre a burguesia e o proletariado.

De acordo com suas formulações, Losurdo resgata inúmeros trechos d’O Manifesto do Partido Comunista, mas principalmente um que diz que a luta de classes possui expressões diversas. Esta consideração é central para suas ponderações na medida em que se contrapõe diretamente ao fulcro teórico-político dos defensores da leitura “binária”. Em seu entender, a demonstração atual destes defensores está representada naquilo que ele chama de “populismo”, isto é, aqueles que atualmente permanecem orientando-se segundo a lógica do “ascetismo universal” e do “rude igualitarismo”, em que pesa sobre os pobres e oprimidos a condição de únicos depositários de autênticos valores morais capazes de conduzir uma luta de classes realmente emancipadora. ler mais

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SOUZA, Jessé. A tolice da inteligência brasileira. 1a. edição, Editora Leya, São Paulo, 2015.

Renato Nucci Jr., Conselho Consultivo de marxismo21 e Organização Comunista Arma da Crítica

O que faz o Brasil ser o Brasil? Por que um país com riqueza natural abundante, dotado de grandes reservas minerais, com extensa área agricultável, com amplas reservas de água doce, com um povo dotado de imenso potencial, tem sua existência marcada por desigualdades sociais e disparidades regionais gritantes? Por que um país com tantas vantagens naturais não está entre os “desenvolvidos”? Gerações de brasileiros e brasileiras se perguntam as razões de sermos tão “atrasados” econômica, política e culturalmente. Autêntica preocupação popular faz parte de todo tipo de roda de conversa. Nos pontos de ônibus, nos botequins, nos encontros de família, enfim, em todos os espaços públicos onde o povo trabalhador se reúne a existência de contradições sociais e regionais gritantes é tema de conversa. O tema faz parte do cotidiano e do imaginário popular do povo brasileiro por décadas.

Dentre aqueles dedicados ao estudo sistemático da realidade brasileira, pensadores da estatura de Caio Prado Junior, Sérgio Buarque de Hollanda, Darcy Ribeiro, Celso Furtado, Florestan Fernandes, entre tantos outros, a partir de ferramentas teóricas distintas, buscaram entender as causas dessa nossa condição. Não se limitaram, contudo, a entendê-las, mas utilizaram suas conclusões para apontar saídas de nossa condição, “subdesenvolvida” para uns, “dependente” para outros, e mesmo “reflexa” para outros mais. No caso dos pensadores brasileiros, em suas mais diversas vertentes, suas conclusões apontam quase sempre para um “vício de origem”. Seria uma espécie de “pecado original” cuja magnitude teria deixado marcas profundas na consciência nacional. As conseqüências seriam sentidas até hoje. Dentre elas destacamos o patrimonialismo, o nepotismo, ambos reflexos de uma incapacidade de todas as classes sociais internalizarem valores culturais e comportamentais baseados em uma postura racional e impessoal, característica que seria intrínseca aos países desenvolvidos.

Jessé Souza apresenta uma crítica contundente sobre o porquê de o Brasil ser assim. Em seu novo livro, A Tolice da Inteligência Brasileira, Souza empreende um esforço de desconstrução das principais teses explicativas sobre a condição do Brasil. Para Souza, autores como Sérgio Buarque, Raymundo Faoro, Gylberto Freire e Roberto DaMatta, teriam feito uma “leitura” do Brasil cujo objetivo seria o de consagrar as virtudes do mercado e da iniciativa privada sobre o Estado. Todos os piores vícios da vida nacional, atingindo indistintamente a “elite” e o “povo”, causas da nossa condição subdesenvolvida, estariam no fato de não termos absorvido um conjunto valorativo de normas como racionalismo, eficácia e impessoalidade. ler mais

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MASCARO, Alysson Leandro. Estado e Forma Política. 1ªed. São Paulo: Boitempo, 2013.

Gustavo dos Santos Cintra Lima, professor-substituto do Instituto de Ciências Sociais da Universidade Federal de Uberlândia, MG

Mascaro é doutor e livre-docente em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela Universidade de São Paulo (USP), publicou entre outras obras no âmbito do debate jurídico Filosofia do direito (2012); Introdução ao estudo do direito (2013).

A presente obra do professor Alysson Mascaro procura realizar uma intervenção “filosófica” no terreno teórico da problemática do Estado, com destaque para a questão do Estado na sociedade contemporânea (capitalista), uma vez que o direito guarda uma relação íntima com o funcionamento do Estado em geral e com o funcionamento do Estado burguês em particular; é por essa “porta” que Mascaro procura adentrar no debate.

Nossa abordagem partirá dos argumentos coligidos na “Introdução” de Estado e forma política (2013) que dão suporte ao conjunto da análise para, em seguida, apresentarmos de modo concentrado as formulações que entendemos fundamentais, distribuídas nos capítulos que constituem a obra.

Segundo o filósofo Slavoj Zizek, em nota “entusiástica” e quase apologética, Estado e forma política (2013) “[…] é simplesmente a obra mais importante do pensamento político marxista nas últimas décadas […]”. (Nota da contracapa).

