A Comuna de Paris

decreto 2

Significativa e relevante experiência social e política da luta dos trabalhadores e dos movimentos sociais populares pela construção do socialismo,  A COMUNA DE PARIS DE 1871 foi e continua sendo um objeto permanente de reflexão e inesgotáveis ensinamentos para todos que buscam a radical transformação do Estado e sociedade capitalistas. Por ocasião dos 142 anos de sua comemoração, os socialistas revolucionários de todas latitudes continuam afirmando que os valores, ideais e objetivos desta autêntica “fulguração na história” não deixam de ser atuais enquanto persistirem em todo o mundo as estruturas iníquas e opressivas da ordem capitalista e imperalista. Nas definitivas palavras de Lênin, “a causa da Comuna é a causa da revolução social, é a causa da completa emancipação política e econômica dos trabalhadores, é a causa do proletariado mundial. E neste sentido é imortal”.

Associando-se a todos que homenageiam a heróica luta de mulheres, homens e crianças que deram suas vidas na defesa da humanidade, marxismo21 nesta página divulga, predominantemente, trabalhos (artigos, vídeos de aulas e palestras, filmes etc.) sobre a Comuna de Paris publicados no país. Igualmente textos de clássicos do pensamento marxista são aqui divulgados.

A Comuna não está morta! VIVA A COMUNA DE PARIS!

Os Editores

Marx e Engels sobre a Comuna de Paris de 1871.

Na alvorada de 18 de março (1871), Paris foi despertada por este grito de trovão: VIVE LA COMMUNE! O que é, pois, a Comuna, essa esfinge que põe tão duramente à prova o entendimento burguês?

“Os proletários da capital – dizia o Comité Central no seu manifesto de 18 de março – no meio das fraquezas e das traições das classes governantes, compreenderam que chegara para eles a hora de salvar a situação assumindo a direção dos assuntos públicos… O proletariado… compreendeu que era seu dever imperioso e seu direito absoluto tomar nas suas mãos o seu próprio destino e assegurar o triunfo apoderando-se do poder.”
Mas a classe operária não se pode contentar com tomar o aparelho de Estado tal como ele é e de o pôr a funcionar por sua própria conta.

O poder centralizado do Estado, com os seus órgãos presentes por toda a parte: exército permanente, polícia, burocracia, clero e magistratura, órgãos moldados segundo um plano de divisão sistemática e hierárquica do trabalho, data da época da monarquia absoluta, em que servia à sociedade burguesa nascente de arma poderosa nas suas lutas contra o feudalismo.”

“Em presença de ameaça de sublevação do proletariado, a classe possidente unida utilizou então o poder de Estado, aberta e ostensivamente, como o engenho de guerra nacional do capital contra o trabalho. Na sua cruzada permanente contra as massas dos produtores, foi forçada não só a investir o executivo de poderes de repressão cada vez maiores, mas também a retirar pouco a pouco à sua própria fortaleza parlamentar, a Assembleia Nacional, todos os meios de defesa contra o executivo.”

“O poder de Estado, que parecia planar bem acima da sociedade, era todavia, ele próprio, o maior escândalo desta sociedade e, ao mesmo tempo, o foco de todas as corrupções.”
“O primeiro decreto da Comuna foi pois a supressão do exército permanente e a sua substituição pelo povo em armas. ler mais

Uma sintética cronologia de A COMUNA DE PARIS pode ser aqui acessada

******

 A perspectiva das classes dominantes sobre a A Comuna e seus combatentes:

Que (Versalhes) transforme Paris num monte de ruínas, que as ruas se transformem em rios de sangue, que toda sua população pereça, que o governo mantenha sua autoridade e demonstre seu poder, que Versalhes esmague totalmente – seja qual for o custo – qualquer sinal de oposição a fim de dar a Paris e a toda França uma lição que possa ser lembrada e aproveitada pelos séculos que virão”.

Editorial de The New York Herald, maio 1871 (citado in La Commune de Paris 1871, excepcional filme de Peter WATKINS ).

*******

Textos clássicos do pensamento marxista

Marx (carta) Lenin 2
Engels Trotsky
Lenin 1 Brecht

vermelho

Trabalhos sobre a Comuna publicados no país:

Comuna de Paris: organização e ação, Camila do Valle acesso
Marx e Lenin sobre A Comuna de Paris, cap. dissertação, Rafael da Silva acesso
Marx e A Comuna de Paris, David Maciel acesso
A Comuna de Paris, partidos e movimentos sociais, Eliel Machado acesso
A Comuna de Paris: história e legado político, Milton Pinheiro acesso
A Comuna de Paris: uma fulguração na história, Caio N. de Toledo acesso
Marx e A Comuna de Paris, Marcos Del Roio acesso
A Comuna de Paris e a Revolução Russa, Mauro Iasi acesso
 A educação na Comuna de Paris, J. Claudinei Lombardi acesso
Comuna: uma educação emancipadora, K. Lucena e M. Grillo  acesso
Importância e atualidade da Comuna de Paris, Sílvio Costa  acesso
A Comuna de Paris e Revolução em Marx, Valério Arcary  acesso
A I Internacional operária e A Comuna de Paris, Osvaldo Coggiola  acesso
A Comuna de Paris no Brasil, Marcelo Badaró  acesso
O significado político da Comuna, Nildo Viana  acesso
Estamos aqui pela humanidade“, Paulo Barsotti  acesso
A Comuna de Paris e nós, Lúcio Flávio Almeida  acesso
A Comuna de Paris, Roberto Ponge  acesso
A Comuna de Paris, prelúdio das revoluções? Walmir Barbosa  acesso
Dossiê da Fundação Maurício Grabois (L. Martorano, A. Buonicore e outros)  acesso
Dossiê de Novos Temas (M. Pinheiro, J.Q. Moraes e outros)  acesso
Dossiê de Espaço Acadêmico (A. Ozai, E. Andrade e outros)  acesso
Dossiê revista PUC-VIVA (40) sobre A Comuna de Paris acesso
Dossiê PUC-VIVA (41) sobre A Comuna de Paris acesso

barricadas 2

Vídeos  sobre A Comuna de Paris 

Marx e a Comuna, J. Paulo Netto

Gramsci e a Comuna, C. Nelson Coutinho

A Comuna e a ditadura do proletariado, J. P. Netto

A Internacional e a Comuna,O. Coggiola

A Comuna, proletários e democracia, V. Arcary

Marx, Bakunin e a Comuna, J. Bernardo

A Comuna e a transição ao socialismo, M. Pinheiro

Lenin e a  Comuna de Paris, R. Coutinho

A Comuna e o Marxismo, A. Carlos Silva

Comuna, Comunas, A. Ozai

Marx e a Comuna, L. Cotrim

A Comuna & América Latina, A. Mendes

Outras comunas virão, V. Gianotti

A Comuna e Lenin, J. Bocchi

A Comuna e seu contexto, R. Casas

vendome

Filmes sobre A Comuna de Paris

La Commune de Paris 1871, Peter Watkins

The New Babylon, Grigorii Kozintsev

La Commune de Paris, R Menegoz

Uma filmografia comentada sobre a Comuna pode ser aqui acessada ;

 comuna_de_paris

Pesquisas sobre A COMUNA DE PARIS

* Extensa bibliografia, iconografia (cartazes, fotos, caricaturas etc.), vídeos, filmes, artes plásticas em torno da Comuna podem ser consultados na página de L´Association des Amis de La Commune de Paris 1871 ;

* Os últimos dias da Comuna

* Magníficas fotos (algumas delas comentadas por estudiosos) de vários momentos da Comuna podem ser aqui acessadas ;

* Por ocasião dos 140 anos da Comuna de Paris, colaboradores de marxismo21 criaram o blog Amig@s da Comuna no qual foram informadas as atividades sobre o episódio realizadas, em vários estados do Brasil, durante o ano de 2011; igualmente são divulgados materiais (artigos, vídeos e filmes) alusivos à heróica luta dos trabalhadores na Paris de 1871.

 

 

Publicado em Sem categoria | Tags , , , | Comentários Desligados

O golpe de 1964

1954 nunca mais

marxismo21 nesta página divulga um conjunto de materiais (artigos, documentos, trabalhos acadêmicos, vídeos, filmes etc.) que discute a natureza, o significado e as razões do golpe civil-militar de 1964. Passados quase 50 anos desse evento, nada há a comemorar. O blog – que numa futura edição deverá examinar o período da ditadura militar – busca contribuir para um conhecimento crítico da conjuntura político-social de 1964 e também para lembrar que as lutas pelo “direito à justiça” e pelo “direito à verdade” não podem ser relegadas ou subestimadas pelos democratas progressistas e socialistas no Brasil. Enquanto não for feita justiça às vítimas da violência do Estado e a verdade sobre o golpe e a ditadura militar não for conhecida pelo conjunto da sociedade, a democracia política no Brasil não será sólida e consistente.

 Por último, somos gratos a Diorge Konrad, do conselho consultivo, que colaborou com a organização deste dossiê. Os editores.

Ditadura-Abaixo-a-ditadura

Significado, natureza e polêmicas em torno  do golpe

Versões e controvérsias sobre o golpe de 1964, Carlos Fico acesso
Governo Goulart e o golpe de 1964: memória e historiografia, Lucilia Neves Delgado acesso
O golpe militar de 1964, L.A. Moniz Bandeira acesso
O golpe contra as reformas e a democracia, Caio N. de Toledo acesso
O governo Goulart e o debate historiográfico, Marcelo Badaró acesso
O golpe de 1964: discursos políticos e historiográficos, Rafael Lameira e Diorge Konrad acesso
1964: as falácias do revisionismo, Caio N. de Toledo acesso
1964: polêmica com tendências da historiografia, Demian Melo acesso
Balanço da historiografia sobre o golpe de 1964, Marcos Napolitano acesso
A conjuntura do golpe e a democracia, Marcos Del Roio acesso
As causas políticas da vitória dos golpistas, J. Quartim de Moraes acesso
N. Werneck Sodré: debatendo o golpe e o ISEB, Dênis de Moraes acesso
N. Werneck Sodré e o golpe de 1964, Olga Sodré acesso
O golpe de 1964 no Nordeste, vários artigos  acesso

militarismo-ditadura

A conjuntura do golpe: atores, lutas sociais e político-ideológicas

Quem dará o golpe no Brasil?, livro de Wanderley Guilherme  acesso
Acumulação capitalista e o golpe de 1964, Nildo Viana  acesso
Golpe de 1964: militares brasileiros e o empresariado nacional e norte-americano, Martina Spohr  acesso
A participação dos EUA no golpe de 1964, J. Green e A. Jones  acesso
O papel dos EUA no golpe de 1964, R. Rodrigo  acesso
IPES e IBAD na conjuntura do golpe de 1964, Bruna Pastore  acesso
Forças Armadas legalistas x movimento sindical, Felipe Demier  acesso
O dispositivo militar do governo Goulart, Fabiano Faria  acesso
A luta ideológica no pré-1964: IPES e IBAD, Caio N. de Toledo  acesso
Catolicismo conservador no pré-1964, A. Codato e M. Oliveira  acesso
A ação da OAB no golpe de 1964, Marcos Leme de Mattos  acesso
Representações do golpe na mídia, Flávia Birolli  acesso
Imprensa, jornalistas e o golpe de 1964, João Amado  acesso
Jornais paulistas apoiaram o golpe, Luiz Antônio Dias  acesso
As manchetes da imprensa no golpe de 1964, CartaMaior  acesso
Dossiê: “1964: Cultura e Poder”, Revista DH, PUC-SP  acesso
Artistas e intelectuais nos anos 1960, Marcelo Ridenti  acesso
Os integralistas e o golpe de 1964, Gilberto Calil  acesso
Apoio e resistência em Santa Maria (RS), Diorge Konrad  acesso
O golpe de 1964 visto pelo humor crítico, Dislane Moraes  acesso
O golpe nos livros didáticos, Mateus Pereza e Andreza Pereza  acesso
“Era possível abortar o golpe!”, ex-Brig. Rui Moreira Lima  acesso 
Carta de Florestan Fernandes a um militar e outros textos  acesso 
Réquiem para um aniversário, Ruy Guerra  acesso

Trabalhos acadêmicos

A Rede da Democracia e o golpe de 1964, Eduardo Gomes Silva acesso
A política econômica de Goulart, Mário Pinto de Almeida acesso
Movimento estudantil e política, João Roberto Martins Filho acesso
A esquerda católica e as reformas de base, Fábio Gavião acesso
O discurso golpista nos documentários do Ipes, Marcos Correa acesso
O caráter de classe do anticomunismo do IPES, Pâmela Deusdará acesso
Brizola e as lutas dos militares subalternos, César Rolim acesso
Teatro político e reforma agrária, Rafael Villas Bôas acesso

21 anos

Vídeos e filmes sobre o golpe de 1964 e a ditadura militar

Depoimento de Gregório Bezerra: política e repressão acesso
Apoio dos EUA ao golpe de 1964 acesso
“Operação Brother Sam” e o golpe de 1964 acesso
Por que o governo Goulart não resistiu? acesso
TV Globo e exaltação da ditadura militar (1975) acesso
Dezenas de vídeos sobre a ditadura militar (Núcleo de Memória) acesso
Filmes do IPES: a preparação do golpe acesso
Cabra marcado pra morrer, Eduardo Coutinho acesso
O dia que durou 21 anos, Flávio Tavares acesso
Jango, Sílvio Tendler acesso
Cidadão Boilesen, Chaim Litewski acesso

 

 

 

Publicado em Sem categoria | Tags , , , , , | 17 Comentários

Imperialismo: teoria, história e crítica

marxismo21 examina nesta página a problemática do imperialismo, noção decisiva da crítica da economia política marxista. Tendo em vista a natureza e a especificidade do blog, são divulgadas aqui, na sua quase totalidade, matérias de autores brasileiros que discutem a teoria do imperialismo na versão dos clássicos do pensamento marxista e que debatem os novos desafios colocados à essa teoria face as transformações do Estado e da sociedade capitalista contemporâneos. Vale sempre lembrar que os textos divulgados foram selecionados de publicações de esquerda, de simpósios marxistas, de bibliotecas digitais universitárias etc. que os disponibilizam em suas páginas.

Os Editores

imperialismo guerra

Sobre a teoria do imperialismo

Interpretações clássicas do imperialismo, Eduardo Mariutti acesso
A gênese da teoria do imperialismo, Luis Fernandes acesso
Lenin, imperialismo e revoluções, Valério Arcary acesso
Nota sobre a teoria do imperialismo, Marcos del Roio acesso
Desenvolvimento desigual e combinado e imperialismo, Michael Löwy acesso
Imperialismo e capital financeiro, Larissa Veiga acesso
Imperialismo e capitalismo, Marcos del Roio acesso
Imperialismo e hegemonia, Ana Garcia acesso
O anti-imperialismo de Stalin e a questão chinesa  acesso

 rivera

Imperialismo hoje e sua presença na América Latina

Notas para o estudo do imperialismo tardio, Virgínia Fontes acesso
Notas sobre o imperialismo hoje, Wilson Cano acesso
Teorias do imperialismo e da dependência & a financeirização do capitalismo contemporâneo, Marisa Silva Amaral acesso
Guerra e dominação imperialista, Jorge Beinstein acesso
Império, guerra e terror, J. Quartim de Moraes acesso
Imperialismo e anti-imperialismo no séc. 21, Lúcio F. de Almeida acesso
Teorias do neoimperialismo, Alex Fiuza acesso
Imperialismo e teoria dos ciclos longos, Gilson Dantas acesso
Acumulação, centralização e imperialismo na AL, Cristiano M. da Silva acesso
Imperialismo contemporâneo: Notas, Virgínia Fontes acesso
Imperialismo e internacionalização dos mercados latino-americanos nos anos 1950, Fábio A de Campos acesso
Imperialismo, dependência e revolução na AL, João P. Hadler acesso
Imperialismo e democracia na AL anos 90, Eliel Machado acesso
Imperialismo e subimperialismo brasileiro? C. Bugiato e T. Berringer acesso
Sobre “Brasil: capital-imperialismo”, Iraldo Matias acesso
Imperialismo na Venezuela, Mariana Lopes acesso

imperialismo usa

 ”Globalização” e teoria do imperialismo

Globalização e ultraimperialismo. L.A. Moniz Bandeira acesso
Globalização e imperialismo, Edmilson Costa acesso
A mundialização imperialista, Marcos Del Roio acesso
Globalização: nova fase do capitalismo? Jorge Miglioli acesso
Globalização e imperialismo, Octavio Ianni acesso
Miragem global e imperialismo, J. Quartim de Moraes acesso
Globalização ou imperialismo? Paulo Tarso Soares acesso

 Livros sobre a questão do imperialismo

O Brasil e o capital-imperialismo, Virgínia Fontes (texto completo do livro) acesso
Apresentação de “Imperialismo, etapa superior do capitalismo”, V. I. Lenin, por Plínio Arruda Sampaio Jr. acesso

Trabalhos acadêmicos

Teorias do imperialismo e da dependência, Marisa Silva acesso
O imperialismo: os teóricos precursores e o debate contemporâneo, Paulo S. Souza acesso

 VÍDEOS

Che: Sobre o imperialismo

A guerra contra a democracia

EUA e Palestina

A verdade sobre os piratas da Somália

 

Publicado em Sem categoria | Tags , , , | Comentários Desligados

Ruy Mauro Marini: teoria & praxis da revolução na AL

A obra e a contribuição teórica de Ruy Mauro Marini (1932-1997) são os temas desta página de marxismo21. Abre este dossiê um artigo do autor sobre os impasses e os desafios que, hoje,  se colocam na retomada da luta pelo socialismo. Por sua vez, Carlos Eduardo Martins, professor da Universidade Federal do Rio do Janeiro e empenhado estudioso da obra de Marini - num breve texto elaborado especialmente para o blog – busca sintetizar as principais contribuições teóricas do cientista social brasileiro para o pensamento crítico na América Latina. Outros textos de Marini, informações de acervos e fontes para o conhecimento de sua obra, artigos e trabalhos acadêmicos completam este conjunto de materiais em torno do cientista social que – talvez pelo caráter comprometido e revolucionário de sua obra – ainda permanece ignorado e pouco debatido, inclusive  nos meios intelectuais e acadêmicos de seu país. Prova eloquente disso é a singular observação: se alguns textos de Ruy Marini (ou alusões à sua obra) se encontram em revistas brasileiras de esquerda, inexiste um único artigo desse autor (ou sobre sua extensa produção intelectual) em revistas universitárias do país.

Agradecendo a colaboração de Carlos Eduardo Martins, deve ser creditado a Danilo Martuscelli, membro do comitê editorial de marxismo21, a organização deste dossiê.

Editores

*****

Duas notas sobre o socialismo *

Ruy Mauro Marini

A crise em que o movimento socialista ingressou desde meados da década passada, especialmente no Ocidente, pode ser objeto de duas considerações. A primeira consiste em não perder de vista que essa crise é parte de um processo teórico e prático no qual se articulam os distintos movimentos que, no plano das idéias e da luta social e política, realizaram a crítica do capitalismo como modo de organização da vida social. De Sismondi à esquerda ricardiana, de Owen a Marx, de Kautski e Hilferding a Lenin, Rosa Luxemburgo, Trotski e Gramsci, a teoria socialista revelou os fundamentos da economia capitalista e da sociedade burguesa; evidenciou a perversidade estrutural e a expropriação do trabalho social que elas propiciam, e armou ideologicamente os povos que contra elas lutaram.

Têm sido muitos esses povos, desde os operários parisienses de 1871 e os destacamentos operários-camponeses da Rússia até as massas espoliadas da China, Cuba, Vietnã, Angola, Nicarágua. Mais de um terço da humanidade optou, em seu momento, pela recusa ao capitalismo e em favor do desenvolvimento social orientado para a supressão das desigualdades de classe e para a implantação de uma democracia radical de massas. Sob essas bandeiras, e ainda suportando o isolamento e as agressões

internacionais, partindo de um atraso econômico e social sem paralelo entre as potências ocidentais, a União Soviética conquistou, em pouco mais de trinta anos, uma posição destacada no cenário mundial. Em todos os países que tomaram esse rumo, as necessidades básicas da população em matéria de educação, saúde e alimentação se viram satisfeitas e acabaram as agruras e o desemprego.

Portanto, não é fácil apagar o socialismo da memória dos povos e muito menos convencer a imensa maioria da humanidade, para a qual a solução dessas questões aparentemente elementares ainda continua pendente, de que o socialismo foi somente um equívoco dos que não haviam compreendido que a história acabou. Para esta humanidade explorada e carente, a história nem sequer começou. O camponês do Nordeste do Brasil tenta ingressar nela todos os dias, amontoando-se em paus-de-arara que o conduzem às regiões mais prósperas do Sul, para descobrir, nas favelas do Rio de Janeiro ou de São Paulo, que continuam lhe negando a entrada.

A segunda consideração referente ao que se passou com o socialismo implica perguntar se a crise do chamado “socialismo real” ou, mais precisamente, europeu, invalida e encerra essa busca de formas superiores de organização social, a que assistimos há quase dois séculos, ou apenas representa mais um desses momentos de autocrítica radical que marcam a história do socialismo e dos quais este ressurgiu com uma criatividade renovada. Foi assim após a derrota da Comuna de Paris e a dissolução da Associação Internacional de Trabalhadores que, em pouco tempo, foram seguidos pela difusão do socialismo na Europa e a fundação da Segunda Internacional. Foi assim quando, face aos acontecimentos da Primeira Guerra Mundial e a divisão da Segunda Internacional, se assistiu à primeira revolução socialista vitoriosa na Europa e à criação da Internacional Comunista. Foi assim depois de Ialta, quando, insurgindo-se contra os limites que lhes foram impostos pelo compromisso estabelecido entre Estados Unidos e União Soviética, os iugoslavos e os chineses proclamaram seu direito à revolução socialista. Foi assim na América Latina, até que o povo cubano rompesse com supostas improbabilidades teóricas e geográficas e, em todo o mundo, até que o Vietnã apontasse com o dedo a nudez do imperialismo.

É porque sabia disso que Marx pôde comparar a revolução socialista com a toupeira, que passa boa parte de sua vida trabalhando as entranhas da terra. É por isso, também, que, em períodos como este, ele afiava a arma de sua crítica, dedicando-se à sua principal obra, ao mesmo tempo que se comprometia inteiramente com as novas formas que, com os partidos operários, assumia o desenvolvimento do socialismo na Europa. Guardadas as proporções, este é o exemplo que nos deve inspirar. ler mais

* Texto publicado em Lutas Sociais, vol. 5,  1998.