Sem termos a pretensão de tratar exaustivamente o conteúdo da afirmação de Zizek, apenas sublinhamos o que nos parece ser um veredicto apressado. É necessário destacar que nas “últimas décadas” importantes obras sobre a problemática do Estado (burguês) e do poder político no campo da teoria marxista da história (e fora dele) foram produzidas e que o impacto teórico de tal produção ainda não foi “absorvido” no conjunto de seus efeitos teóricos pertinentes.

 Feito este pequeno registro podemos passar à apresentação de Estado e forma política (2013), no que julgamos expressarem seus aspectos fundamentais e, com isso, tentarmos contribuir para localizá-la teoricamente no debate sobre os problemas do Estado burguês contemporâneo. ler mais

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Sob perspectivas teóricas diferentes no campo do marxismo, publicamos abaixo duas ressenhas – especialmente escritas para o blog – sobre A Montanha que devemos conquistar. Reflexões sobre o Estado, de István Mészáros, Boitempo editorial. 2015.

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A MONTANHA QUE DEVEMOS CONQUISTAR

Maria Cristina Soares Paniago /Docente da Faculdade de Serviço Social – UFAL

 Nesse fevereiro de 2015, mais um livro do filósofo húngaro marxista, István Mészáros, chega às livrarias no Brasil. Fato que se tornou corriqueiro, dada a enorme difusão de seu pensamento entre nós, realizada de forma mais intensa a partir da publicação de sua obra maior, Para Além do Capitalrumo a uma teoria da transição, em 2002. Trata-se do A Montanha que Devemos Conquistar, cujo tema principal é a crítica radical ao Estado e à função vital que exerce para a reprodução do sistema do capital, sob efeito da crise estrutural do capital e sua abrangência global.

O livro está dividido em sete capítulos. Conta ainda com dois apêndices, sendo que o primeiro é uma republicação do capítulo 13 – Como poderia o Estado Fenecer?, do Para Além do Capital, e o outro contém uma entrevista realizada com o autor, por Eleonora de Lucena, em 2013, publicada, à época, na Folha de S. Paulo – Caderno Ilustríssima. Logo na Introdução, Mészáros, nos alerta para o fato de que este livro é parte de um estudo mais completo em andamento, que constituirá um “volume vindouro” sob o título de “Critique of the State”. (Mészáros, 2015, p.15)

Recentemente, a Mothly Review Press (New York, 2015) publicou, do mesmo autor, The Necessity of the Social Control, cujo título remete a um dos títulos já publicado no Brasil, em 1987, pela Ensaio (A Necessidade do  Controle Social) num pequeno formato; este último corresponde apenas ao primeiro capítulo, em um total de doze capítulos neste formato mais recente. O seu décimo segundo capítulo, sob o título de “The Mountain we Must Conquer: Refletions on the State”, corresponde ao livro que ora conhecemos no Brasil – A Montanha que Devemos Conquistar – acrescido dos dois apêndices acima mencionados

Estas duas publicações, quase simultâneas, nos permitem dirimir toda a dúvida que possa ser disseminada entre nós sobre a relação entre o titulo do livro no Brasil – A Montanha que Devemos Conquistar  – e a concepção crítica do autor sobre a essência histórico-ontológica do Estado e de seu papel no processo de transição para uma sociedade que supere o capital, e todas as formas sociais, políticas e econômicas que o constituem. ler mais

RETOMAR O DEBATE SOBRE O ESTADO

Luciano Cavini Martorano/ Universidade Federal de Alfenas, MG

A mais recente crise do capitalismo, iniciada em 2008, voltou a colocar no centro do debate politico, econômico e teórico o papel central do Estado nas formações sociais capitalistas. Contrariando a tese neoliberal sobre o “Estado mínimo”, inúmeros governos adotaram medidas para enfrentar a crise – ela mesma consequência da política neoliberal antes adotada –, que por seu conteúdo, significado, dimensão e profundidade só poderiam ser realizadas pelo Estado: ajuda financeira massiva a bancos e empresas, incluindo a estatização parcial ou não de alguns deles; amplos programas de incentivo à produção e ao consumo, tanto interno como externo; ações preventivas e ofensivas para conquistar e-ou assegurar mercados externos de matéria-prima e mão-de-obra a preço mais baixo, etc. Tais medidas  não só contrariavam o neoliberalismo, como também o próprio liberalismo que defende um Estado sempre afastado da economia. E eram também mais uma negação da teoria política liberal que continua defendendo a substituição da noção de Estado por alguma outra – por exemplo, a de sistema politico.

Nesse contexto, a última obra de István Mészáros, A montanha que devemos conquistar, oferece ao leitor brasileiro a possibilidade de retomar o debate sobre o tema do Estado. Tema historicamente bastante discutido não só entre as diferentes correntes marxistas, como também com as demais teorias (liberalismo, pluralismo, decisionismo, etc.), e isso já a partir do próprio Marx em suas polêmicas com Bakunin, Lassale e outros, e atravessando o século XX para chegar até os nossos dias.

Tendo como tema central o Estado, o presente trabalho de Mészáros, apresenta setes pequenos ensaios com base no material de conferências feitas em universidades brasileiras, além de dois apêndices: o primeiro é uma versão revisada do capítulo 13 do livro Para além do capital – “Como poderia o Estado fenecer?”-, e o segundo é uma entrevista concedida à jornalista Eleonora de Lucena e publicada em 17 de novembro de 2013.

Mas por que Mészáros retoma o tema do Estado, e mais do que isso, anuncia estar preparando uma outra obra a ser lançada com o título Critique of the State (A crítica do Estado) ? ler mais

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w goldman mulheres

GOLDMAN, Wendy. Mulher, Estado e Revolução: política familiar e vida social soviéticas, 1917-1936. – 1. Ed. – São Paulo: Boitempo : Iskra Edições, 2014.

          Fabiana Sanches Grecco, doutoranda em Ciência Política, IFCH/Unicamp

 “Não é o trabalho feminino em si que rebaixa os salários ao entrar em competição com o trabalho masculino, mas a exploração do trabalho feminino pelos capitalistas que dele se apropriam” (Clara Zetkin, em seu discurso no Congresso de Fundação da Segunda Internacional em 1889, apud GOLDMAN, 2014, p. 62).

Uma das características peculiares do modo de produção capitalista é criar uma contradição entre as demandas do trabalho e as necessidades da família. Para os bolcheviques, essa contradição, sentida de forma mais dura pelas mulheres, entre muitos motivos, por carregarem uma dupla carga de trabalho, só se resolveria no socialismo. Assim, os impulsos mais importantes da legislação soviética tinham no horizonte a liberação e a independência das mulheres e a dissolução da família. O trabalho doméstico deveria ser transferido para a esfera pública e realizado por trabalhadoras e trabalhadores assalariados em refeitórios, lavanderias e creches comunitários. A partir de então se dissolveriam as desigualdades de gênero, o casamento se tornaria supérfluo e seria substituído gradualmente pela “união livre”. “Arrancada de suas funções sociais prévias”, a família definharia gradualmente, da mesma forma que as leis necessárias ao período de transição (GOLDMAN, 2014).

As características mais contundentes da legislação soviética do período imediato à revolução de 1917 ainda inspiram boa parte dos debates sobre a dissolução das desigualdades de gênero. Avanços vividos naquela sociedade, mesmo que por curtos períodos, como a legalização do aborto e o amplo acesso a creches e refeitórios públicos, bem como uma legislação trabalhista bastante elaborada, com licença-maternidade remunerada, e restrições de trabalho para mulheres grávidas e lactantes, entre outras medidas de caráter transitório, formam um conjunto de pautas bastante atual, mas ainda pouco experimentadas, sobretudo no Brasil.

É nesse sentido que é possível dizer que a edição brasileira do livro Women, the State and Revolution: Soviet Family Policy and Social Life, 1917-1936 (1993), de autoria da historiadora estadunidense Wendy Goldman[1], além de apresentar, em língua portuguesa, elementos para o debate sobre a vida das mulheres em sociedades socialistas, trouxe ao país um “novo fôlego” aos debates socialistas sobre as condições de vida das mulheres no capitalismo. Esse “novo fôlego” foi alavancado ainda mais com a presença de Goldman em um ciclo de conferências, organizado na ocasião do lançamento de Mulher, Estado e Revolução: política familiar e vida social soviéticas, 1917-1936 (2014), no qual a autora evidenciou o debate soviético sobre como criar as condições para a independência e a liberação das mulheres. ler mais

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Mariategui Revolução russa

MARIÁTEGUI, José Carlos. Revolução Russa: história, política e literatura. São Paulo, Expressão Popular, 2012.

Sydnei Melo

Mestre em Ciência Política, IFCH/UNICAMP)

A publicação de Revolução Russa: história, política e literatura dá continuidade a um trabalho, cada vez mais consistente, de divulgação e estímulo à produção de estudos sobre a obra do socialista peruano José Carlos Mariátegui (1894-1930) no Brasil. O reconhecimento dos escritos do Amauta em nosso país, não obstante referências muito pontuais localizadas entre as décadas de 1920 e 1960[1], se inicia mais explicitamente com a tradução e publicação dos 7 ensaios de interpretação da realidade peruana em 1975, por iniciativa do sociólogo Florestan Fernandes, quarenta e sete anos depois da publicação de sua primeira edição no Peru[2]. Após este inédito impulso, as ideias de Mariátegui começam a receber maior atenção por parte de intelectuais e militantes políticos brasileiros durante a década de 1980 – entre os quais, poderíamos mencionar, João Pedro Stedile, Michael Löwy[3], José Paulo Netto[4], Héctor Alimonda, Carlos Nelson Coutinho[5] e Alfredo Bosi[6]. Um “silêncio” nas referências a Mariátegui sucede este período, sendo interrompido em 1998 com a publicação de um artigo de Adolfo Sánchez Vásquez, debatendo aspectos do marxismo de Mariátegui, em uma antologia organizada por Paulo Barsotti e Luiz Bernardo Pericás[7]. Desde então, autores e pesquisadores como Bernardo Ricupero[8], Enrique Amayo e José Antonio Segatto[9], Leila Escorsim[10], Yuri Martins Fontes[11], André Kaysel[12], além dos já citados Michael Löwy[13] e Luiz Bernardo Pericás, produziram e organizaram para o público brasileiro comentários, traduções e coletâneas de textos redigidos pelo Amauta (cf. PERICÁS, 2010; COSTA e CLEMENTE, 2012).