*****

O legado de Ruy Mauro Marini para as Ciências Sociais

Carlos Eduardo Martins

Ruy Mauro Marini foi um dos principais cientistas sociais latino-americanos. Sua obra é marcada por uma profunda criatividade que se expressa no rigor do uso dialético do método marxista para compreender a realidade latino-americana e o desenvolvimento da economia mundial. Ao fazê-lo, o autor redefine as leis gerais da acumulação do capital desdobrando as categorias abstratas na realidade concreta, seguindo o plano de Marx nos Grundrisse, onde este nomeava cinco níveis de aproximação do pensamento à realidade para reconstituí-la como concreto espiritual: a) as categorias básicas da realidade (território, população etc); b) a definição das principais categorias internas da sociedade burguesa (capital, trabalho e renda da terra) c) a síntese destas relações no Estado; d) as relações internacionais de produção; e e) o mercado mundial e as crises.

 Partindo de uma totalidade mais ampla do que a teorizada pelo pensamento eurocêntrico, que via a Europa Ocidental a partir de suas relações internas e o mundo como um espaço a ser ocupado por seu desdobramento externo, Marini inclui no conceito de economia mundial, as relações internacionais de produção e o mercado mundial, inscrevendo aí centro, periferia e os países socialistas. No âmbito destas relações se constitui o padrão mundial de reprodução do capital e o lugar que nele ocupa a América Latina e seus países, ou a Europa Ocidental e os Estados Unidos, por exemplo. Entre os temas que o autor abordou em sua obra estão o capitalismo dependente e sua especificidade, as questões da transição ao socialismo, o balanço do pensamento social latino-americano e a análise dos processos de globalização.

Em sua análise do capitalismo dependente, o autor desenvolve conceitos de enorme fecundidade para a interpretação dos processos de acumulação de capital na América Latina. São os conceitos de superexploração do trabalho, subimperialismo, Estados de contra-insurgência e Estados de quarto poder.

O conceito de superexploração do trabalho designa a queda dos preços da força de trabalho por debaixo de seu valor e pode ocorrer através de três mecanismos:  redução salarial, elevação da intensidade de trabalho ou aumento da jornada de trabalho, ambos sem o aumento da remuneração equivalente à maior utilização e desgaste da força de trabalho. Segundo Marini, a superexploração é o resultado de compensações que visam neutralizar transferências de mais-valia dos capitais de menor intensidade tecnológica para aqueles que desfrutam de situação monopólica. Estas transferências se originam nos processos de concorrência inerentes à circulação do capital e são impulsionadas, principalmente, pela mais-valia extraordinária, mas também pelos preços de produção. A mais valia-extraordinária assume uma forma intersetorial concentrando progresso técnico no segmento de bens de consumo suntuário e criando demanda para a expansão de suas mercadorias pela substituição de força de trabalho por maquinaria. Desta forma, sustenta os seus preços, apesar de desvalorizar individualmente o produto.

No capitalismo dependente, a mais-valia extraordinária, objetivo por excelência do capital, assume forma extrema pela associação tecnológica entre o grande capital local e o capital estrangeiro. Estabelece-se com isso uma dupla forma de apropriação de mais valia: a) no âmbito da economia dependente, que incide sobre as médias e pequenas burguesias em favor dos monopólios tecnológicos e financeiros internos; b) da economia dependente para a economia internacional, em função do intercâmbio desigual, das remessas de lucros, dos pagamentos de juros e amortizações da dívida, fretes internacionais e serviços de diversos tipos, que representam diversas formas de transferências de mais-valia para monopólios internacionais.

Estas formas de apropriação de mais-valia na economia dependente implicam a reação da média e pequenas burguesias para manter suas taxas de lucro via superexploração do trabalho, uma vez que não conseguem neutralizá-la via desenvolvimento tecnológico. Neste sentido, restringem relativamente ou absolutamente a produção de bens de consumo necessário, reorientando parte da mesma para o setor de bens de consumo suntuário onde está concentrada a mais-valia extraordinária. Tal expediente significa um processo de monopolização e destruição de capitais no segmento de bens de consumo necessários, ao tempo que cria um padrão de específico de regulação do mercado de trabalho, de que se aproveita a burguesia monopólica, uma vez que os setores que estão abaixo das condições médias de produção e condicionados pela situação monopólica, são os responsáveis pela maior parte da geração de empregos. ler mais

******

Fontes para pesquisar a obra de Ruy Mauro Marini 

Ruy Mauro Marini – Memória
Acervo Ruy Mauro Marini
Escritos de Ruy M. Marini
Intérpretes do Brasil

Textos de Ruy Mauro Marini

 Sobre o socialismo
Desenvolvimento e dependência
Dialética da dependência
A dialética do desenvolvimento capitalista no Brasil
Da ditadura à democracia 1964-1990
El experimento neoliberal em Brasil
La universidad brasileña
A revolução cubana: uma reinterpretação

 

Textos sobre aspectos da obra de Ruy M. Marini

A atualidade do pensamento de Ruy M Marini, Pierre Salama  acesso
O pensamento social e atualidade da obra de RMM, C. Eduardo Martins  acesso
A interpretação marxista de Ruy Marini, Adolfo Wagner  acesso
Estado no pensamento político de Ruy Mauro Marini, José C. Mendonça  acesso
Superexploração do trabalho e acumulação de capital, C. E. Martins  acesso
A superexploração da força de trabalho no Brasil, Mathias S. Luce  acesso
A atualidade do conceito de superexploração do trabalho, Fábio M. Bueno e Raphael Seabra  acesso
A teoria do subimperialismo brasileiro, Fábio M. Bueno e Raphael Seabra  acesso
 O atual resgate crítico da teoria marxista da dependência, Marcelo Carcanholo  acesso
A trajetória da teoria marxista da dependência no Brasil: um não-debate, Fernando Prado  acesso
A economia política do subimperialismo, Mathias S. Luce  acesso
La dependencia a debate, Roberto López  acesso
RMM: dependência e intercâmbio desigual, João Machado  acesso

 Trabalhos acadêmicos em universidades brasileiras

 A teoria do subimperialismo em Ruy Mauro Marini, Mathias Luce acesso
O capitalismo dependente brasileiro:  o debate entre Fernando Henrique Cardoso e Ruy Mauro Marini acesso
Um estudo sobre a vertente marxista da dependência, Maira Bichir acesso

Duas obras recentes sobre a obra e vida de Ruy Marini

A América Latina e os desafios da globalização, vv. aa.

Ruy Mauro Marini: vida e obra, R. Traspadini e J.P. Stedile

 

 

 

Publicado em Sem categoria | Tags , , | 2 Comentários

Marxismo e feminismo

A iniciativa de dedicarmos uma página especial do blog à problemática do “Marxismo e Feminismo” surgiu de uma provocativa e efusiva manifestação de uma leitora, Eduarda de Lemos, que nos escreveu por ocasião do lançamento do blog. Nessa oportunidade, ela afirmava “é de enlouquecer por aqui olhando as publicações (do blog), sem contar que está bem organizado!”; igualmente fazia uma sugestão para que se criasse um tópico especial sobre marxismo-feminismo no blog. Nossa leitora, inclusive, reconhecia que nele já havia alguns textos sobre o tema, “mas ficaria lindamente lilás se tivessem muitos outros”.

A partir dessa manifestação, outros membros de nosso Conselho Editorial e Consultivo foram apoiando e estimulando a ideia. Dentro dos princípios que norteiam marxismo21, construiu-se, pois, esta página especial.

Como ponto de partida, apresentamos dois textos clássicos do marxismo, escritos no início do século XX, no contexto da Revolução Russa, que discutem a nova mulher, a nova moral sexual, e a participação feminina na política e na construção de um novo mundo. O primeiro é da revolucionária russa Alexandra Kolontai (1872-1952), “O amor e a nova moral”, um dos capítulos do livro que contém dois ensaios da autora, A nova mulher e a moral sexual e O amor na sociedade comunista, escritos em 1918 e 1921, respectivamente, e publicados pela Expressão Popular (o livro tem o título do primeiro ensaio), em 2000, com introdução de Tatau Godinho. No texto aqui destacado, Kolontai explicita a necessidade de se repensar o amor e a sexualidade sobre novas bases, como um desafio que deve fazer parte do processo revolucionário. O segundo texto é do marxista peruano José Carlos Mariátegui (1894-1930), “A mulher e a política”, publicado originalmente em Variedades, Lima, em 15 de março de 1924 – como fruto de sua atividade de jornalista e defensor da revolução bolchevique – e que faz parte do livro Revolução Russa: história, política e literatura, com organização, tradução e prefácio de Luiz Bernardo Pericás, recentemente publicado pela Expressão Popular (2012). Neste texto, Mariátegui – além de destacar o papel de Kolontai – afirma que a história da Revolução Russa se acha, na verdade, muito conectada à história das conquistas do feminismo.

Na seqüência, selecionamos textos publicados pela Revista Escrita Ensaio, n.5, dedicada à temática específica “Mulher brasileira: a caminho da libertação”, publicada em 1979 – justamente no pico da retomada do movimento operário no pós-1964 – que também significou um importante momento do movimento feminista, através da realização do Congresso da Mulher Metalúrgica, do Primeiro Congresso da Mulher Paulista, do Encontro Nacional das Mulheres, promovido pelo Centro da Mulher Brasileira, entre outras iniciativas. Deste número temático, destacamos inicialmente dois textos. O primeiro é uma entrevista do então líder do movimento operário e presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, Luis Ignácio Lula da Silva, “Uma luta comum de homens e mulheres”, que com certeza nos ajuda a compreender melhor o pensamento do ex-presidente da República sobre o tema. O segundo é um importante artigo, “O fardo das brasileiras – de mal a pior”, da socióloga marxista Heleieth Saffioti – símbolo e uma das pioneiras da complexa e bem-vinda discussão sobre marxismo e feminismo no Brasil. Nele, a autora defende explicitamente que uma mulher genérica não existe, mas sim mulheres localizadas na estrutura social, que arcam com o ônus desta inserção e, portanto, a intensidade da discriminação feminina varia segundo as classes sociais.

Em função de sua importância, outros textos de Saffioti devem ser destacados. Neste sentido, ressalte-se o dossiê “Marxismo e feminismo: um ano sem Heleieth Saffioti”, organizado por Lutas Sociais (PUC-SP) – publicado no no. 27 da revista -, em homenagem a esta importante lutadora e pensadora. (Uma nota dos editores de Lutas Sociais, ao cederem os textos ao blog, pode ser aqui acessado.)

O dossiê faz referência ao excelente livro de Saffioti, publicado em 1969, A mulher na sociedade de classes: mito e realidade, através do texto “A questão da mulher na perspectiva socialista”, que é uma parte do capítulo deste clássico das ciências sociais no Brasil. Além de uma entrevista com a autora, realizada por Renata Gonçalves e Carolina Branco, “Heleieth Saffioti por ela mesma: antecedentes de A mulher na sociedade de classes”, o dossiê publica ainda os seguintes artigos: “Uma homenagem a Heleieth Saffioti: minha maior mestra” (Maria Aparecida de Moraes Silva); “Heleieth Saffioti!” (Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida); “Desvendando O poder do macho: um encontro com Heleieth Saffioti” (Angélica Lovatto); “O feminismo marxista de Heleieth Saffioti” (Renata Gonçalves); “Marxismo e feminismo hoje” (Judith Orr); “Feminismo e marxismo: 40 anos de controvérsias” (Andréa D’Atri); “Rumo a uma união queer do marxismo e do feminismo?” (Cinzia Aruzza); “Uma visão feminista sobre o sujeito da transformação social em Nuestra América” (Luciano Fabbri); e “Integrar desintegrando: as metamorfoses no mundo do trabalho feminino na agroindústria” (Claudia Mazzei).

Ainda na linha de dossiês organizados sobre o tema do feminismo, convém destacar o que foi publicado por Mediações – Revista de Ciências Sociais (Universidade Estadual de Londrina-PR), cujo link disponibiliza o volume 14, n.2, de 2009, abordando “Contribuições do pensamento feminista para as Ciências Sociais”. Embora nem todos os textos – num total de dez artigos – discutam especificamente o feminismo no contexto do marxismo, muitos deles tratam do tema, destacando-se temáticas relacionadas, por exemplo, à participação política das mulheres no MST, a presença de mulheres no cenário intelectual e das lutas sociais do pré-1964 no Brasil, as relações entre feminismo e capitalismo, o movimento de mulheres e a imprensa, entre outros.

Neste campo de discussão, é importante destacar o papel da vanguardista Flora Tristan (1803-1844) que, na Paris dos anos 1840 – com sua obra União operária (1843) que defendia a auto-emancipação dos trabalhadores e o internacionalismo socialista – impressionava nomes como Marx e Bakunin, entre outros. Outro importante texto de Tristan que se relaciona diretamente ao tema, publicado dois anos após sua morte é A emancipação da mulher. O filósofo Leandro Konder dedicou um estudo a esta militante e escritora, Flora Tristan, uma vida de mulher, uma paixão socialista, publicado em 1994, pela Relume-Dumará, livro que poderá ser acessado por meio de um link logo abaixo informado. Jamais poderíamos esquecer um outro grande momento da luta pela emancipação feminina que foi a Comuna de Paris de 1871onde, entre outras mulheres, emerge a figura de Louise Michel (1830-1905). Conferir texto em versão digital na Bibliothèque Nationale de France.

Pensando no cenário contemporâneo das Ciências Humanas não podemos deixar de mencionar o importante papel da filósofa estadunidense Judith Butler, uma das intelectuais mais influentes na discussão sobre o tema hoje. Para estimular a leitura dessa autora disponibilizamos aqui o texto de Vladimir Safatle, “Gênero e silêncio”, publicado recentemente na Folha de S. Paulo. Nesta direção, uma entrevista com a autora, “Conversando sobre psicanálise”, publicada na Revista Estudos feministas, da UFSC, é aqui divulgada. Um conjunto final de mais quatro textos devem ser mencionados. Os dois primeiros estão abrigados no site que leva o nome da combativa feminista brasileira Pagu: são eles um artigo e a tese de livre-docência de Maria Lygia Quartim de Moraes. Outros dois textos têm as autorias de Lelita Benoit e Clara Araújo.

Vários textos sobre o feminismo sob a perspectiva do marxismo podem ser acessados no excelente site Marxismo critico – práxis, consciencia y libertad.

Logicamente não poderíamos deixar de fazer referências a alguns dos textos do blog que já estão disponíveis desde o seu lançamento; assim, destacamos a tese de doutorado “Marxismo e a questão feminina”, de Joana El-Jaick Andrade, USP, em 2011: igualmente a dissertação de mestrado, “Trabalhadoras e anarquismo no Brasil”, defendida em 1979, por Monica Siqueira de Barros, na Unicamp.

Enfim, os mais de trinta textos sobre feminismo e marxismo aqui divulgados são apenas um primeiro estímulo, que deverá ser complementado pelos que colaboram para a divulgação e construção deste tema em marxismo21.

Para finalizar, somos gratos àqueles editores que autorizaram a publicação de seus materiais na presente página: aos Editores e Comitê Editorial da Revista Lutas Sociais n.27 que autorizaram a publicação integral de seu dossiê; ao editor Wladyr Nader, da Revista Escrita/Ensaio; aos editores da Expressão Popular; e à Comissão Editorial da Mediações – Revista de Ciências Sociais. Também agradecemos aos que contribuíram, estimularam e incentivaram a seleção inicial dos textos aqui divulgados: Caio N. de Toledo, Maria Orlanda Pinassi, Milton Pinheiro, Patrícia Trópia, Sofia Manzano e Virgínia Fontes.

Por último, não podemos deixar de lamentar a perda recente de duas grandes figuras humanas que muito se destacaram no Brasil na luta pelo socialismo e pela causa do feminismo: Zuleika Alambert, falecida aos 90 anos (eleita deputada estadual em 1947, pelo PCB), foi uma das primeiras mulheres a conquistar uma cadeira na Assembléia Legislativa de São Paulo, por Santos; e Kathrin Buhl, Diretora da Fundação Rosa Luxemburgo, em São Paulo, que com sua militância socialista e internacionalista teve destacado papel nas lutas anticapitalistas do nosso tempo.

A elas e a Heleieth Saffioti  é dedicado este dossiê de marxismo21.

Editores: Angélica Lovatto (UNESP) e Paulo Barsotti (FGV).

* Nota da Editoria de marxismo21: após o lançamento da página, outros materiais – não mecionados na Apresentação acima – foram incluidos.

******

Artigos e entrevistas

O fardo das brasileiras, Heleieth Saffioti  acesso
“Uma luta comum de homens e mulheres”, entrevista c/ Luis Ignácio da Silva  acesso
Sobre o feminismo: entrevista com Judith Butler, Patrícia Knudsen  acesso
Dossiê sobre a questão do feminismo, Mediações  acesso
O feminismo marxista de Heleieth Saffioti, Renata Gonçalves, Lutas Sociais  acesso
Heleieth Saffioti por ela mesma: entrevista a R. Gonçalves e C. Branco, LS  acesso
Desvendando o poder do macho, Angélica Lovatto, LS  acesso
H. Saffioti: “Mestra maior”, Maria Aparecida M. Silva, LS  acesso
Marxismo e feminismo hoje, Judith Orr, LS  acesso
Feminismo e marxismo: 40 anos de controvérsias, Andrea D´Atri, LS  acesso
Dossiê sobre a questão do feminismo, Revista Mediações, LS  acesso
Heleieth Safiotti, Lúcio Flávio de Almeida, LS  acesso
Rumo a uma “União queer” de marxismo e feminismo?,  Cintia Aruzza, LS  acesso
Metamorfoses no mundo do trabalho feminino na agroindústria, Cláudia Mazzei, LS  acesso
Um olhar feminista sobre o sujeitx da transformação social em Nuestra América, Luciano Fabbri, LS  acesso
Marxismo e feminismo: afinidades e diferenças, M. Lygia Moraes, Pagu  acesso
Feminismo, gênero e revolução, Lelita Benoit, CM 11  acesso
Feminismo, reprodução, trabalho doméstico e acumulação (vários vídeos) acesso
Marxismo, feminismo e gênero, Clara Araújo, CM 11  acesso
Judith Butler, gênero e silêncio, Vladimir Safatle, FSP  acesso

Livros e capítulos

Floran Tristan, Leandro Konder acesso
O amor e a nova moral, Alexandra Kolontai acesso
Oeuvres posthumes, Louise Michel acesso
A questão da mulher na perspectiva socialista, Heleieth Saffioti acesso

 

Trabalhos acadêmicos

Vinte anos de feminismo, Maria Lygia Q. de Moraes acesso
Marxismo e a questão feminina, de Joana El-Jaick Andrade acesso
Trabalhadoras e anarquismo no Brasil, Monica Siqueira de Barros acesso

 Sites

marxismocritico
arquivomarxista
bibliotecasocialista

 

 

Publicado em Sem categoria | Tags , | 5 Comentários

Oscar Niemeyer: uma arquitetura engajada

O reconhecimento do trabalho arquitetônico de Oscar Niemeyer é praticamente unânime em todo o mundo. O conjunto da mídia, brasileira e internacional – por meio de extensas matérias e depoimentos de artistas e intelectuais –, tem exaltado a criatividade, a originalidade, a plasticidade e a genialidade dessa ciclópica e ecumênica obra. Certamente, poucos artistas no mundo e em todos os tempos alcançaram semelhante consagração; nas palavras de seu dileto amigo Darcy Ribeiro, “Oscar Niemeyer (será) o único brasileiro a ser lembrado, no mundo todo, daqui a mil anos”. Nesta breve homenagem, marxismo21 busca destacar qualidades e valores que nem sempre foram devidamente ressaltados nas extensas matérias dedicadas ao arquiteto: o engajamento humanista e o compromisso com os ideais comunistas. Na sintética definição de Eduardo Galeano, Niemeyer ama as curvas, mas “odeia as linhas retas e o capitalismo.”

O texto de Niemeyer publicado – infomando como ele concebeu uma de suas obras engajadas –, permite-nos esclarecer um pouco de sua concepção estética e política. Como repetidamente afirmava, mais importante do que a arquitetura era a revolução. Questionando alguns críticos de esquerda no Brasil, divulgamos um artigo de um jovem arquiteto marxista; para Alexandre Benoit, o conjunto do trabalho de Niemeyer deve ser concebido como um projeto de sonhos e utopia à espera de sua efetiva realização revolucionária – que, sabia ele, não se concretizaria por meio da arquitetura. Entrevistas e vídeos integram esta homenagem ao arquiteto falecido aos 104 anos, em 5 de dezembro, na cidade do Rio de Janeiro. O desenho abaixo é um esboço do projeto da sede do Partido Comunista Francês, obra concluida em 1980. A esclarecer que o  comunista, de forma solidária e generosa, nada cobrava de trabalhos militantes como este.

Não basta louvar

(sobre o projeto do Memorial Luiz Carlos Prestes)

O projeto que fiz do memorial de Luiz Carlos Prestes é, a meu ver, obra tão especial que vale a pena explicá-la um pouco.

Não tinha nenhum programa preestabelecido. O meu aniversário, uma semana antes, havia sido muito movimentado, e centenas de amigos me procuraram para me abraçar na casa das Canoas. O meu desejo era evitar tudo isso, e festejar um centenário me parecia pesado demais. Não que o passado me entristecesse, mas como me revolta lembrar as velhas amizades perdidas para sempre…
Como eu esperava, os amigos insistiram e acabei ficando o dia todo por lá, onde, sem festa nem música, atenderia os que aparecessem. E, passado tudo isso, foi no meu apartamento de Ipanema que me deixei ficar, um pouco cansado do que ocorrera, mas surpreso ao constatar que, como se tivesse estado no escritório, havia projetado o memorial de Prestes e lera dois livros extraordinários.
O primeiro é uma novela do poeta português Manuel Alegre, “Cão como Nós”, que muito me comoveu. Uma história simples de um cachorro que acompanhou o seu narrador por muitos anos e que com ele se entendia tão bem que só faltava falar. É nessa procura de comunicação, de se compreenderem melhor, que o texto se desenvolve em linguagem de qualidade literária tal que não raro pedia a Vera, minha mulher, para repetir trechos pelo prazer de os ouvir outra vez.
O outro livro, que recebi de presente do meu amigo Fernando Balbi, é uma coletânea de artigos de José Luís Fiori (“O Poder Global”), tão atualizados e esclarecedores que todo jovem brasileiro deveria conhecê-los. Fiori expõe sua posição progressista sobre as contradições do mundo globalizado e a onda neoconservadora que cresce por toda parte, com forte apoio do governo norte-americano.
Mas não foi só a leitura que me ocupou, mas principalmente o projeto que fiz do memorial de Luiz Carlos Prestes, a ser construído no Sul do país. É, a meu ver, obra tão especial que vale a pena explicá-la um pouco.

Um trabalho que não se baseou, como de costume, num programa construtivo, mas na ideia de criar um elemento principal e único: uma parede que, cheia de curvas e retas inesperadas, atravessando em diagonal um retângulo de vidro do edifício (de lado a lado), possa lembrar aos visitantes as etapas fundamentais da vida desse grande brasileiro. A fachada simples e retilínea de vidro do edifício marcaria, com a parede interna tão movimentada, o contraste que a boa arquitetura procura muitas vezes exibir.