Neste sentido, deve ser ressaltada a importância do trabalho realizado por Luiz Bernardo Pericás. Destaco o nome do professor do Departamento de História da FFLCH/USP não apenas por ser o organizador, tradutor e autor do prefácio da coletânea aqui resenhada, como também por ser o principal responsável pela publicação dos textos de Mariategui no Brasil nos últimos dez anos, por meio dos volumes Do sonho às coisas: retratos subversivos (2005), Mariátegui sobre educação (2007), As origens do fascismo (2010), além de Revolução Russa, publicado em 2012. É notável, também, a postura de diferenciação editorial assumida por Pericás em relação à publicação dos textos de Mariátegui na coleção Obras Completas, organizada pela Editora Amauta ao longo da segunda metade do século XX: os volumes publicados no Brasil tem se caracterizado por critérios distintos de seleção dos textos do escritor peruano, os diferenciando, em grande medida, dos formatos de publicação assumidos pela coleção peruana. Acrescente-se, no caso de As origens do fascismo e Revolução Russa, a adoção da ordem cronológica de publicação dos artigos e ensaios mariateguianos na organização destes volumes, possibilitando uma compreensão mais clara da trajetória percorrida pelas reflexões do Amauta ao longo do tempo.

Revolução Russa é, como afirma o próprio Pericás no prefácio deste livro, a mais completa coletânea em língua portuguesa de textos escritos por José Carlos Mariátegui sobre a Revolução de Outubro. ler mais

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Com Marx para além do marxismo

Moishe Postone. Tempo, trabalho e dominação social: uma reinterpretação da teoria crítica de Marx. São Paulo: Boitempo, 2014, 483 ps. Tradução Amilton Reis e Paulo Cézar Castanheira.

 Por Leomir C. Hilário – Doutorando em Psicologia Social pela UERJ.

 O lançamento do livro de Moishe Postone – Tempo, trabalho e dominação social: uma reinterpretação da teoria crítica de Marx – pela editora Boitempo vem preencher uma lacuna na esquerda brasileira engajada na reflexão acerca da obra de Marx. Em primeiro lugar, porque este autor e esta obra se inscrevem no quadro maior daquilo que se tem chamado internacionalmente de crítica do valor (Wertkritik), ainda relativamente desconhecida entre nós. Trata-se de uma tradição minoritária da crítica social de inspiração marxiana que busca suas chaves de análise nas categorias básicas da crítica de Marx (tais quais valor, mercadoria e fetichismo) como ferramentas de compreensão do mundo atual. Esta tradição se opõe diametralmente ao que seus autores chamam de “marxismo do movimento operário” ou “marxismo tradicional”, caracterizado pela análise cuja ênfase é o problema da distribuição do capitalismo, sem tocar na questão do modo de produção. Para uma apreciação desta tradição, ver Jappe (2006); bem como a introdução do último livro de Kurz (2014). Pertencem a esta corrente nomes como Robert Kurz, Anselm Jappe, Jean-Marie Vincent, Antoine Artous, Roswitha Scholz, Norbert Trenkle, Ernst Lohoff, dentre outros. Todos têm em comum a centralidade da crítica do fetichismo e do modo de produção capitalista, em que pesem algumas diferenças entre suas análises[1].

A tese mais conhecida, compartilhada por estes autores, é a de que, desde a década de 1970 e a terceira revolução tecnológica, não haverá nenhum novo impulso de acumulação secular capaz de renovar significativamente o modo de produção capitalista e consolidar um novo ciclo sistêmico de acumulação e crescimento. O capitalismo entrou, para esta perspectiva, desde o final do século XX, numa era de declínio, colapso e desintegração: uma crise estrutural (e não cíclica) do capitalismo. A derrocada do socialismo real (chamado por Kurz de “socialismo de caserna”) não significa o fim da possibilidade emancipatória para além do capitalismo, tampouco a sua vitória triunfal, mas o início de uma era de crise globalizada, no interior da qual a falência do “socialismo real” é um aspecto da crise mais ampla do sistema capitalista, do “colapso da modernização”. O problema histórico dessa tradição é o de como pensar a superação do capitalismo após o retrocesso do Estado de Bem-Estar Social na Europa, a queda do socialismo real e dos partidos-Estado burocráticos do Leste Europeu e da emergência do neoliberalismo a nível global.

Em segundo lugar, podemos situar a obra de Moishe Postone e esta tradição na qual ele se inscreve no campo mais amplo das releituras de Marx no século XXI, isto é, daquilo que Roberto Fineschi (2008) chama de “novo Marx” ou daquilo que Marcello Musto (2009) chama de “a redescoberta de Marx”. A partir da segunda Marx-Engels-Gesamtausgabe [projeto de edição das obras completas de Marx e Engels] (MEGA), começa-se um processo de questionamento frontal da sistematização da obra de Marx e Engels no sentido do entendimento desta obra como essencialmente aberta e incompleta. O Marx que emerge desta nova edição histórico-crítica é bem diferente tanto dos seus seguidores quanto de seus opositores do século XX, um Marx amplamente desconhecido, cuja obra (in)completa chegaria a 142 tomos. Liberado da função de instrumento de poder, o pensamento de Marx vem sendo reorientado e ressignificado por vários autores, dentre os quais se localiza Moishe Postone. Por isso, não é por acaso que este “novo Marx” se apresente por meio de uma crítica categorial incomum para a maioria das tradições marxistas: em resumo, trata-se de ir com Marx para além do marxismo. Por exemplo, a contradição fundamental do capitalismo não será vista a partir do antagonismo social entre classes contrapostas. Ao contrário, este conflito é compreendido como parte do invólucro da forma-mercadoria, razão pela qual a contradição do capitalismo é vista muito mais como a subsunção das formas concretas de vida às formas abstratas de reprodução social mediada pelo valor, daí a centralidade dos conceitos de alienação e fetichismo da mercadoria.  Ler mais

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Losurdo AntipolíticaA hipocondria da antipolítica. História e atualidade na análise de Hegel, Domenico Losurdo, Editora Revan, 2014, Rio de Janeiro.

Luciano Martorano, professor da Unifal, MG, e do comitê editorial de marxismo21

 Domenico Losurdo não é um autor desconhecido no Brasil. Não só pela contínua publicação de seus mais diferentes trabalhos (entre eles, Nietzsche – o rebelde aristocrata; Stalin – crítica de uma lenda negra; Contra história do liberalismo etc), como também  por sua participação pessoal em diferentes atividades e eventos realizados em todos o país, ele tornou-se uma referência no debate intelectual e político sobre os mais diferentes temas (China, Gramsci, democracia, bonapartismo, império, não violência, etc.). Agora, com A hipocondria da antipolítica, o leitor brasileiro poderá aprofundar ainda mais a análise sobre uma de suas maiores influências teóricas: a de Hegel; já presente em seus demais trabalhos – como na obra anterior publicada no Brasil Hegel, Marx e a tradição liberal -, mas agora exposta de forma bem mais desenvolvida.

O livro é uma coletânea de 15 artigos publicados ao longo de mais de trinta anos (de 1967 a 2000), e foi lançada na Itália em 2001 com um subtítulo menos enfático que o da tradução brasileira: La critica de Hegel ieri e oggi (A crítica de Hegel ontem e hoje), pois não menciona a sua “atualidade”. Isso já indica que o livro não analisa apenas a “antipolítica” – tema por si só muito atual -; e nem tampouco se limita a um balanço sobre a contribuição filosófica de Hegel para a história do pensamento ocidental.

Apesar de formada por artigos autônomos entre si, a obra apresenta unidade temática e coerência interna ao situar o pensamento hegeliano no contexto do desenvolvimento histórico e político da Alemanha e da Europa,  com base no pressuposto – que poderia ser mais explicitado e desenvolvido – da existência de uma analogia histórica entre o mundo de hoje e o período posterior à derrota da revolução de 1848 (genericamente entendidos como “momentos cruciais de crise da revolução ou do projeto político de transformação”,p.13), além daquele que se seguiu à Revolução Francesa do século XVIII.

Mas por que retomar o debate sobre Hegel hoje, mesmo sabendo-se de sua contribuição direta para o surgimento da dialética materialista ? Lembremos que já em 1947, Andrej Zhdanov – ideólogo do governo soviético nos anos 30 a 50 do século passado -, sentenciava: “- Já faz tempo que a questão Hegel foi resolvida.” Declaração que revela, mais uma vez, a tentativa do governo soviético em estabelecer a pauta da investigação teórica do marxismo a partir de decisões do partido e do Estado e a serviço de sua política mais imediata. Posteriormente, ela foi desmentida por trabalhos fundamentais de autores como Georg Lukács e Louis Althusser – não por acaso, os responsáveis pelas duas últimas correntes teóricas do pensamento marxista no plano internacional.  ler mais

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a favor Alth

A favor de Althusser

 Luiz Eduardo Motta. A favor de Althusser: revolução e ruptura na teoria marxista. Rio de Janeiro : Gramma, Faperj 2014.

Maurício Vieira Martins. Doutor em Filosofia, membro do Conselho Consultivo de marxismo21.

 I.