Junto da entrada, a parede com textos e imagens começa a mostrar aos visitantes os inícios da vida de Prestes, quando, oficial do Exército, era incumbido de acompanhar obras em construção no Rio Grande do Sul – aí surge, já com 26 anos, severo como sempre foi, Prestes a reclamar da maneira pouco correta com que os trabalhos estavam sendo desenvolvidos.

Não recebendo resposta às denúncias que fazia, foi pouco a pouco sentindo que uma solução burocrática a nada conduzia, mas que os problemas do país tinham de ser resolvidos por meio de uma revolução. E a Coluna Prestes apareceu naturalmente como a única maneira de enfrentar as questões políticas e sociais existentes.

Passo a passo, os visitantes vão tomando conhecimento dessa marcha extraordinária, da coragem desse grupo de patriotas a resistir por tanto tempo às forças repressivas. Logo em seguida, Prestes é obrigado a se exilar na Bolívia e, depois, na Argentina, seguindo mais tarde para a União Soviética, quando,  já sintonizado com o pensamento de Marx, dá à revolução um sentido mais amplo e universal.
A parede vai se escurecendo e, num ambiente mais fechado e sombrio, aparece o período da prisão, em que ele permanece nove anos incomunicável. E, como para agravar tanta tristeza, em 1936, sua mulher, Olga Benário, presa e grávida, é enviada criminosamente a um campo de concentração na Alemanha, onde seria morta numa câmara de gás em 1942; sua filha, Anita, após grande campanha internacional desencadeada pela mãe de Prestes, é afinal entregue à avó.
Quanta maldade! Impressionados com tanta violência, os visitantes param consternados; é a luta política com seus momentos de glória e horror. A guerra acabara. Vitoriosos, os soviéticos entram em Berlim. Um clima de otimismo se espalha. No Brasil, Prestes é anistiado, e o Partido Comunista Brasileiro conquista a legalidade. É a época dos grandes comícios, da campanha pela Constituinte.
A parede vermelha, que, de acordo com os acontecimentos, vai mudando de cor, escurece outra vez. Diante dela, comovidos, os visitantes constatam que o momento de euforia passara. Em 1947, o TSE cancela o registro do PCB e, a seguir, cassa os mandatos dos parlamentares comunistas – entre eles, Prestes. Era a reação anticomunista que recomeçava, implacável.

Prestes passa a atuar na clandestinidade. Com o golpe militar de 1964, seus direitos políticos são cassados. A história caminha para o fim. Atentos, os visitantes seguem o relato emocionante. Começa um novo exílio, que se estende até 1979; de volta, apoia as Diretas-Já, solidarizando-se com a candidatura de Tancredo Neves. O tempo passa e, altivo e corajoso como sempre, vem a morrer em 1990; postumamente, Prestes é anistiado pelo Exército e promovido a coronel.

Como arquiteto, vejo, satisfeito, que meu projeto vai contribuir para manter viva a memória de Luiz Carlos Prestes, um brasileiro que lutou em favor de seu povo, contra a miséria e a desigualdade social que, infelizmente, ainda persistem em nosso país. Reli este texto e sinto que não basta louvar o passado.

O importante é continuar essa luta por um mundo melhor que o império de Bush procura em vão obstruir.

In: Folha de S. Paulo,  11 de janeiro de 2008, p. 3.

*****

Memorial em homenagem a três trabalhadores da CSN de Volta Redonda, RJ, assassinados em 9 de novembro de 1988 por tropas federais ordenadas pelo governo de José Sarney (1985-1990)

*****

Niemeyer: poeta do futuro (im)possível

Alexandre Benoit

 Introdução

 No ano de 1959, Mário Pedrosa redige a ata de um congresso de críticos cujo tema era a cidade de Brasília e que contava com a participação de artistas, arquitetos e intelectuais de várias partes do mundo. Nessa ata Pedrosa registra o impacto que aquela recém-criada cidade – obra de Lucio Costa e Oscar Niemeyer – representou no pensamento e na cultura ocidental naqueles anos de 1958-60. Como escreve Pedrosa, ao comentar as palavras de outro crítico, Bruno Zevi, Brasília seria “fruto dos mais audaciosos da cultural ocidental” sendo que “seu fracasso seria em parte um fracasso dessa cultura”.

Naqueles anos, outros intelectuais seguiriam o caminho de Zevi ao inscrever a construção de Brasília nas páginas da história do Ocidente, deixando para trás as interpretações recorrentes que explicavam Brasília a partir do projeto político de JK, ou como mero feito da cultura brasileira. O escritor francês André Malraux diria que “o elemento arquitetural mais importante desde as colunas gregas são as colunas do Palácio da Alvorada”. E se Zevi já falava no possível fracasso de Brasília como o fracasso da civilização Ocidental, Malraux depositava naquela cidade a redenção do Ocidente, nomeando-a Capital da esperança em seu Antimemórias. O próprio arquiteto, Oscar Niemeyer, mais de uma vez, explicaria seus palácios através do palácio dos Doges, em Veneza, construído 500 anos antes, demonstrando como sua arquitetura ultrapassa as fronteiras do Brasil.

Porém, a vasta extensão da obra de Niemeyer pós-Brasília, que lhe renderia aceitação e reconhecimento mundiais, produziu entre os críticos e, sobretudo, entre os críticos de inspiração marxista, certa desconfiança sobre o significado político e cultural daquelas formas. Neste momento em que é celebrado o centenário de Oscar Niemeyer é oportuno refazer os questionamentos sobre sua obra e perguntar: fundamentalmente, qual sua significação para além do espetáculo visual? Qual o sentido daquelas formas e espaços se pensados a partir de Marx?

De imediato, responderiam alguns críticos que, segundo uma análise marxista, Brasília e os edifícios monumentais de Oscar Niemeyer são um fiel retrato do Brasil, país que se modernizou “pelo alto”, cujas “idéias fora do lugar” (conforme, R. Schwarz) conduziram ao sonho falido do país “fadado ao moderno”. Ou então, diriam outros, como Sérgio Ferro, supostamente a desvelar o fundo falso das formas de Niemeyer, que os canteiros de Brasília revelam as marcas essenciais da irracionalidade técnica; irracionalidade que interessa ao capital e que dilacera o trabalho dos operários. Há também aqueles que denunciam esta arquitetura como aquela dos altos custos, distante dos problemas sociais, das favelas, do país “subdesenvolvido” que requer soluções mais “realistas”. Seja como for, para maioria dos críticos de uma esquerda de inspiração marxista, a arquitetura de Niemeyer – e Brasília, como sua obra máxima – expressa uma bela imagem, cuja significação está afundada em contradições.

 A técnica moderna: fundamento de Niemeyer

Deixemos em suspenso, por um momento, estas críticas. Por enquanto, vamos nos deterem analisar Niemeyera partir de um elemento fundamental de seu discurso: a técnica moderna. Sobre essa questão, o engenheiro José Carlos Süssekind, calculista de Niemeyer, lembra a Catedral de Brasília: quem será capaz, ao contemplar a Catedral de Brasília, de separar o que é arquitetura do que é estrutura? E, em tantos outros exemplos, Niemeyer demonstrou como se preocupa com a técnica moderna através dos grandes vãos, os enormes balanços e as lajes finíssimas.

Mas se a Catedral de Brasília, como observa Süssekind, é uma obra em que a beleza se revela a partir da estrutura, para Niemeyer esse problema já aparece muito antes de Brasília, como no Conjunto da Pampulha, marco inicial de sua trajetória. Esse discurso arquitetônico sobre a técnica não é, entretanto, uma criação de Niemeyer. Em grande parte, a aproximação entre a técnica moderna e a arquitetura aparece nos manifestos das vanguardas artísticas do séc. XX. Sendo que no interior das vanguardas, no campo da arquitetura, o arquiteto franco-suíço Le Corbusier, mestre de Niemeyer, foi um dos precursores. continua

*****

Entrevista ao jornalista Geneton Moraes

Se acreditasse em todos os elogios que colecionou ao longo da vida, o arquiteto Oscar Niemeyer poderia pendurar uma placa na porta do escritório: “Silêncio! Gênio trabalhando”. Mas, não. “Doutor Oscar” devota uma olímpica indiferença às glórias terrenas. Já perdeu a conta de quantos monumentos, palácios e edifícios projetou no Brasil e no exterior. São pelo menos 150 em quinze países, sem contar o Brasil. Vem estudando astronomia com amigos, numa prova de que a curiosidade intelectual não depende de idade. A bibliografia de e sobre Oscar Niemeyer não para de ganhar acréscimos. Nesta entrevista, o homem que passou a vida se declarando ateu faz uma confissão: gostaria de acreditar em Deus. Em matéria de política, não se incomoda em ficar na contramão da história. O comunismo pode ter virado pó para quase todo mundo – menos, é claro, para Oscar Niemeyer.

Se o senhor fosse chamado a escrever um verbete sobre Oscar Niemeyer numa enciclopédia, qual seria a primeira frase?

Niemeyer: “Diria que é um ser humano como outro qualquer – que nasceu, viveu e morreu. Sou um homem comum – que trabalhou como todos os outros. Passou a vida debruçado sobre uma prancheta. Interessou-se pelos mais pobres. Amou os amigos e a família. Nada de especial. Não tenho nada de extraordinário. É ridículo esse negócio de se dar importância.

Consegui manter, a respeito dos homens, uma posição que me tranquiliza muito: vejo os homens como uma casa, em que você pode consertar as janelas, acertar o aprumo das paredes, pintar. Mas, se o projeto inicial foi ruim, fica prejudicado. Aceito as pessoas como elas são. Todo mundo tem um lado bom e um lado ruim. O homem nasce numa loteria: é bom, é ruim, é inteligente ou não. “Se a gente aceita este fato como uma condição inevitável, a gente tem de ser mais paciente com as pessoas, aceitá-las como elas são”.

Gilberto Freyre disse numa entrevista que o senhor era um arquiteto genial, mas era muito ignorante, porque passou a vida repetindo chavões marxistas. Críticos assim incomodam o senhor?

Niemeyer: “Não. Eu li Casa Grande & Senzala e gostei. É um livro muito bem escrito. Gilberto Freyre era um grande escritor…”

Mas como é que o senhor recebia essas críticas?

Niemeyer: “Cada um pensa o quer. Nunca conversei com ele. Eu me lembro de ter me encontrado uma vez – corrida – em Pernambuco”.

O senhor transmite uma visão pessimista da vida – um certo enfado diante das coisas. Como é que se justifica tanto pessimismo num homem tão bem sucedido ?

Niemeyer: “Sou pessimista diante da idéia de que o homem ,quando nasce, já começa a morrer, como notou Jean Paul Sartre. Mas, na vida, caminhamos rindo e chorando o tempo todo : é preciso, então, aproveitar o lado bom da vida, usufruir o melhor possível e aceitar os outros como eles são. Sempre digo : o importante é o homem sentir como é insignificante, é o homem olhar para o céu e ver como somos pequeninos. Ultimamente, no entanto ,tenho me espantado como a inteligência do homem é fantástica ! Tenho conversado sobre astronomia. Como é imprevisível o que ele pode criar ! .

Numa dessas conversas que tenho tido com um amigo sobre o cosmo, ele me explicou que o homem é filho das estrelas. A matéria é a mesma! Então, é mais emocionante ser filho das estrelas do que ser filho da terra. Eu sempre dizia que a vida não teria sentido, o homem é filho da terra, como os outros bichos, os outros animais. Mas acho que o futuro será melhor.

Os mais inteligentes se queixam do mundo. O mundo tem prazeres e alegrias, mas a razão de a gente estar aqui é precária. Em todo caso, ninguém quer abandonar o espetáculo.

Entre os homens, a maioria é formada pelos que lutam, os que estão sofrendo, os que são humilhados. O drama do ser humano é ver o homem nascer e morrer. Ninguém quer nem pensar sobre este assunto. Os mais ricos estão se divertindo. Não querem pensar em nada: só querem usufruir as boas coisas da vida. Os outros nem têm nem tempo para conseguir viver um pouco”. continua

*****

Depoimentos e vídeos

Fidel & Niemeyer acesso
Sobre o significado da obra acesso
“A vida é um sopro” (documentário) acesso
As aventuras  de um sonhador acesso
Um comunista faz cem anos acesso

*****

Notas de entidades, intelectuais e movimentos sociais

* Nota do Comitê Central do PCB:

Oscar Niemeyer: uma legenda comunista para a história.

O mundo das artes e a cultura do trabalho perderam o legendário arquiteto e comunista Oscar Niemeyer. Figura da maior grandeza, que marcou o século XX com a sua arte e ciência, mas também com as ideias pelas quais lutava com convicção.

O arquiteto comunista, com seus traços, colocou o Brasil na modernidade do mundo. Sua obra marcou a arquitetura na Europa, na África, na Ásia, no Líbano e na América. Sua genialidade se espalhou pelo Brasil em obras que refletiam as curvas, a luz e a suavidade da liberdade no traço do concreto que era erguido pelos trabalhadores, em prol dos quais lutou por toda uma vida. Ao projetar Brasília, Niemeyer afirmava que não bastava criar uma cidade, era preciso mudar o sistema que apartava os trabalhadores de sua obra.

Mas o homem, militante comunista, tinha a estatura de sua obra. Entrou para o nosso Partido em 1945, lutou contra a repressão da ditadura militar, sendo desterrado para a França. Lá militou no Partido dos fuzilados, dos que heroicamente resistiram ao nazismo, o histórico Partido Comunista Francês, sendo o construtor da sede daqueles comunistas.

Sempre esteve ao lado do progresso da humanidade. Apoiou a revolução bolchevique e o Estado operário na URSS, sempre esteve ao lado de Cuba socialista, e quando a revolução democrática e socialista venceu a opressão na Argélia, para lá foi o militante comunista brasileiro, construir universidades e prédios para atender aos interesses dos trabalhadores.

Niemeyer esteve ao lado de gigantes do século XX: foi amigo dos comunistas Fidel Castro, Pablo Neruda, Luiz Carlos Prestes, Jorge Amado, Jean-Paul Sartre e José Saramago. Apoiou todas as lutas dos trabalhadores em seu tempo, militante sempre solidário, altivo e disposto a lutar pelo socialismo.

Quando o nosso Partido foi atacado pelo liquidacionismo, no IX congresso em 1991, lá estava ele, no plenário do auditório da UERJ para dizer: “Enquanto houver miséria e opressão, ser comunista é a nossa decisão”.

Após a ruptura com os liquidacionistas, que viraram as costas para a história, em 1992, Oscar Niemeyer foi eleito o presidente de honra do PCB.

Sua luta, sua história, seu compromisso com o marxismo e o socialismo, assim como a sua arte e ciência marcaram indelevelmente a memória do tempo presente.

Camarada Oscar Niemeyer, presente!

* Portal Vermelho do PCdoB:

Niemeyer deu nova dimensão à cultura nacional

José Reinaldo

Para ele, a vida era um sopro, considerava-se um homem comum e dizia que não representava grande coisa ter ultrapassado a idade de cem anos. O mais importante, afirmava, é a solidariedade.

No entanto, o Brasil, as nações do mundo, os movimentos sociais, os partidos de esquerda, o Partido Comunista inclinam suas bandeiras no falecimento de um dos maiores gênios da cultura brasileira, personalidade de envergadura singular e gigantesca do Brasil contemporâneo, cujo nome e obra são perenes, eternizando os melhores traços da civilização brasileira, o pensamento humanista revolucionário, a atitude generosa perante o semelhante e a vida, a ação militante na luta por uma sociedade sem a exploração do homem pelo homem, sem opressão de classe, sem guerras imperialistas de rapina – a sociedade socialista.

Niemeyer deu exemplos edificantes de dignidade. Dois dias antes da sua morte, pedia para sair do hospital, pois tinha muitos trabalhos e projetos a executar. Nunca visou a benefícios pessoais, sempre teve em mente as grandes causas sociais e a solidariedade com o ser humano.
Homem de convicções arraigadas, desde 1945, quando ingressou no Partido Comunista, até o último suspiro, foi comunista e fazia questão de proclamar seu engajamento pela causa da emancipação dos trabalhadores e de toda a humanidade.

A evolução da sua obra arquitetônica caminhou a par com a modernização do Brasil. Inspirado no impulso das forças produtivas nacionais a partir dos anos 1950 e na exuberância da natureza do País, foi parte constitutiva fundamental deste processo, do que são exemplos o conjunto arquitetônico da Pampulha, em Belo Horizonte; o Edifício Copan, em São Paulo; os Centros Integrados de Educação Pública (Cieps); a Passarela do Samba, no Rio de Janeiro; o Memorial da América Latina e o Parque do Ibirapuera, em São Paulo; o Caminho Niemeyer, em Niterói; o Museu de Arte Contemporânea de Niterói (RJ), o Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba e sobretudo a majestosa Brasília, a nova capital do Brasil.
A obra arquitetônica de Oscar Niemeyer, sendo profundamente inspirada na cultura brasileira, tornou-se universal. O gênio brasileiro deixou a marca do seu talento modificando a paisagem urbana de muita cidades mundo afora, destacando-se, entre outros, o edifício-sede da Organização das Nações Unidas, a Universidade de Constantine e a Mesquita de Argel, na Argélia; a Feira Internacional e Permanente do Líbano; o Centro Cultural de Le Havre-Le Volcan, na França; a sede do Partido Comunista Francês.
Niemeyer viveu intensamente a evolução da vida política nacional. Ligou o seu trabalho às causas democráticas e patrióticas do povo brasileiro, na luta pela redemocratização do País no imediato pós-guerra, no esforço pelo desenvolvimento nacional entre 1955 e 1964, no combate à ditadura militar, na edificação da nova democracia, e nos tempos atuais apoiando com entusiasmo o novo ciclo político aberto no País a partir da eleição de Lula em 2002.

Niemeyer deu nova dimensão à cultura nacional e deixou um vivificante exemplo de luta.

* Rede internacional das redes de intelectuais e artistas em defesa da humanidade

Por toda a nossa vida sempre, Presente!

Nós, intelectuais e artistas em defesa da humanidade buscamos mil formas de dizer até. Descobrimos em Saramago uma mensagem linda no seu centenário. Decidimos navegar por ela porque navegar é preciso, viver não é preciso.

¨Creio que não se tem reparado numa das maiores diferenças existentes entre o português e outras línguas neolatinas. Um espanhol, um italiano ou um francês, no dia do seu aniversário, dirão, com uma expressão algo insegura: “Hoje cumpro xis anos”. Como se não tivessem bem a certeza de os haver cumprido de acordo com as regras e as disciplinas estabelecidas pelos diversos mentores sociais. Nós, portugueses, nós, brasileiros (acabo de comprová-lo no Aurélio) não cumprimos anos, fazemo-los. Já se pensou no bonito que é mexer no tempo, empurrá-lo, estendê-lo, empurrá-lo, e a isto chamo eu vida, e de repente começar a receber e-mails, cartas, chamadas telefónicas de parentes e amigos que nos dizem: “Parabéns, mais um ano”. E nós respondemos: “Bom trabalho me deu, mas aí está, feito”. Aí estão agora estes cem, feitos por Oscar Niemeyer, amassados de todas as esperanças e razões do mundo, entregues nas mãos do futuro, com estas palavras de promessa: “Aqui estive, aqui estou, aqui me encontrarão sempre”. Querido Oscar, até ao próximo ano.¨

Com estas palavras Saramago festejou o amigo de tantas primaveras.

Oscar, essência do viver, pleno de sonhos, dissipando ternura, doando-se, criando, mudando num esforço secular todas as formas de tornar o mundo mais lindo e melhor, embora costumasse dizer que a vida é mais choro que riso.
Hoje, nesta noite de dezembro estamos chorando com todos os sentidos em todas as latitudes. Como prognosticava – a vida é um sopro. E, num sopro, você partiu. Uma tristeza imensa invadiu nossos corações.

Querido amigo, mensagens de amor chegam de todos os cantos do mundo, o samba pede licença para cantá-lo, os pássaros brincam num vai-vem delineando curvas entre as montanhas que brincaram no seu pedacinho de carvão de onde saíram milhares e milhares de desenhos, de concreto retorcido, transformando tudo como se todos fossem tomar o céu de assalto. Você demonstrou que tudo pode ser mudado, moldado, que sim o mundo pode ser melhor e mais bonito.

Não vamos secar as lágrimas, não vamos deixar de dizer seu nome, nem mesmo de rir de suas brincadeiras, nem de amar desenfreadamente a vida – vamos parafrasear Saramago e repetir sempre: “Aqui estive, aqui estou, aqui me encontrarão sempre”.

Rede internacional das redes de intelectuais e artistas em defesa da humanidade
Rio, de Janeiro 05 de dezembro de 2012

******

Nota da Direção Nacional do MST

Niemeyer foi um sábio, solidário e comunista!  O povo brasileiro e a humanidade perderam um de seus melhores amigos que viveu ao longo do seculo 20.
Niemeyer foi mais do que um arquiteto, foi um amante da vida e um incansável defensor da igualdade entre todos os seres humanos.
Era comunista, não por doutrina. Mas porque acreditava que todos os seres humanos são iguais e que deveríamos ter as mesmas condições de vida.

Por isso, foi acima de tudo um companheiro de todos nós!  Desprezava os bens materiais que a classe dominante brasileira tanto idolatra e explora a milhões, para acumular cada vez mais… Defendia e praticava os valores humanistas e, sobretudo, o da solidariedade, contra qualquer injustiça.
O MST tem um imenso orgulho de ter sido seu amigo, companheiro e ter recebido seu apoio.  Teremos nele, sempre, um exemplo de vida.
Grande Oscar, seguiremos te encontrando por aí… nas suas obras e lembranças!

 

Publicado em Sem categoria | Tags | Comentários Desligados

Florestan Fernandes: marxismo e revolução

A trajetória intelectual e política de Florestan Fernandes é objeto desta página de marxismo21. Dela constam textos do cientista social,  artigos de pesquisadores que examinam aspectos de sua vasta obra,  dissertações e teses acadêmicas, entrevistas, vídeos e outros documentos. Publicamos abaixo um breve texto de Paulo Martinez, especialmente elaborado para o blog; nele, o historiador reflete sobre questões e desafios teóricos para se compreender a originalidade e a especificidade do pensamento político de Florestan Fernandes. Por sua vez,  um dos editores, Caio N. de Toledo, examina um dos maiores desafios do trabalho intelectual de Florestan: a relação entre a obra teórica e a militância política na direção do socialismo revolucionário.  Acreditamos que a significativa foto acima – na intimidade de sua oficina de trabalho -  contribui para questionar as interpretações da obra de Florestan Fernandes que buscam dissociar a produção teórica de seu compromisso político; para estes hermeneutas, a obra seria rigorosa e científica, enquanto o engajamento estaria comprometido pela idealização utópica ou cativo das armadilhas da ideologia. Os Editores.