“A vantagem de Althusser em relação a Foucault parece evidente. Althusser procede exatamente no sentido inverso – desde o começo, concebe estes microprocessos como partes dos AIE [Aparelhos Ideológicos de Estado], ou seja, como mecanismos que, para serem atuantes, para ‘captarem’ o indivíduo sempre já pressupõem a presença maciça do Estado, a relação transferencial do indivíduo com o poder do Estado, ou, nos termos de Althusser – com o Outro ideológico em que se origina a interpelação” (Zizek, apud Motta: pp.98/99, n. 95)

 É desta forma que Slavoj Zizek se pronuncia sobre as diferenças das concepções de poder entre Althusser e Foucault. O que a argumentação de Zizek deixa claro é que a posição althusseriana se beneficia de uma incorporação de conceitos oriundos de um outro campo do saber, a psicanálise: ao invés de endossar a (manifesta) dispersão do poder por todas as instâncias da sociedade, Althusser nos mostra que mesmo esta dispersão supõe o Outro ideológico que desde cedo se infiltra na experiência vivida das diversas classes sociais. Saturados pela linguagem em sua articulação com a vida social, sujeitos e classes sociais se remetem diuturnamente a uma alteridade que os constitui. Notemos, porém, que Foucault era particularmente resistente a fazer tal incorporação da psicanálise, por lê-la, sobretudo, no registro de um dispositivo de controle social.

Para quem se interessa por esta e por outras contribuições de Althusser ao marxismo, já existe um livro de um autor brasileiro que mapeia de forma rigorosa aspectos importantes do pensamento do filósofo franco-argelino. Em A favor de Althusser: revolução e ruptura na teoria marxista, Luiz Eduardo Motta oferece um amplo panorama do trajeto do filósofo, de vários de seus conceitos, e da áspera controvérsia que se travou em torno deles. Dividido em quatro capítulos, o texto consegue percorrer momentos distintos da obra (com ênfase na famosa fase de autocrítica de Althusser), elegendo aqueles núcleos temáticos que mais geraram repercussões no âmbito do debate político e acadêmico.

Com este intuito, o primeiro capítulo introduz o leitor a Althusser, apresentando inicialmente alguns dados biográficos e o ambiente intelectual e político em que o filósofo produziu. Motta, ele próprio um althusseriano, afirma que o pensador foi objeto de críticas que desconheciam o conteúdo de seu pensamento, truncando-o ao ponto de o tornarem irreconhecível: o texto é particularmente ácido com o historiador inglês E. P. Thompson que, em A miséria da teoria, teria produzido “uma das críticas mais caricatas e grotescas da teoria de Althusser” (p. 14), afirmação a ser devidamente debatida, a nosso ver, pelos estudiosos deste proeminente historiador. Logo a seguir, Motta recupera alguns temas característicos do althusserianismo, como sua polêmica com o humanismo (por ele considerado como uma perspectiva fortemente ideológica, contaminada por crenças liberais), sua nova concepção de dialética (e sobre ela retornaremos logo a seguir), bem como examina o teor do relacionamento existente entre Althusser e o stalinismo, um tema sempre tenso no âmbito do marxismo. Nesta apresentação inicial, emerge a distância aberta por Althusser frente à pesada ortodoxia então vigente nos partidos políticos de esquerda – que frequentemente produziam apenas manuais exortatórios – rebaixando o pensamento de Marx a uma vulgata para uso cotidiano. Daí a necessidade de se pensar o “marxismo enquanto uma problemática aberta, sem uma finalidade já dada, e sem um Sujeito centrado a priori” (p. 42), em tudo distante de uma teleologia histórica e de uma filosofia do sujeito.

O segundo capítulo aborda a importância dos conceitos de contradição e sobredeterminação. Recorrendo a Sobre a contradição, texto ainda pouco discutido de Mao-Tse Tung no Brasil, Motta acompanha a elaboração de Althusser feita sobre ele. Há que destacar a singularidade da concepção de dialética daí resultante, pois nela não encontramos uma síntese apaziguadora dos momentos contraditórios. Concepção que pode ser nomeada como uma dialética sem síntese, que gera permanentemente um empuxo para um devir histórico imprevisível. Mesmo numa sociedade que luta por uma transição para o socialismo, as contradições permanecem; seria ilusório esperar por um estancamento do processo histórico (p. 48).  ler mais

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Reichelt 2

Resenha crítica de Sobre a estrutura lógica do conceito de capital em Karl Marx, Helmut Reichelt

 Hector Benoit*

Título original: Zur logischen Struktur des Kapitalbegriffs bei Karl Marx. Publicação da Editora da Unicamp, Campinas/SP, 2013. Tradução de Nélio Schneider.

Não concordo, em parte, com Jorge Grespan, sobre o seu comentário na “orelha” deste livro, apesar de termos colaborado em muitos seminários sobre O capital durante uns  anos e que o respeito como um dos melhores teóricos sobre Marx. Discordo do companheiro, em parte, naquilo que ele diz apresentando  este livro. Diz Jorge Grespan que Helmut Reichelt “segue o caminho aberto por Rosdolsky na reconstrução do método crítico de Marx e vai além”. Escreve ainda Grespan que, para Reichelt, “(…) o flerte de Marx com a terminologia hegeliana visava a ocultar (grifo de HB) uma perigosa proximidade com a dialética idealista, uma coincidência entre a estrutura de O capital e da Lógica que, longe de ser negada, deve ser objeto de consideração cuidadosa”.

Confesso a Grespan, que, na minha opinião, nesse aspecto, não posso acompanhá-lo.  Reichelt e Rosdolsky me parecem bem distantes, em primeiro lugar, porque uma afirmação dessa implica em ler a dialética a partir de Aristóteles e Kant, como uma lógica analítica. Porém, como diz o próprio Hegel, no final da Ciência de Lógica, foi Platão que criou a dialética, como confessou também Pierre Aubenque (um aristotélico). Diz lá Hegel e nas suas Lições sobre a história da filosofia (em citação livre): a dialética é uma ciência cujas formas platônicas vagaram por mais de dois mil anos baldias e incompreensíveis. Hegel as retomou e, como comenta Aubenque, Aristóteles quase não é citado na Ciência da Lógica. Lembro que nos Cadernos Filosóficos, Lênin copia a frase de Hegel atribuindo a Platão a criação da dialética.

            Estas observações são importantes porque Rosdolsky foi um militante marxista da III Internacional, preso político na Segunda Guerra, assim como seguidor de Lênin e Trotsky, um dialético, analítico e sintético ao mesmo tempo (segundo Hegel, o momento superior da dialética), enquanto Helmut Reichelt não deixa de ser um (como ele próprio se intitula) “marxiano”, e não marxista, afastado da práxis. Reichelt certamente é analítico, enquanto discípulo da chamada “Teoria Crítica”. Esta teoria que nasceu inicialmente como crítica ao Partido Comunista Alemão e à URSS, foi, pouco a pouco, se afastando totalmente do marxismo e da crença no poder do proletariado como força transformadora da sociedade. Isto já fica claro na Dialética do esclarecimento, livro escrito por Adorno e Horkheimer e publicado em 1947. Para eles, os sistemas políticos e sociais são praticamente indiferentes, socialistas ou capitalistas. Já nessa obra, o marxismo praticamente desaparece de suas obras.

            Na minha opinião, quilômetros de distância os separam, a Rosdolsky de Reichelt. Apesar de ambos estudarem os Grundrisse, os esboços de O Capital de Marx, no primeiro vejo uma visão militante revolucionária e realmente dialética (analítica e sintética), que tenta entender os esboços de O Capital e sua gênese. Para Rosdolsky não se trata de desconstruir O Capital a partir dos Grundrisse. No caso de Reichelt, vejo a tentativa de descobrir em O Capital uma lógica analítica “secreta” desvinculada de qualquer práxis. Rosdolsky tem suas raízes na III Internacional; Reichelt foi discípulo de Adorno e da Escola de Frankfurt, ou seja, jamais teve uma crença maior na revolução proletária e nos movimentos libertários. Basta lembrar que em 1969, Adorno chegou a chamar a polícia, quando estudantes invadiram a sua sala de aula. Assim, tanto Adorno como Reichelt representam marxianos quase  ininteligíveis, herméticos, que inventam segredos na obra de Marx, talvez, para esconder o seu afastamento do marxismo militante, e não podem ser considerados propriamente marxistas. Reichelt sustenta que Marx “escondeu” o seu método, ou, como repito, diz Grespan na própria orelha do livro: “ocultou o  seu método e não somente folheou a Lógica de Hegel, mas a teria estudado a fundo e a aplicado nos Grundrisse e em O Capital. Mas, nesta obra teria “mascarado” a dialética para não parecer idealista”. ler mais

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Imperio E Wood

Ellen Meiksins WOOD O Império do Capital. São Paulo: Boitempo, 2014.

Eduardo Barros Mariutti, Professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas. (Texto escrito especialmente para o blog.)

A editora Boitempo recentemente publicou a tradução de Empire of Capital, de Ellen Meiksins Wood. A edição original do livro foi publicada em 2003 pela editora Verso (Londres) na iminência do ataque estadunidense ao Iraque, um momento bastante oportuno para esta temática. O livro foi reeditado em 2005, praticamente sem mudanças significativas. A cuidadosa tradução de Paulo Cezar Castanheira para o português baseia-se na edição de 2005, mas apresenta algumas pequenas diferenças. A mais significativa é a inclusão de um interessante capítulo suplementar, intitulado “Resposta aos Críticos”[1], onde a autora responde as principais críticas e comentários feitos ao livro em um simpósio realizado em 2007. A edição da Boitempo não incluiu os dois prefácios da edição original, mas incluiu um prefácio exclusivo para a edição brasileira que, entretanto, não passa de uma ligeira reformulação do prefácio de 2005.

 Nesta resenha, analisarei O Império do Capital à luz do conjunto da obra de Ellen Wood. A despeito de ampla variedade temática, sua produção intelectual parte de um prisma unificador: a transição do feudalismo ao capitalismo. [2] É a esta luz que ela tenta articular temas tão variados como, por exemplo, a polêmica sobre a noção de liberdade na Grécia[3], o pós-modernismo[4], as relações entre capitalismo e democracia[5] e o imperialismo capitalista. O segundo grande referencial de sua obra que, com bastante dificuldade, ela tenta harmonizar com o primeiro, é a questão do socialismo, isto é, a luta pela superação do capitalismo.