*****

Democracia e socialismo

Florestan Fernandes

 A controvérsia suscitada pela Revolução Russa ainda não chegou ao fim, e ate hoje existem os que temem a supressão da democracia em troca da igualdade social. Ora, igualdade sem liberdade não corresponde ao ideário e à utopia do socialismo, tão bem encamados por Rosa Luxemburgo e Antonio Gramsci. Ao contrario de pensadores social-democratas ou marxistas, ambos compreenderam, como mais tarde o fariam Bobbio, Colletti e Gorz, que as condições de atraso econômico, cultural e político da Rússia pré-revolucionaria acarretavam consequências que impediam a conversão da ditadura do proletariado em uma forma mais avançada e completa de democracia. Tumultuosa e contraditória, ela teria de nascer da emergência do auto governo coletivo da maioria.

Desvendada resumidamente por Marx nos escritos de 1840, essa forma de democracia foi examinada com extrema objetividade e crueza na Crítica ao Programa de Gotha. Havia, no entanto, confiança no futuro e a certeza de que a revolução se desencadearia na Europa, irradiando-se em seguida para sua periferia e países coloniais, o que acabou se mostrando inviável.

Tanto Rosa quanta Gramsci julgavam que a estatização e a socialização dos meios de produção conduziriam aos ideais democráticos e igualitários do socialismo e do comunismo. Sua crítica é positiva: acreditavam nos sovietes – ou conselhos – e promoviam a exaltação de sua autonomia contra os desvios burocráticos, registrados por Lenin e, posteriormente, denunciados com veemência por Trotsky.

É interessante voltar a Rosa Luxemburgo, dolorosamente lúcida no ataque ao “revisionismo” e no diagnóstico da social-democracia. Sem o sarcasmo e a virulência de Lenin, ela se limita a desvendar as misérias do partido, no momento em que a liderança política e a burocracia aliavam-se contra a revolução, atraiçoando o socialismo,  fortalecendo as classes dominantes e conferindo legitimidade ao Estado capitalista. O Partido Social Democrático (SDP) mantinha a reverência por seus símbolos, bandeiras e valores marxistas. Simples fachada… Como letras mortas ou um poema sem encantos, o marxismo, o lassalleanismo e, mesmo, o bernsteinismo ficaram para trás. Esse processo de degradação aburguesada do socialismo e dos seus fundamentos teóricos e políticos não era localizado. Grassava por toda a Europa e repudiava sua corrente revolucionaria como pura verborragia. As dificuldades e a adulteração do marxismo, por causa do isolamento e das conseqüências imprevistas da Revolução Russa, conferiam uma aparência de verdade as versões da “democracia acima de tudo” emanadas do farisaísmo pequeno-burguês e intelectualista. Se, de fato, a democracia estivesse em jogo, ela jamais poderia ser dissociada do socialismo. Em relações compassivas e comprometedoras com a ordem existente, ser cruzado da democracia equivalia a abandonar o socialismo e atribuir ao capitalismo a faculdade de assegurar liberdade, igualdade e solidariedade juntamente com a perpetuação da propriedade privada, a expropriação do trabalhador dos meios de produção e a intangibilidade da sociedade civil. Tratava-se do avesso do que fora a social-democracia anteriormente, em especial ate o Kautsky revolucionário (do final do século XIX ate cerca de 1910).

Dois movimentos históricos simultâneos reforçaram, ampliaram e aprofundaram a tendência apontada. De um lado, a União Soviética necessitava de um “respiro histórico” para sobreviver através da coexistência pacifica, alternada com eclosões ocasionais de hostilidade programada com as nações capitalistas. As “frentes populares” puseram em primeiro plano a democracia como valor final. Deixaram a parte, porem, o questionamento fundamental: que tipo de democracia? A capitalista, que institucionaliza a classe como meio social de dominação e fonte de poder, ou a socialista, que deve tomar como alvo a eliminação das classes e o desenvolvimento da autogestão coletiva, passando por um período de dominação da maioria, tão curto quanta possível? De outro lado, a expansão do capitalismo – com um prolongado espaço de tempo de prosperidade, dissuasão policial-militar das divergências dos que poderiam ser representados como “inimigos” internos e externos, coalescência de um sistema mundial de poder e alternância de promessa e repressão – forjava novas condições de aburguesamento dos assalariados qualificados, dos intelectuais e da “solução negociada” dos conflitos por emprego, níveis de salários, padrões de vida ou oportunidades educacionais.

Pela própria impulsão das transformações democráticas da civilização, a “reforma capitalista do capitalismo” brotava como alternativa ao socialismo e como “via de transição gradual” ate ele. Willy Brandt personifica essa objetivação da liquidação da social-democracia como partido socialista stricto sensu. A presença norte-americana e aliada na Alemanha justificaria a evolução. Contudo, poderia, por si só, servir como ingrediente revolucionário, se o socialismo proletário marxista se tivesse mantido vivo no SDP. E o resto da Europa? Ali o processo ocorreu generalizadamente, o que implicava uma opção contra o socialismo revolucionário, em favor do aburguesamento. Essas considerações nascem de uma convicção: enfrentamos o perigo de ver abater-se sobre nós o restabelecimento da confusão entre democracia e socialismo. ler mais

*****

Florestan Fernandes: a vitalidade de um pensamento político

Paulo Henrique Martinez*

O pensamento político do sociólogo Florestan Fernandes guarda muitas possibilidades de reflexão e de desdobramentos investigativos. Conhecemos, hoje, inúmeros livros que estudam o conjunto de sua obra, esmiuçando aspectos e temáticas ali abordados – educação, metodologia, o negro, entre outros. Há também vários escritos sobre a sua trajetória biográfica e intelectual. São demonstrações da vitalidade desta reflexão sobre a sociedade brasileira construída na segunda metade do século XX.

Os olhos analíticos de Florestan Fernandes miram a realidade social passada e presente em duplo movimento de perspectivas. Uma habilidade camaleônica de observação, capaz de deter-se fixamente em um foco determinado, e de mobilidade do olhar que apreende múltiplas determinações na realidade interrogada. Florestan Fernandes denominou com precisão este procedimento analítico: histórico-sociológico.

Esta duplicidade na captação de sentidos sociais opera outra, a de perspectivas. Uma é cultural, imersa no ambiente dinâmico e criativo dos tempos de nacionalismo e das agruras do desenvolvimento econômico em nosso país. A outra é política e desponta das contradições sociais e dos antagonismos de classes que povoaram e deram densidade histórica à vida nacional até o triunfo ideológico do neoliberalismo entre nós, na década de 1990. Estas duplicidades operacionais de percepção comparecem em ações institucionais e políticas, pelo exercício da análise crítica e rigorosa, na universidade, e, a partir da ditadura militar, na avaliação do momento político veiculada na imprensa e alardeada em debates com diversificados movimentos sociais.

A bibliografia disponível sobre Florestan Fernandes elucida vários destes aspectos com maior ou menor riqueza de informações, registros e comparações. Ela nos alimenta com juízos críticos e aprofundados e permite a compreensão diacrônica e sincrônica de sua reflexão sociológica e histórica. Os esforços têm sido, predominantemente, compreensivos e explicativos dos contextos e das formulações intelectuais em dada obra ou conjunto delas, pesquisas ou momentos biográficos e de ação institucional.

O conhecimento histórico da organização da sociedade brasileira sugere a leitura da obra de Florestan Fernandes seguindo a via de seus estudos que assumiu vigor interpretativo e marcos teóricos precisamente demarcados sobre os dilemas da dominação de classes no Brasil. Esta organização de estudos conta com duas sugestivas iniciativas editoriais. A primeira é a reunião de quatro textos no volume publicado nos Estados Unidos, em 1981, sob os cuidados do historiador norte-americano Warren Dean, intitulado Reflections on the brazilian counter-revolution: essays (New York: M. E. Sharpe). A segunda é de 2008, com a publicação, em espanhol, da coletânea de textos organizada pela professora Heloísa Rodrigues Fernandes, Dominación y desigualdad: el dilema latinoamericano (Buenos Aires: Prometeo/CLACSO).

Os dois volumes em edição estrangeira foram compostos com textos publicados no Brasil, são conhecidos e não há ineditismo. A originalidade e o significado residem na reunião de escritos voltados para questões específicas e que respondem pela unidade temática destes dois livros: a contra-revolução, a dominação e a desigualdade social. Não temos, ainda, estas e semelhantes coletâneas com segmentação analítica específica, editadas aqui, particularmente sobre o pensamento político de Florestan Fernandes e suas análises sobre dos referidos dilemas da dominação social no Brasil.

As duas coletâneas são instigantes e instrutivas para o estudo deste pensamento político. Ambas revelam em Florestan um arguto analista dos processos de dominação e de contra-revolução. Este analista, e também aprendemos isso lendo os textos selecionados por Warren Dean e Heloisa Fernandes, é maior e prevalece sobre qualquer indício de um estrategista da ação política. Este componente não deriva da escolha dos textos. É, antes, consciente e deliberado no próprio autor dos escritos ali reunidos. O fato pode parecer contraditório a alguém que, como Florestan Fernandes, não escondia sua admiração intelectual e política por Marx, Engels e, sobretudo, Lênin.

Esta renúncia a qualquer ambição de direção teórica e política, por um lado, causou frustração a inúmeros militantes que, no PT ou fora dele, engajaram-se nas duas campanhas eleitorais para deputado federal que o sociólogo paulista disputou – e foi eleito em ambas – em 1986 e 1990. A reivindicação de um papel intelectual consistentemente definido em ação e reflexão, por outro lado, foi sustentada mesmo em momentos politicamente adversos, como a “Nova República”, a queda do muro de Berlim, o governo Collor e a segunda derrota eleitoral de Lula, em 1994. O lema adotado em sua campanha para a Assembleia Constituinte expressou com nitidez este papel: “contra as idéias da força, a força das idéias”. Alguns títulos dos livros que publicou durante estes anos reafirmavam este sentido e o compromisso da ação política do intelectual engajado nas disputas sob a orientação socialista, como sugerem Pensamento e ação: o PT e os rumos do socialismo (1989) e A contestação necessária (1995).

Pode-se argumentar que Florestan Fernandes jamais migrou da universidade para a política, da reflexão para a ação política. Ou ainda dizer que houve uma rotação de perspectivas, de uma em direção à outra. Este raciocínio implica desconsiderar o papel político do intelectual que ele elaborou e assumiu para si, a partir da ditadura militar e depois dela. A reflexão contestadora foi alçada ao rol de tarefas políticas que incluíam a criação e a ampliação de espaços políticos para as classes trabalhadoras, a massa dos excluídos, dos marginalizados e a busca do caminho do poder.

A imersão de Florestan Fernandes na reflexão política resultava, de uma parte, da repressão do governo militar e, por outra, do próprio alcance das atividades dos intelectuais na política de índole reformista ou revolucionária. Para além dela, a reflexão, as demais tarefas políticas demandavam a  dinâmica social e da luta de classes no Brasil, e colocava como inatingíveis ou inócuas opções teóricas fixas e obsessivas, diante do imponderável daquelas mesmas disputas e conflitos. Em segundo lugar, as oportunidades históricas para a transformação social podem ser perdidas e desperdiçadas nos confrontos políticos, tanto quanto podem ser construídas coletivamente nesta sociedade em contínuo processo de revolução democrática.

Nos escritos reunidos nas referidas coletâneas ressaltam as amarguras diante das evidências de que vivemos, no Brasil, um conflito político caracterizado como uma “contrarrevolução permanente”. Esta peculiaridade social poderia ser examinada em outras escalas, como a dos demais países da periferia do capitalismo, partindo dos textos em que Florestan Fernandes tratou da América Latina, por exemplo. O estudo da experiência histórico-social da revolução cubana é uma pista para desdobrar a sua reflexão política. Ele é indicativo também do vínculo político e ideológico que os intelectuais poderiam assumir na revolução contra a ordem e na construção do socialismo em nações de capitalismo periférico. A “contrarrevolução permanente”, por sua vez, estaria sujeita às variações históricas e sociais, contraditórias e inerentes ao próprio desenvolvimento capitalista, lançando-a, sistematicamente, no desafio de promover a própria reciclagem e atualização. Em seu embate para conter a revolução democrática, a contrarrevolução desafia, sistematicamente, a imaginação política e a criatividade intelectual sob os prismas do materialismo histórico no Brasil.

O pensamento político de Florestan Fernandes revela vitalidade teórica e prática bastante rica e insuficientemente examinada e difundida.  Os estudiosos do marxismo no século XXI estão diante de volumosa carga de trabalho interpretativo e investigativo nas ciências sociais e na história do pensamento político. Esta situação poderia ser enfrentada, inicialmente, com uma seleção de seus textos que tratem da revolução democrática no Brasil, o que podem nos dizer sobre o país de hoje e de perspectivas de futuras transformações. Em outra direção estaria o exame das experiências históricas em que a dominação de classe recorreu abertamente à contrarevolução preventiva, como a ditadura de Franco (1939-1975), na Espanha, e o regime do apartheid (1948-1994), na África do Sul. Os resultados imediatos viriam nas possibilidades de análises comparativas e na avaliação dos marcos teóricos e interpretativos.

* Professor do Departamento de História da Faculdade de Ciências e Letras de Assis, UNESP.

*****
Sociologia & socialismo na obra de Florestan Fernandes *

Caio N. de Toledo

O compromisso intelectual

 Na obra de Florestan Fernandes a questão do socialismo não se constituía um assunto entre outros. Não era também um objeto de discussão abordado de forma teórica ou abstrata como imporia a pesquisa de outras problemáticas de natureza sociológica ou histórica; particularmente nas duas últimas décadas de sua produção intelectual, o socialismo era uma questão vital e prioritária. Mais do que isso, para ele, o socialismo era uma questão existencial na qual ele se engajou de corpo e alma.

Não obstante este forte compromisso ideológico com o socialismo, Florestan Fernandes – ao avaliar o conjunto de sua obra e trajetória pessoal – reconhecia que foi ele, sempre e acima de tudo, um intelectual. Ou seja, como intelectual crítico nunca abdicou dos recursos próprios do trabalho científico: da teoria, da pesquisa e da fundamentação empíricas, dos recursos metodológicos e analíticos da lógica dialética.

Em sua produção intelectual, o combate pelo socialismo não se fazia apenas do ponto de vista ético-humanista na medida em que sua defesa estava fundada em uma rigorosa análise da sociedade de classes, das irreconciliáveis contradições da ordem capitalista e do Estado burguês no Brasil. Nos escritos do sociólogo, do publicista e do tribuno militante, a luta incondicional pelo socialismo esteve sempre, pois, apoiada na pesquisa empírica e na sólida argumentação teórica, jamais se confundindo com a propaganda ou com a retórica que, por vezes, estão presentes em panfletarismos de orientação esquerdista (na acepção crítica formulada em clássico texto de Lênin).

Por outro lado, Florestan nunca deixou de ironizar os chamados socialistas de cátedra ou os marxistas de gabinete que “não sabiam o que fazer” com seus conhecimentos sobre Marx e Engels. Seu juízo sobre estes colegas, no exterior e no Brasil, nunca foi complacente nem ameno: muitos intelectuais eram basicamente universitários e sua erudição se limitaria à carreira acadêmica, não à atividade revolucionária. Nesse sentido, assinalava que esses intelectuais frequentemente contribuíam para aburguesar o marxismo.

Ao contrário da maioria dos autores do chamado marxismo ocidental, Florestan Fernandes buscou sua inspiração no marxismo clássico: Marx, Engels, Lênin, Rosa Luxemburgo, Trostky – pensadores cujas obras refletiram as lutas sociais de seus tempos e buscaram oferecer, junto aos movimentos sociais, respostas radicais para a superação da ordem burguesa. Nas suas palavras, o socialismo científico ou o comunismo, formulados por tais autores, não brotaram apenas da crítica da filosofia, da economia e da história burguesas; a teoria socialista nasceu do confronto da crítica com o concreto, foi ela possível em virtude da existência das lutas efetivas do proletariado contra o capital, a sociedade de classes e o Estado burguês.

Levando em conta estes pressupostos e afirmações, a questão que se impõe ao analista é a seguinte: em que medida o cientista social – na esteira do marxismo clássico – conseguiu articular, de forma consistente e harmônica, o pensamento e a ação, a teoria e a política? Teria Florestan conseguido escapar às críticas tradicionais dirigidas ao intelectual acadêmico que privilegia a Ciência em detrimento do engajamento social e político ou, em outras palavras, que privilegia o trabalho teórico em detrimento da luta pela transformação radical da sociedade de classes? De forma mais precisa, como ele compatibilizaria a pesquisa sociológica rigorosa com a defesa da revolução socialista?

ler mais

* Texto originalmente publicado em Crítica e Sociedade. Revista de Cultura política, vol. 1, no. 1, 2011. Universidade Federal de Uberlândia. Artigo dedicado a Heloisa Fernandes cuja figura humana, convicções políticas e compromisso intelectual retomam os caminhos trilhados por seu afetuoso pai, Florestan Fernandes.

*****

Textos de Florestan Fernandes e de pesquisadores sobre aspectos de sua obra

Sobre o trabalho teórico, entrevista de Florestan Fernandes
acesso
 Ciências Sociais & intelectual militante, Florestan Fernandes
 acesso
Em busca do socialismo, Florestan Fernandes
acesso
PT em movimento, Florestan Fernandes
acesso
Sobre Caio Prado Júnior, Florestan Fernandes
acesso
A percepção da Assembléia Nacional Constituinte, Florestan Fernandes
acesso
F. Fernandes: a construção de uma problemática. Miriam Limoeiro-Cardoso
 
acesso
A Sociologia de Florestan Fernandes, Octavio Ianni
 
acesso
Florestan Fernandes e o radicalismo plebeu em Sociologia, Gabriel Cohn
 
acesso
FF: A revolução burguesa sob o olhar de um socialista revolucionário, Mário Maestri
 
 acesso
Ensaios sobre o pensamento educacional de FF, Marcos Oliveira
 
acesso
F. Fernandes e os dilemas intelectuais contemporâneos, Eliane Veras Soares
 
acesso
Marxismo e “imagem do Brasil em FF”, Carlos Nelson Coutinho
 
acesso
Intelectuais, vida acadêmica, marxismo e política no Brasil, Milton Lahuerta
 
acesso
Indivíduo e sociedade: Florestan Fernandes e Nobert Elias, Marcelo Rosa
 
acesso
Florestan Fernandes, o sociólogo militante, Vladimir Sachetta
 
acesso
A sociologia de Florestan Fernandes, Maria Arminda Arruda
acesso
A questão democrática em Florestan Fernandes, Silvana Tótora
 
acesso
FF e a crítica da economia política desenvolvimentista, Rodrigo Castelo
 
acesso
Pensar o capitalismo contemporâneo a partir da obra de FF, Thiago Mandarino
 
acesso
F. Fernandes, História e Histórias, entrevista a G. Cohn e outros
 
acesso
 Vida, formação, PT, intelectuais, marxismo: entrevista a Paulo Venceslau
 
acesso
Florestan Fernandes e os Sem Terra, Ademar Bogo
 
acesso
F. Fernandes: Elementos para um reflexão militante, Adelar Pizetta
 
acesso
As três casas de Florestan Fernandes, Heloisa Fernandes
acesso
As chaves do exílio e as portas da esperança, Heloisa Fernandes
 
acesso

Dissertações e teses acadêmicas *

A critica do capitalismo dependente, Plinio Sampaio Jr.
 acesso
Capitalismo dependente e (contra) revolução burguesa no Brasil, Carlos A. Paiva
 acesso
 Democracia brasileira no pensamento de F. Fernandes, Aristeu Portela Jr.
 acesso
Florestan Fernandes e Guerreiro Ramos : para além de um debate, T. Martins
acesso
Sociologia de F. Fernandes e a questão educacional, Debora Mazza
acesso
F. Fernandes : pedagogia nova e a centralidade da categoria Revolução, Gilcilene Barão
acesso
F. Fernandes e a questão da intelectualidade, Tatiana Martins
acesso

* O acesso às dissertações e teses defendidas na Unicamp  é possível após um rápido e simples cadastramento na página da biblioteca digital da Universidade. Feito isso, todos demais acessos serão automáticos.

Vídeos

Florestan Fernandes: programa RodaViva, TV Cultura, SP (1994)
acesso
F. Fernandes: “O mestre”, TV Câmara Federal
acesso
Depoimento: “Em defesa do marxismo”, 1991, Fac. de Direito USP
acesso
Palestra: “Capitalismo dependente e classes sociais no Brasil”, M. Limoeiro-Cardoso
acesso
Antonio Candido: homenagem a Florestan Fernandes
acesso

Sumário do Curriculum de Florestan Fernandes acesso
 
Publicado em Sem categoria | Tags , , , , , , | Comentários Desligados

Caio Prado Júnior: teoria e militância política

Dando sequência à série de matérias sobre os trabalhos de relevantes autores do pensamento marxista brasileiro, marxismo21 divulga agora a obra de Caio Prado Jr. Nesta página divulgamos o primeiro capítulo de A revolução brasileira, livro que, no final da década de 1960 e nos anos 1970, provocou intensos debates no interior das esquerdas brasileiras. Sofia Manzano, do comitê editorial, escreveu, especialmente para esta seção, um breve artigo sobre o significado teórico e político do livro; outro pesquisador, Luiz Bernardo Pericás, é autor de um texto bio-bibliográfico sobre CPJr.. A seguir, divulgamos documentos, artigos e trabalhos acadêmicos sobre aspectos da obra do historiador marxista brasileiro. Os Editores.

*****

A Revolução Brasileira

Caio Prado Jr.

O termo “revolução” encerra uma ambiguidade (aliás na verdade muitas, mas fiquemos aqui na principal) que tem dado margem a frequentes confusões.

No sentido em que é ordinariamente usado, “revolução” quer dizer o emprego da força e da violência para a derrubada de governo e tomada do poder por algum grupo, categoria social ou outra força qualquer na oposição. “Revolução” tem aí o sentido que mais apropriadamente caberia ao termo “insurreição”. Mas “revolução” tem também o significado de transformação do regime político-social que pode ser e em regra tem sido historicamente desencadeada ou estimulada por insurreições. Mas que necessariamente não o é. O significado próprio se concentra na transformação, e não no processo imediato através de que se realiza. A Revolução Francesa, por exemplo, foi desencadeada e em seguida acompanhada, sobretudo em seus primeiros tempos, de sucessivas ações violentas. Mas não foi isso, por certo, que constituiu o que propriamente se entende por “revohição francesa”. Não são, é claro, a tomada da Bastilha, as agitações camponesas de julho e agosto de 1789, a marcha do povo sobre Versalhes em outubro do mesmo ano, a queda da Monarquia e a execução de Luís XVI, o terror e outros incidentes da mesma ordem que constituem a Revolução Francesa, ou mesmo simplesmente que a caracterizam e lhe dão conteúdo.