 Tendo este quadro mais geral em vista, estruturei a resenha da seguinte forma. Apresentarei inicialmente o argumento básico de O Império do Capital. Na sequência, irei decompor o argumento em seus elementos constitutivos. Feito isso, examinarei a sua posição sobre as características gerais do imperialismo estadunidense. Após esta síntese geral, passarei aos comentários, onde exporei algumas críticas e tentarei situar a autora no quadro das reflexões teóricas sobre o imperialismo.

 Argumento geral

Ao separar a economia das demais dimensões da realidade, o capitalismo criou não somente uma nova forma de exploração – diretamente econômica e indiretamente “política” – do trabalho, mas também, uma forma peculiar de rivalidade interestatal, a qual decorre do descolamento entre o escopo limitado do poder extraeconômico dos Estados Territoriais e o alcance mais vasto do capital. No entanto, o “capital global” só pode se manter por intermédio de uma ordem social internacional rigidamente regulada por uma potência capitalista que usa o seu poder militar e demais formas extraeconômicas de coerção de forma indireta, optando preferencialmente por manipular os mecanismos econômicos do capitalismo, prioritariamente de acordo com seus interesses, contendo as “ameaças” (sistemas sociais alternativos, Estados potencialmente contra-hegemônicos, etc.), mas sem contrariar frontalmente os Estados “capitalistas” poderosos. O imperialismo capitalista, portanto, é uma forma opaca de dominação, derivada da diferenciação da esfera econômica, mas que depende ainda do poder extra-econômico, porém, em uma forma política peculiar: “não um Estado Global, mas um sistema global de Estados múltiplos.” ler mais

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democ ditadura aarão

O homem que encurtou a ditadura brasileira *

Mário Maestri **

Entre a ampla bibliografia lançada para os cinquenta anos do golpe militar, o breve ensaio Ditadura e democracia no Brasil [Rio de Janeiro: Zahar, 2014], do historiador Daniel Aarão Reis, destaca-se pela defesa de tese e de proposta surpreendentes, para não dizer mais. Vejamos a tese: literalmente sem enrubescer, o autor encurta a ditadura em seis anos. Para ele, ao contrário do tradicionalmente proposto, a ordem militar durou apenas 15 anos, e não 21. Ela teria chegado ao fim durante o governo Ernesto Geisel.

A revelação de Daniel Aarão Reis não é menos paradoxal. Ele retoma com enorme ênfase a proposta já um tanto velha que a ditadura não foi regime meramente militar! Com outros historiadores, em suas pesquisas, teria descoberto que a ordem militar foi apoiada também por civis, conhecendo, sempre, apoio entre a população não-fardada! Portanto, mais correto seria denominá-la de ditadura cívico-militar, como se tem proposto. Entre outras comprovações dessa importante descoberta estariam a “Marcha por Deus, pela Pátria e pela Família” e os índices eleitorais da ARENA durante aqueles anos!

Para Daniel Aarão Reis, a ditadura interrompeu-se durante o governo Ernesto Geisel, quando o ditador devolveu à sociedade alguns preceitos constitucionais. Os anos finais de seu governo e toda a presidência do “homem que amava os cavalos” seriam período pós-ditatorial, de “transição democrática”. Essa última teria se iniciado “com a revogação das leis de exceção […] em 1979” e terminado “com a aprovação” da Constituição de 1988. [p.125]

 A Ditadura Encurtada

Envolvido em seu formalismo institucional, o autor vacila na própria qualificação de parte do governo Castelo Branco como ditadura nua e crua.

 “Em seus últimos meses de governo, Castelo Branco efetuou ações estratégicas no sentido de institucionalizar a ditadura, dotando-a de um direito autoritário que pudesse, porém, prescindir do recurso continuado a atos de exceção.” (A materialização desse projeto) “significava, objetivamente, a superação do estado de exceção, ou seja, da ditadura.” [p.64]

 Procederiam, portanto, as propostas dos apologistas de Castelo Branco como um general de foro constitucionalista, ainda que conservador. O certo é que, em 24 de janeiro de 1967, no final do governo castelista, era promulgada Constituição que, segundo Daniel Aarão Reis, punha fim à ordem ditatorial substituindo-a por “estado de direito autoritário”. [66] Portanto, parte daquele governo e da administração de Costa e Silva, até o AI 5, seriam governos constitucionais, regidos por preceitos constitucionais, ainda que imperfeitos.

Ditadura, mesmo, dura e crua, seria a conhecida de 13 de dezembro de 1968, com o AI 5, até a magnanimidade de Ernesto Geisel.  Segundo o autor, a restauração da “ditadura aberta” teria sido feita a partir de movimento defensivo do alto mando militar, inquieto, devido a uma conjuntura social e política que “podia eventualmente se condensar e oferecer perigo real de desestabilização da ordem […]”. Como veremos, ele propõe que o próprio golpe foi iniciativa defensiva do alto comando militar de perigo real ou imaginado. [p.71]      ler mais

* Resenha do livro de Daniel Aarão Reis   Ditadura e democracia no Brasil. Do golpe de 1964 à Constituição de 1988, Zahar, 1914.

** Historiador, ensaista e professor do Programa de Pós-Graduação em História da UPF, RS; colaborador e membro do conselho consultivo de marxismo21.