“Revolução” em seu sentido real e profundo, significa o processo histórico assinalado por reformas e modificações econômicas, sociais e políticas sucessivas, que, concentradas em período histórico relativamente curto, vão dar em transformações estruturais da sociedade, e em especial das relações econômicas e do equilíbrio reciproco das diferentes classes e categorias sociais. O ritmo da História não é uniforme. Nele se alternam períodos ou fases de relativa estabilidade e aparente imobilidade, com momentos de ativação da vida político-social e bruscas mudanças em que se alteram profunda e aceleradamente as relações sociais. Ou mais precisamente, em que as instituições políticas, econômicas e sociais se remodelam a fim de melhor se ajustarem e melhor atenderem a necessidades generalizadas que antes não encontravam devida satisfação. São esses momentos históricos de brusca transição de uma situação econômica, social e política para outra, e as transformações que então se verificam, que constituem o que propriamente se há de entender por “revolução” .

É nesse sentido que o termo “revolução” é empregado no título do presente livro. O que se objetiva nele é essencialmente mostrar que o Brasil se encontra na atualidade em face ou na iminência de um daqueles momentos acima assinalados em que se impõem de pronto reformas e transformações capazes de reestruturarem a vida do país de maneira consentânea com suas necessidades mais gerais e profundas, e as aspirações da grande massa de sua população que, no estado atual, não são devidamente atendidas. Para muitos – mas assim mesmo, no conjunto do país, minoria insignificante, embora se faça mais ouvir porque detém nas suas mãos as alavancas do poder e a dominação. econômica, social e política – tudo vai, no fundamental, muito bem, faltando apenas (e aí se observam algumas divergências de segunda ordem) alguns retoques e aperfeiçoamentos das atuais instituições, às vezes não mais que simples mudança de homens nas posições políticas e administrativas, para que o país encontre uma situação e um equilíbrio satisfatórios. Para a grande maioria restante, contudo, e mesmo que ela não se dê sempre conta perfeita da realidade, incapaz que é de projetar em plano geral e de conjunto suas insatisfações, seus desejos e suas aspirações pessoais, o que se faz mister, para lhe dar condições satisfatórias e seguras de existência, é muito mais que aquilo. E sobretudo algo de mais profundo e que leve a vida do país por novo rumo.

E os fatos, adequadamente analisados e profundos, o confirmam. O Brasil se encontra num destes instantes decisivos da evolução das sociedades humanas em que se faz patente, e sobretudo sensível e suficientemente consciente a todos, o desajustamento de suas instituições básicas. (leia mais: acesso)

*****

Caio Prado Jr. e a construção da revolução brasileira

Sofia Manzano *

 Muitos jovens estudantes brasileiros, desde os anos 1970, estudam a história do país a partir das idéias formuladas por Caio Prado Jr. Principalmente após as reformas educacionais implementadas pela ditadura militar que visaram eliminar a crítica do processo educativo, uma das formas de construir um ensino minimamente crítico, encontrada pelos professores da área de humanas, era ensinar uma história que acertava contas com o passado, e essa história tem sua origem em Caio Prado Jr. Essas palavras expressas aqui por mim não são resultado de nenhuma pesquisa na área da educação, são apenas um testemunho da minha própria experiência, estudando nos anos 1980 nas escolas públicas do estado de São Paulo e em contato com professores de história e geografia que, apesar de não citarem Caio Prado Jr., estavam nos despertando para a compreensão do “sentido” histórico da nação, a partir do “sentido da colonização”.

Caio Prado Jr. foi, assim, ganhando um estatuto clássico na formação dos jovens brasileiros, muito além de sua aceitação na academia. Ali, as controvérsias sobre sua obra sempre foram grandes e as correntes predominantes nos estudos científicos tomaram muitos caminhos, diferentes daqueles apontados por Caio Prado, mas sempre tendo que fazer referência a ele.

Em se tratando aqui de se fazer uma breve apresentação ao capítulo I ao livro de Caio Prado Jr., publicado pela primeira vez em 1966, A Revolução Brasileira, pretendo destacar ao leitor do marxismo21 apenas o que considero fundamental na contribuição desse grande pensador e militante revolucionário brasileiro, vale dizer, o resgate do método marxista para a análise científica da realidade concreta, com vistas à sua transformação rumo ao socialismo. Desde seus primeiros escritos, nos anos 1930, Prado Jr., primou por aplicar uma das principais contribuições de Marx à humanidade, seu método materialista e dialético. Superando, desde cedo, as influências positivistas, dogmáticas (a “teoria consagrada” elaborada pelo VI Congresso da III Internacional, em 1928), e mesmo pragmáticas, que imperavam nas análises da esquerda brasileira – principalmente no principal partido até o final da década de 1970, o PCB, ao qual ele pertencia – Caio Prado Jr., lutou implacavelmente para que a teoria da revolução brasileira fosse compatível com nossa realidade. Diz ele, “trata-se de definir uma teoria revolucionária que seja a expressão da conjuntura econômica, social e política do momento, para as quais essas questões apontam.” Não significando, com isso, para os leitores apressados, que a teoria da revolução brasileira fosse apenas baseada numa análise conjuntural.

Por isso, ele não abre mão de fazer a mais profunda e honesta crítica, até mesmo ao partido ao qual pertencia, por suas deficiências teóricas que, certamente, levaram a uma prática equivocada na construção da revolução no país. Neste livro, que ora apresentamos, Caio Prado afirma que pretende mostrar: “as insuficiências teóricas das esquerdas brasileiras na gênese daquelas ilusões que não lhes permitiram enxergar a realidade da situação e pressentir o desenlace que as aguardava.” Teorias estas que advinham de “modelos estranhos e completamente alheados da realidade do país” que, na prática, contribuíram para a cruel derrota dos trabalhadores brasileiros com o golpe militar de 1964, que custou a vida de valiosos militantes revolucionários brasileiros.

Com o fim da URSS, os militantes revolucionários de todo o mundo quedaram, inicialmente, perplexos, esmagados pela vaga reacionária que a seguiu, mas levantam-se, a partir das lutas em todo o mundo, para a construção de uma alternativa socialista ao capitalismo. Essa nova prática política tem muito que aprender com Caio Prado Jr., que, tendo como âncora fundamental o materialismo dialético de Marx, desde sempre clamou pela máxima de Lênin, ou seja, que em cada parte do mundo, os militantes que se querem revolucionários, devem fazer a “análise concreta da realidade concreta”, sem modelos pré-estabelecidos, mas com critérios científicos.

Durante toda sua vida Caio Prado Jr. foi militante do PCB. Nem por isso aceitou aderir às principais teses do partido, mantendo-se firme estudioso marxista da causa revolucionária brasileira, influenciando gerações de estudiosos e militantes, e sendo respeitado tanto no partido, como no meio acadêmico, apesar de nunca ter sido aceito entre os quadros da universidade.

A divulgação que marxismo21 faz dessa introdução do livro A Revolução Brasileira pretende ser apenas o aperitivo para que nossos leitores retomem, ou iniciem, estudos mais dedicados à obra de Caio Prado Jr., não apenas para reverenciá-lo, mas acima de tudo para aprender com ele como se constrói uma teoria revolucionária, a partir do marxismo, que leve a real construção do socialismo no Brasil.

* Sofia Manzano, economista, professora universitária, diretora do Instituto Caio Prado Jr e comitê editorial deste blog.

*****

 Sobre a trajetória política de Caio Prado Jr.

Luiz Bernardo Pericás * 

A partir do momento em que ingressou no PCB, em 1931, Caio Prado Júnior iria se destacar como um dos mais importantes intelectuais marxistas do Brasil, ao mesmo tempo em que se empenharia, especialmente naquela década, em cumprir uma intensa agenda como militante. É verdade que desde o final dos anos vinte, a política do Comintern de perseguição a dirigentes e intelectuais que representavam, supostamente, vozes dissonantes dentro da linha de “classe contra classe” propugnada por Moscou, havia resultado na expulsão ou exclusão dos órgãos máximos dos diferentes partidos comunistas, de personalidades destacadas como Jay Lovestone, Benjamin Gitlow e Bertram Wolfe, nos Estados Unidos; Manabendra Nath Roy, na Índia; Heinrich Brandler, na Alemanha; Joaquín Maurín, na Espanha; José Penelón, na Argentina; e Octavio Brandão, Astrojildo Pereira e Leôncio Basbaum no Brasil, só para citar alguns exemplos. A onda de expurgos por “desvios” de direita e pequeno-burgueses abarcou agremiações ligadas à IC em todo o mundo. Caio Prado Júnior se filiou ao PCB, portanto, num período “obreirista” teoricamente desfavorável àqueles com sua trajetória pessoal e origem de classe. Afinal, ele era filho de uma das mais ricas e tradicionais famílias da elite paulista, e fora integrante, desde 1928, do Partido Democrático. Mas isso não impediu que desenvolvesse distintas atividades de apoio aos trabalhadores e à União Soviética.

Já em 1932 foi um dos fundadores de duas entidades importantes, a Sociedade de Socorros Mútuos Internacionais e o Clube de Artistas Modernos. Durante todo aquele ano, trabalhou com entusiasmo para criar cursos marxistas e uma publicação voltada para o movimento operário. Ainda assim, seria acusado pelo Comitê Regional de seu partido de estar planejando um “golpe de Estado” interno e de ter vínculos com elementos “trotskistas”, ambas as acusações que ele rejeitaria categoricamente.  Na ocasião, se situaria no campo do “marxismo-leninismo”.

Logo depois de entrar no Partido Comunista, participou de sessões do “Congresso Social” e da “Sociedade dos Amigos da União Soviética” na capital paulista. A partir de 1933, estabeleceu contato com a Associação de Amigos da União Soviética espanhola, e dois anos mais tarde, na condição de secretário da recém-fundada Associação dos Geógrafos Brasileiros, escreveu para a VOKS, com o intuito de criar uma ponte entre as duas entidades e intercambiar publicações. Nos anos trinta, Caíto também seria responsável pela tradução de Teoria do materialismo histórico, de Nikolai Bukhárin (Edições Caramuru), em quatro volumes.

É importante lembrar que já naquela primeira década no PCB, CPJ iria adquirir a obra completa de Marx, Engels e Lênin, assim como alguns livros de Kaganovich, Stalin, Trotsky, Bela Kun, Rosa Luxemburgo, Georges Sorel, Losovsky e Riazanov.  Ele compraria muitos destes volumes remetendo dinheiro diretamente ao Bureau D’Editions do Partido Comunista Francês, que lhe enviaria periodicamente livros e publicações comunistas. Em outras palavras, Prado Júnior certamente possuía um sólido conhecimento do marxismo, ao contrário do que muitos críticos tentaram insinuar, mesmo que seus textos não refletissem necessariamente isso.

Sua atuação política se aprofundou em 1935, ao se tornar vice-presidente da ANL (Aliança Nacional Libertadora) em São Paulo; por ser um dos principais articuladores da “Frente Popular por Pão, Terra e Liberdade”, no mesmo estado; no exílio na França, entre 1937 e 1939, participando de um comitê em apoio aos refugiados republicanos que lutavam contra as hostes fascistas de Franco na Guerra Civil espanhola; ao manter, na mesma época, ligações com o Partido Comunista Francês; nos embates da II Conferência Nacional do Partido (o “Encontro da Mantiqueira”), em 1943, ao integrar, junto a amigos militantes como Heitor Ferreira Lima, Astrojildo Pereira e Mário Schemberg, os “Comitês de Ação”, que defendiam a luta contra o governo Vargas, em contraposição à Comissão Nacional de Organização Provisória, apoiada por Luiz Carlos Prestes; e ao ser eleito deputado estadual em 1947 (tendo seu mandato cassado no ano seguinte, após dez meses atuando ativamente como parlamentar). (ler mais:  acesso )

* Luiz Bernardo Pericás é historiador e professor pesquisador IEB-USP

 *****

Textos sobre a obra teórica e a trajetória política

Caio Prado Jr., a rebelião moral, Florestan FERNANDES  acesso
Percurso histórico e político de um teórico marxista, Milton PINHEIRO  acesso
O marxismo de Caio Prado Jr., Lincoln SECCO  acesso
Sobre a teoria da Revolução de C. Prado Jr., Plínio A. SAMPAIO JR.  acesso  
O Brasil de Caio Prado Jr., Ângela de SOUZA  acesso
Nação e barbárie: Caio Prado, Jr., F. Fernandes e C. Furtado, Plínio A. SAMPAIO Jr.  acesso
Caio Prado Jr., Leandro KONDER   acesso
Caio Prado Jr.: obra economicista?, Jayro Gonçalves MELO  acesso
Caio Prado Jr. e o capitalismo no Brasil, Virgínia FONTES  acesso
Caio Prado e o desenvolvimento econômico, João Antonio de PAULA  acesso
Caio Prado Jr., Historiador, Fernando NOVAIS  acesso
Caio Prado Jr. e a revolução brasileira, José Carlos REIS  acesso
Caio Prado Jr.: o primeiro marxista brasileiro, Bernardo RICÚPERO  acesso
Caio Prado Jr.: a polêmica feudalismo x capitalismo, Airton LIMA  acesso
Ciência Política em C. Prado Jr.?, Raimudo SANTOS  acesso
 Caio Prado e a política, Marco Antônio COELHO  acesso
Dois marxistas brasileiros: CPJ e NWS, Raimundo SANTOS  acesso

          Entidade e documentos relevantes sobre a trajetória intelectual, política e editorial de Caio Prado Jr.

Instituto Caio Prado Jr. (documentos, textos, vídeos)

acesso

Arquivo da Biblioteca Nacional (biografia, atividades políticas, produção intelectual e editorial de CPJr.). Em alguns documentos (v. item “militância”) podem ser conhecidas as razões obscurantistas da prisão do autor pela ditadura militar de 1964.

acesso

Foto de Caio Prado Jr. durante a campanha contra a cassação dos mandatos dos parlamentares comunistas durante o governo Gaspar Dutra (1946-1950)

acesso 

Carta de CPJr. a Lívio Xavier sobre resenha crítica de Evolução Política do Brasil acesso
Carta de CPJr. ao amigo Nelson Werneck Sodré

 acesso

Publicado em Sem categoria | Tags , , , , | Comentários Desligados

Eric Hobsbawm (1917-2012): um espírito indômito

Reconhecendo a relevância e a fecundidade da produção historiográfica de Eric Hobsbawm – cujos trabalhos sempre estiveram comprometidos com as lutas dos trabalhadores e com a defesa do socialismo –,  marxismo21 manifesta seu pesar pelo recente desaparecimento desse autor. O pensamento crítico e socialista de todo o mundo perde, hoje, uma de suas figuras mais expressivas e emblemáticas. Nesta breve homenagem, publicamos dele o instigante “Manifesto para a Renovação da História”; por sua vez, Diorge Konrad – na qualidade de historiador, militante socialista e membro de nosso conselho consultivo -,  dá um depoimento pessoal sobre sua aproximação com a obra de Hobsbawm; ao mesmo tempo mostra a importância dela para a historiografia marxista, em particular, para  a pesquisa sobre a história social e o mundo do trabalho.  A seguir são informados os links que permitem acesso a uma dissertação acadêmica, artigos, resenhas e entrevistas de renomados especialistas em torno da obra do autor. Por último, marxismo21 publica três manifestações de partidos políticos da esquerda brasileira sobre a morte de Eric Hobsbawm.

Editores

*****

Eric Hobsbawm autografa A era dos extremos, em Paraty, RJ. (Detalhe significativo: um jornal da classe operária brasileira, até final da sessão, permaneceu à esquerda do historiador marxista.)

*****

Manifesto para a renovação da história

Eric HOBSBAWM

(texto apresentado no Colóquio da Academia Britânica sobre Historiografia Marxista, 13/11/2004)

“Até agora, os filósofos não fizeram mais do que interpretar o mundo; trata-se de transformá-lo.”  Os dois enunciados da célebre “Teses sobre Feuerbach”, de Karl Marx, inspiraram os historiadores marxistas. A maioria dos intelectuais que aderiram ao marxismo a partir da década de 1880 – entre eles os historiadores marxistas  – fizeram isso porque queriam mudar o mundo, junto com os movimentos operários e socialistas; movimentos que se transformariam, em grande medida devido à influência do marxismo, em forças políticas de massas.
Essa cooperação orientou de maneira natural os historiadores que queriam transformar o mundo na direção de certos campos de estudo —fundamentalmente, a história do povo ou da população operária— os quais, se bem atraíam naturalmente as pessoas de esquerda, não tinham em sua origem nenhuma relação particular com uma interpretação marxista. Por outro lado, quando esses intelectuais deixaram de ser revolucionários sociais, a partir da década de 1890, com frequência também deixaram de ser marxistas.
A revolução soviética de outubro de 1917 reavivou esse compromisso. Lembremos que os principais partidos social-democratas da Europa continental abandonaram completamente o marxismo apenas na década de 1950, e às vezes ainda depois disso. Essa revolução gerou, também, o que poderíamos chamar de uma historiografia marxista obrigatória na URSS e nos Estados, que depois foi adotada por regimes comunistas. A motivação militante foi reforçada durante o período do antifascismo.
A partir da década de 1950 essa tendência começou a decair nos países desenvolvidos —mas não no Terceiro Mundo— apesar de que o considerável desenvolvimento do ensino universitário e a agitação estudantil geraram, dentro da universidade, na década de 1960, um novo e importante contingente de pessoas decididas a mudar o mundo. Contudo, apesar de desejar uma mudança radical, muitas delas já não eram abertamente marxistas, e algumas já não eram marxistas em absoluto.
Esse ressurgimento culminou na década de 1970, pouco antes do início de uma reação massiva contra o marxismo, mais uma vez por razões essencialmente políticas. Essa reação teve como principal efeito — exceto para os liberais, que ainda acreditam nisso— o aniquilamento da ideia de que é possível predizer, apoiados na análise histórica, o sucesso de uma forma particular de organizar a sociedade humana. A história havia se dissociado da teleologia.
Considerando as incertas perspectivas que se apresentam aos movimentos socialdemocratas e social-revolucionários, não é provável que assistamos a uma nova onda politicamente motivada de adesão ao marxismo. Mas devemos evitar cair em um centrismo ocidental excessivo. A julgar pela demanda de que são objeto meus próprios livros de história, comprovo que ela se desenvolve na Coréia do Sul e em Taiwan, desde a década de 1980, na Turquia, desde a década de 1990, e que há sinais de que atualmente avança no mundo árabe.

A virada social
O que aconteceu com a dimensão “interpretação do mundo” do marxismo? A história é um pouco diferente, ainda que paralela. Concerne ao crescimento do que se pode chamar de reação anti-Ranke, da qual o marxismo constituiu um elemento importante, apesar de que isso nem sempre foi totalmente reconhecido. Tratou-se de um movimento duplo.
Por um lado, esse movimento questionava a idéia positivista segundo a qual a estrutura objetiva da realidade era, por assim dizer, evidente: bastava com aplicar a metodologia da ciência, explicar por que as coisas tinham ocorrido de tal ou qual maneira e descobrir wie es eigentlich gewessen (como ocorreu realmente). Para todos os historiadores, a historiografia se manteve e se mantém enraizada em uma realidade objetiva, ou seja, a realidade do que ocorreu no passado; contudo, não está baseada em fatos e, sim, em problemas, e exige investigação para compreender como e por que esses problemas —paradigmas e conceitos— são formulados da maneira em que são o em tradições históricas e em meios socioculturais diferentes.
Por outro lado, esse movimento tentava aproximar as ciências sociais da história e, em conseqüência, englobá-las em uma disciplina geral, capaz de explicar as transformações da sociedade humana. Segundo a expressão de Lawrence Stone, o objeto da história deveria ser “propor as grandes perguntas do por quê”. Essa “virada social” não veio da historiografia, senão das ciências sociais —algumas delas incipientes como tais— que naquele momento firmavam-se como disciplinas evolucionistas, ou seja, históricas.
Na medida em que é possível considerar Marx como o pai da sociologia do conhecimento, o marxismo — apesar de ter sido denunciado erradamente em nome de um suposto objetivismo cego— contribuiu para dar o primeiro aspecto desse movimento. Além disso, o impacto mais conhecido das ideias marxistas — a importância outorgada aos fatores econômicos e sociais— não era especificamente marxista, ainda que a análise marxista pesou nessa orientação, que estava inscrita em um movimento historiográfico geral, visível a partir da década de 1890, e que culminou nas décadas de 1950 e 1960, para benefício da geração de historiadores à qual pertenço, que teve a possibilidade de transformar a disciplina.
Essa corrente socioeconômica superava o marxismo. A criação de revistas e instituições de história econômico-social às vezes foi obra —como na Alemanha— de socialdemocratas marxistas, como ocorreu com a revista Vierteljahrschrift em 1893. Não aconteceu da mesma maneira na Grã Bretanha, nem na França, nem nos Estados Unidos. E inclusive na Alemanha, a escola de economia, marcadamente histórica, não tinha nada de marxismo. Somente no Terceiro Mundo do século XIX (Rússia e os Balcãs) e no do século XX, a história econômica adotou uma orientação principalmente social-revolucionária, como toda “ciência social”. Em consequência disto, foi muito atraída por Marx.
Em todos os casos, o interesse histórico dos historiadores marxistas não se centrou tanto na “base” (a infra-estrutura econômica) como nas relações entre a base e a superestrutura. Os historiadores explicitamente marxistas sempre foram relativamente escassos.
Marx influenciou a história principalmente através dos historiadores e dos pesquisadores em ciências sociais que retomaram as questões que ele colocava, tenham eles trazido, ou não, outras respostas. Por sua vez, a historiografia marxista avançou muito em relação ao que era na época de Karl Kautsky e de Georg Plekhanov, em boa parte graças à sua fertilização por outras disciplinas (fundamentalmente a antropologia social) e por pensadores influenciados por Marx e que completavam seu pensamento, como Max Weber. (ler mais: acesso )

*****

ERIC JOHN ERNST HOBSBAWM: valeu!*

Diorge Konrad**

Em primeiro lugar, estou preocupado com os usos e abusos da História, tanto na sociedade como na política, e com a compreensão, e espero, transformação do mundo (Eric Hobsbawm, em Sobre História)

Primeiro de outubro de 2012, cerca de oito horas da manhã, recebo a notícia da morte de Eric Hobsbawm.

A sensação é como se algo muito importante fosse arrancado do cérebro, uma espécie de vazio intelectual. Ainda impactado, menos de uma hora depois escrevi a seguinte mensagem repassada às minhas listas de correio eletrônico:

Quem de nós? Quem de nós não leu afoitamente alguma outra obra deste grande historiador do século XX? A Era dos Extremos? A Era dos Impérios? A Era do Capital? A Era das Revoluções? Mundos do Trabalho? Os Trabalhadores? Sobre História? Como Mudar o Mundo – Marx e o Marxismo! Quem de nós não se encantou com a sua forma de narrar a História? Quem de nós não discordou ou concordou com alguma “sacada” teórica deste alexandrino, historiador do mundo? Para nós da História Social do Trabalho, aprendemos mais sobre os trabalhadores e o mundo do trabalho com Eric Hobsbawm! Para nós de Teoria da História, aprendemos muito com o “que a História tem a nos dizer sobre o mundo contemporâneo”, como ele escreveu no título de um dos seus artigos! Hobsbawm se foi, breve como o seu século XX.

Queria que meus alunos de “Teoria da História”, que estudam comigo os trabalhos de Hobsbawm, desde 1995, compartilhassem mais uma vez algo que tenho a dizer sobre ele   e essa dialética entre o “tempo longo” e o “tempo breve”.

Eu o vi pela primeira vez em Porto Alegre, no início da década de 1990, no lotado “Auditório Dante Barone” da Assembléia Legislativa – palestrando em um português fluente – num Seminário sobre a Polis. No final, como autênticos tietes, eu e a historiadora Glaucia Konrad fomos pedir um autógrafo em A Era das Revoluções e A Era dos Impérios. Ao nos aproximarmos, ao final da conferência, parecia que o século XX estava à nossa frente. Ao ver os livros, o coordenador da mesa, Tarso Genro, disse que Hobsbawm estava muito cansado. Dissemos, porém, que só aceitaríamos ouvir isto dele. O historiador marxista, no entanto, foi extremamente gentil. Os livros continuam bem guardados … e com as honrosas dedicatórias.

Nesta passagem pela capital do Rio Grande do Sul, Hobsbawm teria ido ao Beira-Rio, acompanhado de um conselheiro do Internacional, Olívio Dutra. Falando da história de nosso time, o ex-prefeito e futuro governador teria reforçado a lenda sobre a origem do nome do Colorado, “fundado” por militantes anarquistas e homenageado em relação à organização mundial dos trabalhadores, formada por Karl Marx e outros em 1864.  Hobsbawm teria dito: “Então, aqui em Porto Alegre, torço para o Internacional”.

Seria bom que esta invenção repetida por muitos torcedores colorados fosse verdade! Ao menos, em relação a Hobsbawm, seria uma referência da história do presente a um dos movimentos que ele tanto pesquisou, a relação dos trabalhadores com o futebol. Infelizmente, trata-se de uma “lenda urbana” para muitos dos rio-grandenses colorados como eu. Na introdução de um livro clássico, organizado com Terence Ranger, Hobsbawm afirmou que “não há lugar nem tempo investigado pelos historiadores onde não haja ocorrido a ‘invenção’ de tradições”. Ao menos me consola que Hobsbawm tenha dito também que o “estudo das invenções das tradições é INTERdisciplinar”.[1]

Como historiador em formação na década de 1980 deveria ter começado como muitos, lendo Hobsbawm pela sua trilogia das Eras, que se tornaria tetra após a Queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética. Não! Como pretenso marxista, comecei pelos volumes de História do Marxismo, gentilmente cedidos por meus mestres da graduação em História, Anamaria e Luiz Carlos Rodrigues. Quando fui presenteado por eles com um dos volumes, iniciei a saga para ter todos os outros organizados por Hobsbawm e lançados no Brasil pela Paz e Terra. Era como um adolescente dos dias de hoje à procura de Harry Potter ou O senhor dos anéis , e como estes, um leitor voraz do que ia chegando às minhas mãos, no tempo em que comprávamos com sacrifício qualquer livro por mais de mil e poucos cruzeiros.

Em História do Marxismo, aprendi com Hobsbawm, que o marxismo foi a “escola teórica que teve a maior influência prática (e as mais profundas raízes práticas) na história do mundo moderno”, além de ser um “método para, ao mesmo tempo, interpretar e mudar o mundo”[2], na mais profunda concepção já dita antes por Marx na décima primeira tese contra Feuerbach.

Numa academia essencialmente conservadora e oriunda da Ditadura, para quem como eu começou a graduação em 1985, as obras de Hobsbawm, como de Perry Anderson, Edgar Carone, Nelson Werneck Sodré, Caio Prado Jr. e poucos outros, eram ilhas para nossos combates pela História com H maiúsculo, para nossa militância estudantil e política. Enquanto os reacionários diziam que foram Marx e Engels que “inventaram” o comunismo e que este não passava de uma teoria equivocada e uma prática pior ainda, descobri com Hobsbawm que eles “chegaram relativamente tarde ao comunismo. Engels declarou-se comunista no fim de 1842, enquanto Marx provavelmente só o fez na segunda metade de 1843, após um acerto de contas mais complexo e prolongado com o liberalismo e a filosofia hegeliana”. Até hoje digo isso para meus alunos de Teoria da História: diferente do que muitos afirmam, Marx e Engels não inventaram o comunismo, mas as lutas revolucionárias do pós-1830 contra o capitalismo levaram os maiores intelectuais, do que viria a ser a filosofia da práxis, para dentro de seu movimento, com certa ajuda prática do alfaiate Wilhelm Weitling e teórica de Moses Hess, como bem disse Hobsbawm[3], mais ainda a “Liga dos Justos” transformada em Liga dos Comunistas, quando Marx e Engels “estavam nos cueiros” produzidos pelas tecelãs e operários fabris. O Manifesto do Partido Comunista, escrito a quatro mãos, a pedido da Liga, coroaria Marx e Engels no movimento que na teoria receberia o nome de marxismo e na política de comunismo.

Foi esta práxis que me levou a estudar o que Hobsbawm chamou mundos do trabalho. Queria saber no rincão que adotara, Santa Maria, a história dos trabalhadores. Com Glaucia, em 1987, começamos a pesquisar a greve de 1917 e os trabalhadores ferroviários, nosso exemplo local de proletariado de lutas. Não paramos mais, sempre com a historiografia de Hobsbawm presente, especialmente intrigado pelas suas provocações, e as de Georges Rudé em Capitão Swing, no qual Hobsbawm aborda os “fracassos” dos levantes sociais, se contrapondo a visões que apenas entendem o processo histórico como “realização negativa”. Ali, o historiador inglês defende a idéia de “fracasso não previsto”. Isto é, se alguém já soubesse da derrota previamente, tenderia a não entrar em uma luta. Um sábio ensinamento aos movimentos sociais e políticos revolucionários da atualidade, dado pelos trabalhadores ingleses que fizeram as revoltas rurais do início do século XIX, resgatados pela pesquisa do historiador no que chamou de “sucesso inesperado e imprevisível”[4], uma espécie de “a luta continua, companheiro!”.

Com Hobsbawm, vi que seria impensável ver a história local ou regional como se não fosse parte do processo histórico universal. Mais tarde veria que isso também veio de Marx e Engels. Assim, estudar os trabalhadores significava estudar uma classe e “a relação entre a situação em que tais classes se encontram na sociedade e a ‘consciência’, os modos de vida e os movimentos que elas geraram”. Estudar e compreender as classes não teria sentido se não também não entendêssemos que “a história de qualquer classe não pode ser escrita se a isolarmos de outras classes, dos Estados, instituições e ideias que fornecem sua estrutura, sua herança”.[5]

Antes disso, com os ensaios de Os Trabalhadores já havíamos visto com Hobsbawm que a história das “classes trabalhadoras” ia muito além de suas organizações e movimentos trabalhistas, quando o historiador estudou seus padrões de vida, a situação e as condições de trabalho nas fábricas, os costumes, os salários, a carga de trabalho e as tradições do “mundo do trabalho”. Mas, diferente de certos modismos culturalistas da história do trabalho, Hobsbawm nunca abandonou os movimentos e organizações dos trabalhadores, desde as revoltas camponesas, os “rebeldes primitivos” e os “bandidos”, passando pelos destruidores de máquinas, os sindicatos de trabalhadores e seus partidos políticos.[6]

Quase um século depois, bem o sabemos, Hobsbawm começaria a conhecer profundamente o processo histórico do que ele chamou de mundo moderno e contemporâneo, a sociedade burguesa, juntamente com as obras de Marx e Engels, elaboradas a partir do século XIX, e as lutas dos trabalhadores desde então, seja de resistência ao capital, seja pela revolução comunista.

Pois, quis a História, que Hobsbawm nascesse no ano da Revolução Soviética, um ano antes do centenário de Marx. Quis a História que Eric Hobsbawm se tornasse marxista e comunista, reconhecido em sua morte até pela mídia burguesa como um dos maiores intelectuais do século XX.

E não foram poucos os seus projetos. O que extrapolou o mundo da academia sintetizou, numa das mais profundas reflexões dialéticas do materialismo histórico, o entendimento do que chamamos tradicionalmente de mundo contemporâneo, de 1789 para cá. Nos títulos dos quatro volumes está implícito o verdadeiro intento de Hobsbawm, como bom marxista que era: entender o tempo das revoluções burguesas e o nascimento das lutas pelo socialismo; compreender a consolidação do capitalismo e, assim como Lênin, a sua fase superior, o imperialismo; estudar a essência da luta de classes no século XX, entre as crises do capitalismo e as primeiras experiências do socialismo, nos tempo dos extremos. Traduzido em mais de quarenta línguas, com em História Social do Jazz, sua escrita ganhou milhões de leitores, admiradores e seguidores, ávidos por qualquer obra sua lançada a público.

Hobsbawm sempre teve opinião e sobre quase tudo. E dentro do marxismo, mesmo quando debatia com seus interlocutores sobre o que disse Marx e o que ele e eles achavam que Marx teria dito, nos ensinava que se Marx disse algo, mais importante seria os que os marxistas de hoje devem dizer sobre o mundo e buscar em Marx seus erros e acertos. De certa forma, no artigo “A estrutura d’O Capital”, estabelecendo diálogo crítico com Althusser, escrito em 1966, no auge da influência deste filósofo pela Europa, Hobsbawm reforçou este ensinamento.[7] Em outro artigo, entretanto, Hobsbawm disse o fundamental sobre Marx: “Marx continua a ser a base essencial de todo estudo adequado de história, porque – até agora – apenas ele tentou formular uma abordagem metodológica da história como um todo, e considerar e explicar todo o processo da evolução social humana”.[8]

Recentemente, ao se pronunciar sobre a “primavera árabe”, comparando-a com as revoluções de 1848, tomei a liberdade, sempre temerosa, de criticá-lo sobre o que chamei de seu “desencanto” com o proletariado e o que Hobsbawm chamou de “esquerda tradicional”. Ali, disse que “Hobsbawm, pelas contribuições que já deu ao desenvolvimento da historiografia e na defesa do próprio marxismo, talvez mereça cada vez mais dos marxistas de hoje o que Marx e Engels fizeram com Bruno Bauer e consortes, uma crítica da crítica crítica, ou seja, uma síntese arrojada de sua obra para ver suas contribuições e seus limites”.[9] E, não tenhamos dúvida, ela foi grandiosa, me fazendo sempre lembrar de sua Estratégias para uma esquerda racional e a terceira parte da obra que ele chamou de recomeço.[10]

Seu último livro lançado no Brasil, em 2011, Como Mudar o Mundo. Marx e o Marxismo, 1840-2011, foi logo devorado por mim, com novos ensinamentos para prosseguir com Marx e o marxismo. Entre eles, ao escrever sobre o longo século XX e o trabalho, analisando as experiências socialistas, a crise atual do capitalismo e os defensores deste modo de produção e sua ideologia, Hobsbawm asseverou:

Paradoxalmente, ambos os lados têm interesse em voltar a um importante pensador cuja essência é a crítica do capitalismo e dos economistas que não perceberam aonde levaria a globalização capitalista, como ele [MARX] previra em 1848. (…) Mais uma vez, fica patente que, mesmo no intervalo entre grandes crises, o ‘mercado’ não tem nenhuma resposta para o principal problema com que se defronta o século XXI: o fato de que o crescimento econômico ilimitado e cada vez mais tecnológico, em busca de lucros insustentáveis, produz riqueza global, mas às custas de um fator de produção cada vez mais dispensável, o trabalho humano, e, talvez convenha acrescentar, dos recursos naturais do planeta. O liberalismo econômico e o liberalismo político, sozinhos ou combinados, não conseguem oferecer uma solução para os problemas do século XXI. Mais uma vez chegou a hora de levar Marx a sério.[11]

 Quis também a História que Hobsbawm partisse no ano de criação de nosso blog marxismo21. Como o grande historiador que nos deixou, continuaremos levando Marx a sério, muito a sério. Valeu Eric John Ernest Hobsbawm!

Notas ao texto:

 * Este artigo é também uma homenagem a alguns mestres e orientadores que me fizeram conhecer melhor o grande historiador; em especial Anamaria Lopes Rodrigues e Luiz Carlos Bonotto Rodrigues, da UFSM; igualmente, Michael Mcdonald Hall (cheers, Michael!), da UNICAMP. Todos eles que me auxiliaram na passagem do século XX ao XXI, assim como Hobsbawm, acompanhado da sua reflexão historiográfica e na defesa de sua visão de História.

** Professor Adjunto do Departamento e do Programa de Pós-Graduação em História da UFSM, Doutor em História Social do Trabalho pela UNICAMP.

[1] Cf. HOBSBAWM, Eric. Introdução. In. HOBSBAWM, Eric; RANGER, Terence (orgs.). A invenção das tradições. 2 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997, p. 12 e 23. Inter em caixa alta é uma “licença poética” do autor.

[2] Ver HOBSBAWM, Eric (org.). Prefácio. História do marxismo. O marxismo no tempo de Marx. Vol. 1. 3 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983, p. 12.

[3] HOBSBAWM, Eric. Marx, Engels e o socialismo pré-marxiano. In. ________ (org.). Prefácio. História do marxismo. O marxismo no tempo de Marx. Vol. 1. 3 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983, p. 33.

[4] Cf. HOBSBAWM, Eric. Conseqüências. In. HOBSBAWM, Eric J.; RUDÉ, George. Capitão Swing: a expansão Capitalista e as revoltas rurais na Inglaterra no início do século XIX. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1982, p. 279.

[5] HOBSBAWM, Eric (org.). Prefácio. In. ________. Mundos do trabalho. Novos estudos sobre história operária. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2000, p. 11-12.

[6] Ver estas temáticas no Sumário e nos respectivos artigos de Os trabalhadores: Estudos sobre a história do operariado. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981. Cf. também Rebeldes primitivos. Estudo sobre as formas arcaicas dos movimentos sociais nos séculos XIX e XX. Rio de Janeiro: Zahar, 1970; Bandidos. 2 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1976.

[7] HOBSBAWM, Eric. A estrutura d’ O Capital. In. HOBSBAWM, Eric J. Revolucionários. Ensaios contemporâneos. 3 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2003, p. 146-155.

[8] HOBSBAWM, Eric. Marx e a História. In. ________. Sobre História. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

[9] Cf. KONRAD, Diorge Alceno Konrad. Necessária Crítica da Crítica Crítica a Eric Hobsbawm. In. Portal Vermelho. Publicado em 31 de dez. de 2011. Disponível em: http://www.vermelho.org.br/coluna.php?id_coluna_texto=4477&id_coluna=14. Acesso em: 2 out. 2012.

[10] HOBSBAWM, Eric. Estratégias para uma esquerda racional, Escritos políticos, 1977-1988. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991.

[11] Ver: HOBSBAWM, Eric. Marx e o trabalhismo: o longo século. In. ________.  Como Mudar o Mundo. Marx e o Marxismo, 1840-2011. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p. 375.

*****

Textos e entrevistas

Eric Hobsbawm e François Furet: história, política e revolução, Priscila Corrêa acesso
História social, história militante, Pablo Pozzi acesso
Resistências camponesas ao capitalismo na obra de EH, Michael Löwy acesso
O milenarismo camponês na obra de EH, Michael Löwy  acesso
Marx, Weber e Hobsbawm, Jorge Novoa acesso
Uma obra insuperável, Francisco Carlos Teixeira  acesso
A era de Hobsbawm, Seminário Unicamp/INCA acesso
Tempos interessantes, Perry Anderson acesso
Como mudar o mundo, Terry Eagleton acesso
A atualidade de Marx, Marcello Musto  acesso
Entrevista ao MST, 2009 acesso
Um espelho do mundo em mutação, entrevista a P. Sérgio Pinheiro acesso
Marxismo hoje, Beppe Grillo acesso
A propósito de A era dos extremos, Roy Hora  acesso
Para onde vai o império, E. Hobsbawm

acesso

 *****

Manifestações de partidos políticos de esquerda no Brasil

* Partido Comunista Brasileiro

O Olhar Comunista lamenta com pesar a morte, ontem em Londres, aos 95 anos de idade, do historiador marxista Eric Hobsbawm. Um dos maiores intelectuais do século XX, Hobsbawm deixa uma herança de obras fundamentais para o entendimento dos tempos atuais, como “A Era das Revoluções”, “A Era do Capital”, “A Era dos Impérios”, “A Era dos Extremos”, “História Social do Jazz”, entre outras.

Militou entre 1936 e 1989 no Partido Comunista da Inglaterra e, defendendo os ideais socialistas e comunistas, manteve uma postura crítica em relação à tudo à sua volta, inclusive quanto à experiência de construção do Socialismo na União Soviética. Em 2011, aos 94 anos, lançou o livro “Como Mudar o Mundo”, texto no qual que defende o uso do método e das ideias marxistas para a compreensão da crise atual do sistema capitalista. Hobsbawm manteve a coerência entre sua postura militante e as idéias que defendia. Deixa o legado da importância de estudar-se criticamente o passado sob a ótica da luta de classes, do trabalho contra o capital, sem deixar de levar em conta nenhum aspecto da vida humana, das formações sociais, para transformá-las no rumo da construção coletiva da emancipação humana, do fim da exploração do homem pelo homem, da construção de uma nova sociedade justa e igualitária, a sociedade comunista.

* Partido Socialismo e Liberdade.

O Partido Socialismo e Liberdade vem a público lamentar a morte do renomado historiador marxista Eric Hobsbawm, ocorrida nesta segunda-feira dia 1 de outubro de 2012, aos 95 anos de idade, em decorrência de uma pneumonia.

A perda deste grande intelectual marxista, considerado um dos maiores historiadores do século XX e autor da consagrada trilogia “A era das revoluções”, “A era do capital” e “A era dos impérios”, entristece não apenas o PSOL, mas toda uma geração de intelectuais e militantes sociais que se inspiraram em sua brilhante obra.

Uma obra forjada pela análise crítica dos acontecimentos históricos que marcaram o século XX e por seu compromisso com a transformação social, sempre manifesta em sua opção por uma militância de esquerda desde quando aos 14 anos de idade ingressou no partido comunista.

Perdemos assim mais um grande pensador e intelectual de esquerda, num momento em que a humanidade precisa mais do que nunca refletir criticamente sobre seus dilemas civilizatórios e suas opções de futuro.

Cabe aos que continuam acreditando neste sonho, sobre os ombros deste gigante, buscarmos enxergar mais longe e nos colocarmos a altura dos novos desafios que se apresentam para a luta pelo socialismo neste novo século XXI.

Nossos pesares aos familiares, amigos e admiradores.

 * Partido Comunista do Brasil

Texto em Vermelho de um dirigente partidário, José Carlos Ruy: acesso

Publicado em Sem categoria | Tags | Comentários Desligados

Carlos Nelson Coutinho (1943-2012): obra e vida valorosas

Consternados e sensibilizados pelo falecimento de Carlos Nelson Coutinho, marxismo21 se solidariza com todos que lamentam esta irreparável perda sofrida pelo pensamento marxista crítico e pela cultura política democrática no Brasil. Os editores do blog fazem suas as palavras de um colaborador: “Carlos Nelson, amigo e companheiro inesquecível, é daqueles que Bertolt Brecht chamava os imprescindíveis, que lutaram durante toda a sua vida pela causa dos oprimidos. Carlos Nelson colocou toda sua cultura, sua inteligência, sua criatividade, na luta pelo socialismo e pela democracia”.

Um mes antes do blog ser lançado, Carlos Nelson com sua conhecida simpatia e solidariedade nos incentivou com as seguintes palavras: ”A difusão do marxismo no Brasil do século XXI é um fato indiscutível. Já são muitas as publicações (revistas, editoras) que compravam isso. Estou certo de que o blog marxismo21, do qual participam brilhantes intelectuais marxistas de nosso País, contribuirá ainda mais para ampliar esta difusão“.

Nesta breve homenagem ao lúcido e combativo marxista brasileiro, publicamos matérias de sua autoria, entrevistas recentemente concedidas por ele , vídeos e depoimentos de editores de revistas, centros de estudos marxistas e entidades de esquerda.

CARLOS NELSON COUTINHO, PRESENTE!

Editores de marxismo21

*******

Entrevista à revista Caros amigos, publicada em 2010.

Carlos Nelson Coutinho, um dos intelectuais marxistas mais respeitados do Brasil, recebeu a Caros Amigos em seu apartamento no bairro do Cosme Velho, Rio de Janeiro, para uma conversa sobre os caminhos e descaminhos da esquerda brasileira, sua decepção com o governo Lula e as possibilidades de superação do capitalismo.

Estudioso de Antonio Gramsci, Coutinho defende a atualidade de Marx e reafirma o que disse em seu polêmico artigo “Democracia como valor universal”, publicado há 30 anos: “Sem democracia não há socialismo, e sem socialismo não há democracia”.

Hamilton Octávio de Souza- Queremos saber da sua história. Onde nasceu, onde foi criado, como optou por esta carreira.

Carlos Nelson Coutinho – Nasci na Bahia, em uma cidade do interior chamada Itabuna, mas fui para Salvador muito pequenininho, com uns 3 ou 4 anos. Me formei em Salvador, e as opções que eu fiz, fiz em Salvador. Eu nasci em 1943, glorioso ano da batalha de Stalingrado. Me formei em filosofia na Universidade Federal da Bahia, um péssimo curso, e com meus 18 ou 19 anos sabia mais do que a maioria dos professores. Meus pais eram baianos também. Meu pai era advogado e foi deputado estadual durante três legislaturas da UDN. Publicamente ele não era de esquerda, mas dentro de casa ele tinha uma posição mais aberta. Eu me tomei comunista lendo o Manifesto Comunista que o meu pai tinha na biblioteca. Ele era um homem culto, tinha livros de poesia. Minha irmã, que é mais velha, disse que eu precisava ler o Manifesto Comunista. Foi um deslumbramento. Eu devia ter uns 13 ou 14 anos. Aí fiz faculdade de Direito por dois anos porque era a faculdade onde se fazia política, e eu estava interessado em fazer política. Me dei conta que uma maneira boa de fazer política era me tomando intelectual. Aos 17 anos entrei no Partido Comunista Brasileiro, que naquela época tinha presença. O primeiro ano da faculdade foi até interessante porque tinha teoria geral do Estado, economia política, mas quando entrou o negócio de direito penal, direito civil, ai eu vi que não era a minha e fui fazer filosofia.

Renato Pompeu – Mas quais eram as suas referências intelectuais?

Carlos Nelson Coutinho – Em primeiro lugar, Marx, evidentemente, mas também foram muito fortes na minha formação intelectual o filósofo húngaro George Lukács e Gramsci. Eu tenho a vaidade de ter sido um dos primeiros a citar Gramsci no Brasil, porque aos 18 anos eu publiquei um artigo sobre ele na revista da faculdade de Direito. Aí eu vim para o Rio e fui trabalhar no Tribunal de Contas. Me apresentei ao João Vieira Filho para trabalhar e ele me falou: “meu filho, vá pra casa e o que você precisar de mim me telefone”, Eu fiquei dois ou três anos aqui sem trabalhar, mas a situação ficou inviável. Pedi demissão e fui, durante Um bom tempo, tradutor. Eu ganhava a vida como tradutor, traduzi cerca de 80 ou 90 livros. Em 76, eu fui para a Europa. Passei 3 anos fora, não fui preso, mas senti que ia ser, foi pouco depois da morte do Vlado. Então morei na Europa por três anos, onde acho que aprendi muita política. Morei na Itália na época do florescimento do eurocomunismo, que me marcou muito. O primeiro texto que publiquei é exatamente este artigo da “Democracia como valor universal” que causou, sem modéstia, um certo auê na esquerda brasileira na época. Até hoje há citações de que é um texto reformista, revisionista. Enfim, voltei do exílio e entrei na universidade, na UFRJ, onde eu estou há quase 28 anos. Passei por três partidos políticos na vida. Entrei no PCB, como disse antes, aos 17 anos, onde fiquei até 1982, quando me dei conta que era uma forma política que tinha se esgotado. Nesse momento, surge evidentemente uma coisa que o PC não esperava e não queria, que é um partido realmente operário, no sentido de ter uma base operária. O mal-estar do PCB contra o PT no primeiro momento foi enorme. Eu saí do PCB, mas não entrei logo no PT. Só entrei no PT no final da década de 80, entrei junto com o [Milton] Temer e o Leandro Konder. Fizemos uma longa discussão para ver se entrávamos ou não, e ficamos no PT até o governo Lula, quando nos demos conta que o PT não era mais o PT. Saí e fui um dos fundadores do PSOL, que ainda é um partido em formação. Ele surge num momento bem diferente do momento de formação do PT, de ascensão do movimento social articulado com a ascensão do movimento operário. E o PSOL surge exatamente em um momento de refluxo. Nessa medida, ele é ainda um partido pequeno, cheio de correntes. Eu sou independente, não tenho corrente. Podemos dizer o seguinte: eu tinha um casamento monogâmico com o PCB, com o PT já me permitia traições e no PSOL é uma amizade colorida.

Tatiana Merlino – Em uma entrevista recente o senhor falou sobre o avanço e o triunfo da pequena política sobre a grande política dentro do governo lula. Você pode falar um pouco sobre isso?

Carlos Nelson Coutinho- Gramsci faz uma distinção entre o que chama de grande política e pequena política. A grande política toma em questão as estruturas sociais, ou para modificá-las, ou para conservá-las. A pequena política, para ele, Gramsci, é a política da intriga, do corredor, a intriga parlamentar, não coloca em discussão as grandes questões. Durante algum tempo, o Brasil passou por uma fase de grande política. Se a gente lembrar, por exemplo, a campanha presidencial de 89, sobretudo o segundo turno, tinha duas alternativas claras de sociedade. Não sei se, caso o PT ganhasse, ia cumpri-la, mas, do ponto de vista do discurso, tinha uma alternativa democrático-popular e uma alternativa claramente neoliberal. Até certo momento, no Brasil, nós tivemos uma disputa que Gramsci chamaria de grande política. A partir, porém, sobretudo, da vitória eleitoral de Lula, eu acho que a redução da arena política acaba na pequena política, ou seja, que no fundo não põe em discussão nada estrutural. Eu diria que é a política tipo americana. Obviamente o Obama não é o Bush, mas ninguém tem ilusão de que o Obama vai mudar as estruturas capitalistas dos Estados Unidos, ou propor uma alternativa global de sociedade. Então, o que está acontecendo no Brasil é um pouco isso, dando Dilma ou dando Serra não vai mudar muita coisa não. Até às vezes desconfio que o Serra pode fazer uma política menos conservadora, mas depois vão me acusar de ter aderido a ele. Eu até faço uma brincadeira, dizendo que a política brasileira “americanalhou”, virou essa coisa… Então, neste sentido eu entrei no PSOL até com essa ideia de criar uma proposta realmente alternativa. Infelizmente o PSOL não tem força suficiente para fazer essa proposta chegar ao grande público, mas é uma tentativa modesta de ir contra a pequena política. (Para ler mais: acesso )

*****

Textos, entrevistas, vídeos

Neoliberalismo: revolução passiva ou contra-reforma, NR, 2012 acesso
A atualidade de Antonio Gramsci acesso
Marxismo e a imagem do Brasil na obra de Florestan Fernandes acesso
Leandro Konder, um filósofo democrático  acesso
Gramsci e o sul do mundo: oriente e ocidente acesso
Cidadania e modernidade acesso
Estado brasileiro: gênese, crise e alternativas acesso
Entrevista: “Reformas geram revolução?”  acesso
Entrevista: la filosofia de la praxis en Brasil acesso
 Entrevista à revista Teoria e Debate, 2002   acesso
Gramsci e a Comuna de Paris (video)  acesso
Debate sobre Nelson Werneck Sodré (vídeo)  acesso
Partidos e movimentos sociais na sociedade contemporânea (vídeo) acesso
*****

Depoimentos

* NOTA de Novos Rumos

“A Revista Novos Rumos vem a público prestar suas homenagens ao grande intelectual, revolucionário e militante comunista, Carlos Nelson Coutinho. Tivemos o privilégio de contar com suas contribuições em nossas páginas ao longo da história de nossa revista, como importante estudioso e difusor da obra de Antonio Gramsci no Brasil e, mais ainda, em nosso número de retomada, publicado no primeiro semestre deste ano. Perda irreparável, só nos resta expressar nestas poucas linhas uma pequena parte daquilo que é o reconhecimento de uma vida”. Marcos Del Roio – Editor / Angélica Lovatto – Editora-assistente

* NOTA do HISTEDBR

“A Direção e os membros do Grupo de estudos e pesquisas “História, Sociologia e Educação no Brasil” (HISTEDBR), FE, Unicamp, lamentam o falecimento do intelectual e militante Carlos Nelson Coutinho, pelas contribuições que deu ao marxismo em nosso país, notadamente por sua permanente militância revolucionária”. José (Zezo) Claudinei Lombardi, Unicamp

* NOTA do Núcleo de Estudos de Ideologias e Lutas Sociais (NEILS)  e revista Lutas Sociais.

“Morreu ontem um dos intelectuais marxistas mais controvertidos do Brasil, Carlos Nelson Coutinho. Deixa uma sólida contribuição para o aprofundamento e disseminação deste campo teórico-prático. Passou por diversos partidos e jamais mudou de lado. Em múltiplas dimensões da existência, levou Gramsci a sério.

Sempre demonstrou imensa generosiade, paciência e dignidade para ouvir e responder a críticas corretas ou carentes de fundamento, justas ou injustas. Sem qualquer arrogância, desbravou e ensinou como poucos. Faz falta”.

* NOTA de História & Luta de Classes

“Afirmando corretamente a indissolúvel vinculação entre conhecimento e práxis, o necessário condicionamento histórico de todo conhecimento….” (Carlos Nelson Coutinho. In: Gramsci: um estudo sobre seu pensamento político, 1992, p. 142).

Desde as edições em nosso País, pela Civilização Brasileira, das obras de Antônio Gramsci, em trabalho conjunto com Leandro Konder, ainda na década de 1960, passando pela reflexão intelectual sobre o Brasil, sempre com teses polêmicas sobre a nossa formação econômico-social e o significado da democracia, a perda de Carlos Nelson Coutinho nos deixa mais desamparados intelectualmente na resistência à tentativa de imposição neoliberal de um “pensamento único” e contra os relativismos pós-estruturalistas que tanto seduzem os meios acadêmicos e intelectual. Suas lúcidas reflexões e suas instigantes provocações inovadoras seguem o legado de sua maior referência intelectual, o comunista Antônio Gramsci, simplesmente uma das mais complexas “concepções dialéticas da História” brasileira.

História & Luta de Classes, através de sua Comissão Editorial, torna público seu profundo pesar com a morte de um dos maiores pensadores brasileiros, sempre renitente em defesa da tradição marxistas”.

* NOTA do Instituto Caio Prado Jr. e da revista Novos Temas

“O ICP (Instituto Caio Prado Jr.) e a Revista Novos Temas se associam ao conjunto dos lutadores sociais e aos marxistas brasileiros, para homenagear Carlos Nelson Coutinho. faleceu um comunista, um intelectual do campo da revolução e um dos mais fecundos e polêmicos pensadores do marxismo no Brasil. A sua obra e o seu exemplo de vida serão lições para o avanço da nossa luta. Carlos Nelson Coutinho, Presente!

José Paulo Netto, Milton Pinheiro, Sofia Manzano, Mauro Iasi, Edmilson Costa, Antonio Carlos Mazzeo

* NOTA da revista Margem Esquerda e Boitempo editorial.

“Morreu Carlos Nelson Coutinho, o principal filósofo marxista brasileiro. Juntamente com Leandro Konder foi responsável, na antiga editora Civilização Brasileira, sob a direção de Ênio Silveira, por introduzir no Brasil autores como György Lukács e Antonio Gramsci como também da trilogia de Isaac Deutscher sobre Leon Trotsky. Carlito, como era conhecido pelos amigos, formou-se em filosofia na Universidade Federal da Bahia e foi recentemente nomeado professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Autor de obras fundamentais sobre teoria política dedicou-se também à crítica cultural e à tradução. Pela Boitempo, publicou De Rousseau a Gramsci: ensaios de teoria política, no final de 2011, e de vários outros livros, entre os quais: Gramsci. Um estudo sobre seu pensamento político (Civilização Brasileira, 3. ed., 2007); Contra a corrente: ensaios sobre democracia e socialismo (Cortez, 2. ed., 2008); O estruturalismo e a miséria da razão (Expressão Popular, 2. ed., 2010), além do ensaio “A democracia como valor universal”, publicado pela extinta Editora Ciências Humanas, em 1980. Foi responsável ainda pela edição brasileira dos Cadernos do cárcere, de Gramsci (Civilização Brasileira, 1999-2002). Militou no Partido Comunista Brasileiro (PCB), no Partido dos Trabalhadores (PT), no Partido Socialismo e Liberdade (PSoL) e apoiava o MST.

Carlos Nelson partiu após meses de luta contra um câncer, descoberto em fevereiro deste ano. Na ocasião, disse: “Ainda estou perplexo – mas disposto a brigar. Também sobre isso, tenho tentado me valer do mote de Gramsci: “pessimismo da inteligência, otimismo da vontade”. No próximo sábado a Boitempo prestará uma homenagem a ele no encerramento do III Curso Livre Marx-Engels (este realizado em parceria com o Sindicato dos Bancários de São Paulo), após a aula proferida por Michael Löwy. Na pessoa desse importante intelectual marxista, homenagearemos todos os que lutam pela emancipação dos povos.

A Boitempo e a revista Margem Esquerda, neste momento triste e difícil, expressam sua solidariedade irrestrita aos familiares de Carlos Nelson Coutinho e se somam a todos àqueles que prestam seu tributo e homenagem a este grande pensador brasileiro”.

* Nota da revista Contra-maré (online):

O falecimento de Carlos Nelson Coutinho no dia 20 de setembro leva-nos a relembrar aspectos importantes de sua obra e de sua trajetória política. Coutinho era reconhecido como um dos maiores especialistas no pensamento gramsciano. Coutinho deu a devida importância ao novo programa elaborado por Gramsci para as chamadas “classes subalternas” do Ocidente. Em seus ensaios, o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro deixou muito claro que, segundo Gramsci, a teoria da Revolução Permanente defendida por Marx e Engels em 1850 e aplicada pelos bolcheviques em outubro de 1917 – a chamada via soviética baseada na construção de uma dualidade de poder – deveria ser substituída pela estratégia da conquista da hegemonia no interior do Estado burguês, Estado que, nos países desenvolvidos do Ocidente, havia se ampliado e se tornado mais resistente a um ataque frontal. Nesse sentido, Coutinho foi extremamente fiel àquilo que estava realmente escrito nos Cadernos do Cárcere. A Revista Contra-maré elogia essa atitude intelectual, a atitude de ler a obra em sua literalidade, atitude que em muito contribui para esclarecer e delimitar com rigor e transparência os diferentes programas defendidos por aqueles marxistas que passaram por experiências revolucionárias, como, entre outros, Marx, Engels, Lenin, Trotsky e Gramsci.

 * NOTA do IMO/UECE

“O Instituto de Estudos e Pesquisas do Movimento Operário da Universidade Estadual do Ceará (IMO/UECE) junta-se aos companheiros marxistas no pesar diante da perda do nosso intelectual e militante histórico Carlos Nelson Coutinho”.  Susana Jimenez

* NOTA da Direção Nacional do MST:

“Reunidos na Escola Nacional Florestan Fernandes, recebemos com profunda tristeza a notícia da perda de nosso companheiro Carlos Nelson Coutinho. A sociedade brasileira perde um de seus mais importantes pensadores, um intelectual que jamais se furtou dos debates de nosso tempo e que travou a batalha das ideias por uma nova sociedade com rigor teórico e a paixão da militância.

Aqui, nesta mesma Escola Nacional Florestan Fernandes, tivemos a oportunidade de recebê-lo como professor, o que demonstra sua profunda coerência como verdadeiro intelectual orgânico da classe trabalhadora, comprometido em socializar o conhecimento e contribuir na formação de militantes. Em inúmeras ocasiões, recebemos seu apoio e solidariedade na luta pela terra e pela reforma agrária.

Sua ausência nos deixa uma lacuna inestimável: um pensador marxista vigoroso; um estudioso preocupado em permitir o acesso à obra de Gramsci e Lukács ao público brasileiro; um militante atento e dedicado à discussão dos problemas atuais da sociedade brasileira.

É com este sentimento de respeito e admiração que nos despedimos do Professor Carlos Nelson Coutinho, que nos somamos ao pesar de familiares e amigos e que nos comprometemos com seu legado, lutando sempre por uma sociedade justa, humana e socialista”.

Direção Nacional do MST / Guararema, SP, 20 de Setembro de 2012

 * NOTA da Fundação Maurício Grabois

“A Fundação Maurício Grabois lamenta o falecimento do professor Carlos Nelson Coutinho, aos 69 anos, na manhã desta quinta-feira na cidade do Rio de Janeiro. Carlos Nelson era baiano, natural de Itabuna, com formação em filosofia pela UFBA. Desde muito jovem tornou-se ensaísta e tradutor de grande respeito entre os comunistas brasileiros e também junto ao público mais amplo.

Dedicou-se com mais intensidade às obras do filósofo húngaro Georg Lukács e do italiano Antonio Gramsci, sendo responsável pela edição e divulgação de numerosos escritos desses autores, bem como do pensamento marxista em geral. No que respeita a Gramsci, é autor de diversos estudos e de um prestigiado livro, Gramsci. Um estudo de seu pensamento político. Foi também tradutor e organizador da edição brasileira dos “Cadernos do Cárcere”, escritos pelo autor italiano. Na universidade, era professor emérito da Escola de Serviço Social da UFRJ.

Carlos Nelson deixa uma obra importante e com marca própria na reflexão sobre o marxismo no Brasil. Lega também às gerações presentes e vindouras um exemplo de dedicação intelectual e militante à causa do socialismo”. Adalberto Monteiro/ Presidente da Fundação Maurício Grabois.

* NOTA do MODECON

“O Movimento em Defesa da Economia Nacional  vem se solidarizar e se juntar na dor e na tristeza aos  muitos amigos, companheiros e admiradores do grande intelectual combativo e intransigente defensor da democracia e do socialismo. A morte de Carlos Nelson Coutinho é uma perda mais sentida ainda em razão do momento em que os rumos da Humanidade se encontram atingidos pelo crescimento de manifestações  de  barbárie a mutilar os espaços de democracia e liberdade conquistados pelas forças sociais progressistas”. Lincoln de Abreu Penna, Presidente do MODECON

*****

NOTAS  DE PARTIDOS POLÍTICOS DE ESQUERDA

* Partido Comunista Brasileiro

“O Comitê Central do PCB lamenta profundamente o falecimento do intelectual marxista e militante comunista, Carlos Nelson Coutinho. Carlos Nelson, que durante 20 anos foi integrante das fileiras do PCB, impactou a cultura política marxista ao introduzir no Brasil o pensamento clássico dos filósofos György Lukács e Antonio Gramsci, contribuindo para que a vanguarda brasileira tivesse acesso às formulações desses pensadores. Estudioso da formação brasileira e da sua cultura política, o professor da UFRJ, foi autor de uma polêmica e rica leitura de Gramsci, no Brasil

* Partido do Socialismo e Liberdade

“É com tristeza que recebemos a notícia do falecimento de Carlos Nelson Coutinho. À família e amigos nossos sentimentos e abraços solidários. A importância intelectual de Carlos Nelson para as Ciências Humanas e para o pensamento político marxista no Brasil é incontestável, sobretudo, como responsável pela difusão e edição da obra de Gramsci em língua portuguesa.

Carlos Nelson, contudo, deixa uma lacuna ainda maior. Além de sua importância como intelectual, ele foi um exemplo de comprometimento militante desde os anos 80, na construção de uma alternativa partidária socialista e de esquerda na sociedade brasileira, seja no PCB, depois no PT e atualmente como filiado do PSOL. Carlos Nelson teve destacada importância no movimento que criou o partido, sendo um de seus fundadores.

Sua profícua obra contribuiu muito para o desenvolvimento do pensamento socialista, sobretudo na sua defesa do socialismo com democracia. Para ele não era possível construir o socialismo sem democracia, mas não seria possível uma real democracia sem socialismo.

Em tempos de “hegemonia da pequena política” continuar sua obra é seguir lutando com o “otimismo da vontade” por transformações profundas das condições de vida do nosso povo, por uma sociedade mais justa e livre de toda forma de exploração e opressão”.

Ivan Valente, Presidente Nacional do PSOL

Publicado em Sem categoria | Tags , , , | Comentários Desligados

Nelson Werneck Sodré: um marxista engajado

Dando sequência à série de matérias sobre relevantes autores do pensamento marxista brasileiro, marxismo21 destaca agora a produção intelectual e política de NELSON WERNECK SODRÉ. Nesta seção divulgamos Quem é povo no Brasil?, um pequeno livro que, de forma exemplar, revela bem o compromisso político-ideológico do historiador na luta por mudanças sociais e pelo aprofundamento da democracia política brasileira no pré-1964. A seguir publicamos um texto – especialmente elaborado para o blog – de um competente estudioso sobre a extensa e diversificada obra do autor, Paulo Ribeiro da Cunha. Outras matérias (artigos, trabalhos acadêmicos de pesquisadores brasileiros e vídeos) sobre os trabalhos do pensador marxista são aqui editadas.

Por último, informamos que o/as intressado/as em receber informações regulares do blog, devem fazer o devido cadastramento (no alto, à direita).

 *****

Quem é povo no Brasil? *

Poucas palavras têm um emprego tão frequente quanto a palavra povo. Na linguagem política, nenhuma a excede em uso. “Vontade do povo”, “interesse do povo”, “defesa do povo”, são expressões correntes, repetidas por quantos falam e escrevem. Como o ato político por excelência, nas democracias do tipo do Brasil, é o ato eleitoral — quando são escolhidos os “representantes do povo” — a realização desse ato, dos preliminares à apuração de resultados, corresponde a um período em que o consumo da referida palavra é mais intenso: todos os interessados dizem dirigir-se ao povo, apelam para o povo, proclamam os direitos do povo.

Esse uso imoderado, embora natural nas condições em que vivemos, por parte de pessoas as mais variadas, e dirigindo-se, também, aos grupos mais variados, deu à palavra povo uma significação tão genérica que a despojou de qualquer compromisso com a realidade. Na boca ou na pena dos homens públicos, hoje, — e claro está que isso não acontece somente no Brasil, — povo é uma abstração. Cada um é livre de atribuir à palavra povo o significado que bem imaginar. E, particularmente, incluir-se em pessoa naquilo que imagina ser o povo. Mesmo na linguagem política, — e é no plano político que o seu uso tem importância, — aquela palavra mágica, refrão a que todos se apegam, fórmula para todos os problemas, sésamo para todas as portas, não tem limitações, contorno, características.

Expressa, de modo vago, aliás, todos os que participam da vida política, e mesmo a maioria dos que dela não participam. Ninguém aceitaria a sua própria exclusão do campo a que se aplica o letreiro povo. Todos se consideram povo. Uma secreta intuição, entretanto, faz com que cada um se julgue mais povo quanto mais humilde a sua condição social: é este um título, aliás, — e o único, — de que os desfavorecidos da sorte não abrem mão. Eles nada possuem, mas por isso mesmo orgulham-se de ser povo. Esse orgulho corresponde, espontaneamente, ao sentido da definição que liga o conceito de povo à situação econômica dos grupos, camadas ou classes sociais.

Algumas correntes, realmente, interpretando os fatos políticos, identificam o povo com os trabalhadores, e admitem que os trabalhadores constituem as massas populares, ou a sua maioria, sendo desprezíveis, no conjunto daquelas massas, os não trabalhadores. Outros, mais rigorosos, aceitam como trabalhadores e, consequentemente, como povo, apenas os produtores de bens materiais. É verdade, sem dúvida, que, em todos os tempos, em todas as fases históricas, os trabalhadores ou, mais restritamente, os produtores de bens materiais, constituíram, e constituem, a massa principal do povo, e desempenharam, e desempenham hoje, com mais forte razão, o papel fundamental no desenvolvimento da sociedade. Mas é também fato indiscutível que, em todas as fases históricas, e ainda hoje, na fase histórica que estamos vivendo, as massas populares abrangeram, e abrangem, camadas muito variadas da população, nelas compreendidas as que não produziam, e não produzem, bens materiais, e até mesmo aquelas que se distinguiam pela circunstância de aproveitar o trabalho alheio para se diferenciar das outras.

A ideia de que o povo é constituído apenas pelos produtores de bens materiais é uma inequívoca limitação, na grande parte dos casos, — no caso do Brasil, por exemplo. Há trabalhadores, na sociedade brasileira, e na sociedade de todos os países, que não podem ser englobados entre os produtores de bens materiais e, entretanto, pertencem ao povo. Os empregados não produzem bens materiais, nem os funcionários, nem os intelectuais. Seria justo excluí-los do conceito de povo? Parece que não. Por aí vemos que o critério econômico restrito não pode servir de base a uma conceituação aceitável e justa. Outros critérios, mais amplos, que englobam entre os trabalhadores também aqueles que realizam um trabalho útil à sociedade, e não apenas um trabalho que resulte na produção de bens materiais, seriam mais justos, sem qualquer dúvida. Mas não levariam ainda a um conceito exato de povo.

Antes do exame de um critério que possa levar a um conceito exato de povo, é importante assinalar que o conceito de povo não pode ser definido senão considerando as condições reais de tempo e de lugar. Povo, hoje, no Brasil, não é o que era há um século; não é a mesma coisa que nos Estados Unidos; nem o que é na China. A composição dos grupos, camadas e classes que constituem o povo muda ao longo do tempo, e varia de país em país, de nação em nação. Dentro de um mesmo país, a referida composição muda conforme a sociedade evolui: é pacífico que o operário brasileiro faz parte do povo, hoje. Mas há cem anos não havia operários, no Brasil. Isto significa que não havia povo? Parece que não.

Povo, há cem anos, era uma coisa, entre nós; hoje, é outra. Há cem anos, faziam parte do povo grupos, camadas e classes que, hoje, não fazem parte do povo. Uns continuam a existir, a ter um papel, mas deixaram de fazer parte do povo; outros se extinguiram, e por isso deixaram de fazer parte dele; terceiros surgiram mais tarde, e passaram a fazer parte do povo ou não passaram, conforme o papel social que desempenham. O conceito de povo evolui, portanto, muda conforme a sociedade muda. Mas é certo que tais mudanças não são arbitrárias e acidentais; e por isso há sempre critérios justos para se definir o conceito exato de povo em cada fase distinta.

Há, evidentemente, em todos os tempos, população e povo. Os dois termos designam a mesma coisa apenas na fase inicial da história humana, a da comunidade primitiva, quando não existem classes: povo é então toda a população. A divisão do trabalho assenta em condições naturais e não em condições sociais; assenta nas condições de sexo e idade: o homem realiza determinado trabalho; a mulher, outro; o velho, outro. É uma divisão natural: não torna alguns elementos mais ricos do que os outros, nem mais poderosos. Mas quando a sociedade se desenvolve, surgem as classes sociais e, com elas, a divisão social do trabalho: uns trabalham, outros usufruem do trabalho alheio. A partir desse momento povo já não é o mesmo que população: os termos começam a designar coisas diferentes. E não há, a partir de então, critério objetivo para definir o conceito de povo que não esteja ligado ao conceito da sociedade dividida em classes.

Daí por diante, até os nossos dias, povo será um conjunto de classes (ou camadas, ou grupos), ficando outras classes, (ou camadas, ou grupos) excluídas do conceito. Mas como as classes não são fixas e estáticas, e a situação de umas em relação às outras também muda, povo não significa sempre a mesma coisa, isto é, não tem sempre a mesma composição social, não agrupa sempre as mesmas classes. O conceito de povo, pois, — histórico como todos os conceitos, — não coincide com o de população. O vazio, o abstrato de que se reveste, no nosso tempo, na linguagem política usual, deriva da tendência a confundir o verdadeiro, justo e exato sentido do termo. A insistência na confusão visa a sonegar a realidade, esconder o fato de que a sociedade se divide em classes e que nem todas as classes estão incluídas no conceito de povo. Em cada fase histórica este conceito tem determinado conteúdo, refletindo a estrutura social vigente e na dependência das condições econômicas imperantes. (Ler mais: acesso )

*****

Nelson Werneck Sodré: uma obra militante

 Paulo Ribeiro da Cunha *

Ao longo da história brasileira, vários intelectuais se destacaram pelo conjunto de sua obra, poucos, no entanto, somam a este reconhecimento uma inserção militante, especialmente no campo popular.  Recentemente, alguns deles começaram a ser resgatados no debate político e acadêmico; todavia, entre eles há uma singularidade que foi Nelson Werneck Sodré. Ele desenvolveu sua trajetória na perspectiva de duas vocações, a primeira, a vocação como  militar de carreira; a segunda, como intelectual de profícua obra de cerca 56 livros, além de autor de milhares de artigos, abordando várias áreas do conhecimento como a história, a economia, a política, militares entre outras.  Se ao mesmo tempo, como militar, chegou a patente de general (da reserva); como intelectual, desenvolveu esta vasta produção teórica descolada da universidade, algo singular por sua dimensão, e na confluência de ambas as vocações, há ainda uma outra característica do historiador bem pouco explorada: a do revolucionário. Esta confluência vocacional de Nelson Werneck Sodré tem origem no tenentismo, e, aos poucos, pavimentada em sua rotação à esquerda e ao marxismo, sendo que, no processo de lutas no Brasil do século XX, ele atuou com destaque militantemente nas grandes causas nacionais. Porém, o preço pago pelo também foi alto, e refletiu por um lado, no obscurantismo e sua rejeição das forças armadas como um de seus maiores pensadores; e, por outro, também expressou na academia, em face de sua condição de militar e militante comunista (com uma obra produzida à margem de seu campus), a rejeição por alguns setores universitários a qualquer diálogo. Nos últimos tempos, temos visto sua redescoberta – através de livros sobre o autor e dissertações sobre sua obra – e a retomada de um diálogo sobre a contemporaneidade de suas teses que, aos poucos começam a transpor os muros acadêmicos, embora esta aproximação ainda esteja distante entre os militares.

Nelson Werneck Sodré nasceu em 1911, vindo ao mundo pouco antes de grandes acontecimentos internacionais como a I Guerra e a Revolução Russa com reflexos diretos em um Brasil em transformação, como ele mesmo ressalta em suas memórias, embora ainda um país dependente no seu quase centenário de independência. Sua origem familiar é modesta e não tem qualquer tradição com a carreira das armas; na verdade, ele como muitos de sua geração e das subsequentes, entraria no Colégio Militar e posteriormente na Escola Militar como a quase única possibilidade naqueles tempos de viabilizar uma ascensão social e ter uma formação. Não sem coincidência, esta experiência – não isenta de suas críticas – possibilitaria a Sodré elementos para fundamentar – conjuntamente com outras mediações como o fato dos militares estarem ao lado das causas nacionais e progressistas em vários momentos de nossa história – a controversa tese da vocação democrática do exército. Mas não somente este aspecto veio influenciar sua formação, embora esta passagem no exército seja uma determinação; o Brasil à época vivificava uma era de grandes transformações, seja pela emergência de um movimento operário que aos poucos se inseria no processo político como ator social; mas que também vivificado pela participação dos militares na política, particularmente com a emergência do tenentismo como expressão de vanguarda de um processo revolucionário burguês que antecipava a presença da jovem oficialidade no processo histórico.

Sodré teve uma discreta atuação política na época de cadete e aspirante (a rigor, esta foi uma característica de sua vida), atuando mais como escritor e abordando em seus artigos temas variados e que iriam compor a substância de suas futuras teses. Curiosamente, diria posteriormente em suas memórias que não era político. Na época, destacou-se, pelo resgate da Revista da Escola Militar e que por si só, não era pouco, até porque, pavimentava nesta perspectiva o diálogo extramuros e que, na sua leitura, seria   entendia ser fundamental para aproximar o exército da sociedade civil. Mas não somente. A Escola Militar era igualmente um palco de debates, já tendo entre os futuros cadetes à época uma reflexão sobre a Revolução Russa, bem como tinham a leitura de autores nacionais e mesmo clássicos dentro da instituição. O corpo docente era composto por professores de várias tendências, alguns deles socialistas convictos, e nos anos 30, havia inclusive na instituição a presença de células comunistas. Quando o historiador  ali estudou, algumas greves organizadas por estas células ocorreram; mas não há elementos para sustentar a tese de que ele tenha se aproximado do comunismo nesta época, embora fosse um leitor voraz, e alguns clássicos do marxismo como Lênin e especialmente Plekanov, fossem leituras de sua intimidade. Daí podemos sustentar a hipótese que sua perspectiva sobre um projeto nacional estivesse em grande medida embasada nos autores vinculados a II Internacional. Todavia, a Escola Militar não estava dissociada do momento político nacional,  e, além dos vários levantes tenentistas que refletiam internamente entre os alunos com conseqüente politização; outro fator  que se somava,  era a proximidade com o movimento operário de esquerda na Capital federal  e que teria contribuído para a transferência da instituição para a cidade de Resende. (ler mais: acesso )

* Professor de Teoria Política, Unesp, campus de Marília.

*****

Textos de pesquisadores sobre a obra de NWS (inseridos no blog)

A utopia tenentista no pensamento marxista de N. Werneck Sodré, Paulo R. CUNHA acesso
 Werneck Sodré e as intepretações do Brasil, Daniela CONTE acesso
 O conceito de povo nos Cadernos do povo brasileiro, Angélica LOVATTO acesso
Werneck Sodré hoje, Marcos SILVA acesso
Por uma releitura de Nelson Werneck Sodré, Leandro KONDER  acesso
A história engajada de Werneck Sodré, Lígia Maria SILVA acesso
A subversão da história oficial, Marly VIANNA  acesso
O ISEB e o golpe de 1964: entrevista a Denis de MORAES     acesso
O general, a história e a democracia: entrevista a Marco Aurélio NOGUEIRA  acesso
Werneck Sodré e o povo brasileiro, Augusto BUONICORE  acesso
Cultura Popular e a questão da cultura popular, Olga SODRÉ  acesso

Documentos 

Coleção Nelson Werneck Sodré, Biblioteca Nacional

acesso

Carta de Fidel Castro a NW Sodré, junho de 1985
acesso
Carta de Caio Prado Jr. a Werneck Sodré, 1947
acesso
Debate no Teatro Casa Grande (Rio de Janeiro) sobre a obra de Werneck Sodré

acesso

Debate no Cedem-Unesp: 100 anos de Werneck Sodré acesso

Publicado em Sem categoria | Tags , , | Comentários Desligados

Astrojildo Pereira: as origens do marxismo no Brasil

Duas semanas após seu lançamento, marxismo21 passa a publicar, com regularidade, textos de autores que têm uma presença relevante na formação e consolidação do pensamento marxista no Brasil. Igualmente, serão aqui postadas matérias de pesquisadores que discutem aspectos das obras desses marxistas. Coerente com esta orientação editorial, nada mais adequado do que inaugurar esta seção com um texto de Astrojildo Pereira, um dos fundadores do marxismo no Brasil. O acerto desta decisão ainda mais se reforça com a publicação de um valioso e lúcido texto – praticamente desconhecido pelos pesquisadores – do marxista brasileiro. Somos gratos a José Luiz Del Roio que nos privilegiou com A Revolução russa, breve artigo editado no número 1 da revista O Debate (12 de julho de 1917), pouco menos de três meses da Revolução de Outubro.

Sobre este lúcido e premonitório texto, publicamos um breve artigo de José Luiz Del Roio. Por sua vez, o significado da obra teórica e a trajetória política de Astrojildo Pereira são examinados em textos de quatro pesquisadores brasileiros: Augusto Buonicore, Marcos Del Roio,  Martin Cezar Feijó e Santiane Arias.  

Somos gratos pelas inúmeras mensagens recebidas nestas duas semanas de existência do blog. Elas nos convencem ainda mais da relevância e da pertinência de marxismo21: uma proposta editorial democrática, plural e unitária no campo das esquerdas brasileiras. Por último, informamos que para receber informações regulares do blog, deve-se fazer o devido cadastramento (ao lado).

Os Editores.

 *****

A Revolução Russa *

Astrojildo Pereira

 Bem difícil, sem dúvida, é precisar o curso dos atuais acontecimentos na Rússia. Aliás, seria rematada tolice pretender firmar tais ou quais traços definitivos do grande movimento que deu por terra, abruptamente, com a casta dos Romanof, e com ela, de cambulhada, todas as demais castas aristocráticas e monopolizadoras das riquezas e do poder.

Movimento de tal magnitude e complexidade, revolvido por mil correntes diversas, há de por força manifestar-se confuso e contraditório, com altos e baixos, com claros e escuros violentos. Impossível, pois, determinar em linhas inflexíveis os traços essenciais dos fatos revolucionários e suas consequências. O que não quer dizer que, em meio do cipoal dos telegramas e correspondências e de outros documentos mais raros, não se possa fazer uma ideia mais ou menos aproximada do grande drama político – grande por si mesmo e ainda maior pelas suas consequências – da orientação que o tem guiado e das tendências que o caracterizam.

Os dois núcleos orientadores do movimento, a Duma e o Comitê de Operários e Soldados, este surgido da própria revolução, logo tomaram posições antagônicas, terminado o primeiro golpe demolidor. A Duma, vinda do antigo regime, pode dizer-se representa, em maioria, a burguesia moderada e democrática, ao passo que o Comité de Operários e Soldados, composto de operários, representa o proletariado avançado, democrata, socialista e anarquista. A Duma deu o governo provisório e o primeiro ministério; o Comité de Operários e Soldados derrubou o primeiro ministro, influiu poderosamente na formação do segundo e tem anulado quase por completo, senão de todo, a ação da Duma.

Insignificante, sem nenhum peso, pelo menos até agora, o elemento reacionário e aristocrático, a situação russa tem que obedecer, na sua luta pela estabilização pública, às duas forças principais enfeixadas pelo proletariado socialista e anarquista e pela burguesia democrática e republicana. A qual das duas forças está destinada a preponderância na reorganização da vida russa? O que se pode afirmar com certeza é que essa preponderância tem cabido, até agora, ao proletariado.

E como o proletariado, cuja capacidade política já anulou o papel da Duma burguesa, está também com as armas na mão, não encontrando, pois resistência séria aos desígnios, não muito longe da certeza andará quem prever a sua contínua preponderância, até completa absorção de todos os campos da vida nacional, extinguindo-se, de tal modo num prazo mais ou menos largo a divisão do povo em castas diversas e inimigas.

E inútil é insistir na influencia que tais acontecimentos exercerão no resto do mundo, na obra de reconstrução dos povos, cujos alicerces estão sendo abalados pelo fragor inaudito dos grandes canhões destruidores…

* Revista O Debate, no. 1, vol. 1, Rio de Janeiro,  julho de 1917.

*****

Astrojildo e Lênin

José Luiz Del Roio *

Quando os editores de marxismo21 me pediram um artigo de Astrojildo Pereira para publicar neste blog, recordei-me imediatamente de um pequeno texto publicado na revista O Debate de julho de 1917.

Em 1911, Astrojildo tinha aderido às ideias anarquistas depois da desilusão com o movimento civilista de Rui Barbosa e o horror às injustiças. Naquele momento ficou golpeado com a repressão da Revolta da Chibata e a execução, na Espanha, do criador da Escola Moderna, Francisco Ferrer.

Numa aventurosa viagem a Europa tomou contato com “agitadores sociais” e encheu sua pobre mala de livros anarquistas. Ao voltar, jogou-se com todo o vigor de sua juventude inteiramente à causa que havia aderido; desde então tornou-se um ponto de referência para os militantes em todo o pais.

Quando eclodiu a I Guerra Mundial, fez denúncias contra aquela mortandade; em 1915, organizou um Congresso pela Paz. Mas o horizonte parecia totalmente obscuro. Um brilho surgiu com a revolução de fevereiro de 1917, na Rússia, que liquidou a monarquia dos Romanov. Os anarquistas brasileiros festejaram, mas suas análises sobre o grande evento eram frágeis e confundiam os seus desejos com a realidade.

Astrojildo moveu-se de forma diferente. Muito importantes eram os acontecimentos que se passavam naquele longínquo país para não entendê-lo em profundidade e ver quais ensinamentos poderiam ser úteis.

Com os poucos materiais que podia contar à época, estudou com afinco; escreveu inúmeros artigos, polemizou com seus companheiros e com a imprensa reacionária. Nesta labuta afastou-se do anarquismo e chegou ao marxismo, sendo o principal artífice da construção da seção brasileira da Internacional Comunista – o partido comunista – em 1922.

O artigo acima representa o inicio de seu percurso que, como se pode ver, já é muito consistente. A linguagem é anarquista, mas os conceitos já são incrivelmente “leninistas”.  O núcleo do artigo é a afirmação de que existem dois poderes no bojo da revolução russa: a Duma burguesa e o Soviete de operários e soldados. Que estes são antagônicos e entrarão em conflito total e que o Soviete deverá vencer, pois tem também o poder das armas, nas mãos dos soldados. Genial percepção, pois foi isso mesmo que aconteceu na Rússia em outubro, poucas semanas depois.

Em 20 de abril, Lênin publicou no Pravda suas teses sobre a revolução, conhecidas exatamente como “Teses de abril”, embora no calendário gregoriano (vigente no Brasil) fosse já o dia 4 de maio. Ali o líder bolchevique colocou a questão dos dois poderes.  Teria Astrojildo tido acesso a este escrito? Pode ser. A pista está na frase (…) no meio do cipoal dos telegramas e correspondências e outros documentos mais raros (…)” Pode ser, mas é difícil acreditar. A tecnologia da comunicação era atrasada; a Europa estava em guerra e a censura dominava. Além do mais, Lênin ainda não era o nome que seria aclamado pelo proletário mundial poucos meses depois; era pouco conhecido. Sabe-se que no texto de abril, Lênin dizia que os bolcheviques eram poucos. “O nosso partido é pequeno e por enquanto é uma ínfima minoria na maior parte dos sovietes dos deputados operários (…)”

Se Astrojildo leu o escrito de Lênin, teve a imensa capacidade – naquela situação política confusão e totalmente isolado – de compreender os rumos corretos da revolução russa. Naquele momento foi, no Brasil, o único que teve essa clareza e capacidade de compreensão. Fato que comprova a sua sede de buscar, pesquisar, estudar e criar.

Se não leu o escrito de Lênin, só me cabe repetir, foi genial. De qualquer forma, o marxismo tinha dado um passo de gigante no áspero terreno do Brasil.

  • José Luiz Del Roio – escritor, fundador do Arquivo Histórico do Movimento Operário Brasileiro (Unesp) e ex-senador da República Italiana (Partido da Refundação Comunista).

*****

Textos de sobre a obra de Astrojildo Pereira

(disponíveis em marxismo21)

 Astrojildo Pereira e a gênese do comunismo no Brasil, Augusto BUONICORE   acesso
Astrojildo Pereira e a revista Estudos Sociais, Santiane ARIAS

acesso

Astrojildo Pereira: fundador do marxismo no Brasil, Marcos Del ROIO

acesso

Astrojildo Pereira, Leando KONDER

 acesso

Um revolucionário cordial, Martin Cezar FEIJÓ. O texto - extraido de livro (cedido por Boitempo) – é acompanhado de criteriosa bibliografia de Astrojildo Pereira e sobre o autor.

acesso

*****

Instituto Astrojildo Pereira

acesso

Publicado em Sem categoria | Tags , | Comentários Desligados

Proposta Editorial

marxismo21

Tantas vezes anunciada como superada ao longo de mais de um século, a teoria marxista tem despertado um significativo e abrangente interesse em todo o mundo. Para nós, isso decorre de sua natureza científica e de sua dimensão crítica, decisivas não apenas para a análise e diagnóstico da crise estrutural do capitalismo como também para a radical superação desta forma de sociabilidade, sobretudo a partir da mais recente crise da economia capitalista.

Entendemos também que o marxismo apenas conseguirá responder aos desafios do século 21 caso se mantenha aberto à confrontação permanente com os novos fenômenos da atualidade, seja na economia, seja na política, na cultura, etc., testando sempre a validade de suas hipóteses. Por sua vez, a afirmação teórica do marxismo nunca será um ato gratuito, implicando sempre um compromisso com as lutas sociais e políticas contra o capitalismo e pelo socialismo.

Com características inéditas no Brasil, marxismo21 visa responder às necessidades intelectuais não apenas de estudantes e pesquisadores, mas também de militantes sociais e partidários, professores e estudantes do ensino médio, informando-os sobre as programações, os eventos e as distintas produções teóricas comprometidas com as obras teóricas de Marx e Engels.

Convencidos de que a riqueza e a complexidade da teoria marxista se manifestam pelo seu pluralismo e diversidade, os editores se empenharão em divulgar as diferentes interpretações sobre a obra de Marx. Comprometido com uma orientação democrática, não-sectária e pluralista, marxismo21 não privilegiará nenhuma tradição teórica nem se filiará a qualquer corrente político-partidária atuante na cultura política brasileira. Além disso, pretende ser um espaço de articulação da pesquisa marxista buscando conferir-lhe um caráter mais articulado e coletivo num país de dimensões continentais como é o Brasil.

 O blog pretende ser, sobretudo, um instrumento útil e valioso na luta teórica, política e ideológica pela difusão do pensamento marxista, crítico e transformador. Esta expectativa funda-se na convicção de que as ferramentas oferecidas pelos novos suportes e mídias digitais, bem como os temas relativos à sua democratização e socialização, devem ser questões e desafios enfrentados pelo marxismo no século 21.

Iniciativa de pesquisadores marxistas, marxismo21 se  consolidará e será bem sucedido desde que tenha a solidariedade ativa das entidades de pesquisa e estudos, dos editores, dos autores e dos movimentos sociais e políticos de esquerda do país.

marxismo21 não é propriedade intelectual de seus atuais criadores, mas um compromisso de todos os marxistas que se dispuserem a participar de sua construção, produção e funcionamento.

CONSELHO EDITORIAL

Caio N. de Toledo
Danilo Martuscelli
Fernando Ponte de Souza
Luciano Martorano
Muniz Ferreira
Ricardo Figueiredo de Castro
 Sofia Manzano

                                                      CONSELHO CONSULTIVO

Adriano Nascimento, UFAL
 Angélica Lovatto, Unesp
Bruno Durães, Unifal, UFRB
David Maciel, UFG
Davisson de Souza, Unifesp
Diorge Konrad, UFSM
Eliel Machado, UEL
Eurelino Coelho, UEFS
Fernando Festi, Cotil/Unicamp
Flávio de Castro, sociólogo
Gilberto Calil, Unioeste
Joana Coutinho, UFMA
José Carlos Ruy, jornalista
José Claudinei Lombardi, Unicamp
José Roberto Cabrera, pesquisador
 Leandro Galastri, UNIFAL
 Lincoln Secco, USP
 Luiz Martins, USP
 Marcelo Carcanholo, UFF
 Márcio Naves, Unicamp
 Marcos Del Roio, Unesp
 Marcos Soares, UESB
 Maria Orlanda Pinassi, Unesp
 Mário Maestri, UPF
 Maurício Vieira, UFF
Mauro Iasi, UFRJ
 Milton Pinheiro, UESB
 Patrícia Trópia, UFU
 Plínio Sampaio Jr., Unicamp
Ricardo Festi, Cotil/Unicamp
 Ronaldo Rosas, UFF
 Sérgio Braga, UFPR
 Virgínia Fontes, UFF

Nota: os Editores são gratos a David Bonet, Diego Machado de Assis e Ricardo Festi cuja colaboração foi valiosa na criação de marxismo21.

Publicado em Sem categoria | Tags | Comentários Desligados